sexta-feira, 11 de abril de 2014

Emaús - Luciana Cavalcanti





Disseste 
que a luta é cada dia
Eu o sabia!
E disto sabias, por certo,
porém cabia lembrar-me
a cada instante
e o fizeste
em riso de contentamento,
em gesto de indignação,
no abraço de conforto
que nem carece de teus braços
em mim.

Abraças o Mundo
com as pernas,
com as mãos
e os olhos. Estes olhos
de enxergar a dor e desafiá-la,
de desafiar a dor e vencê-la,
de desfiar histórias
e tecer a História
na luz de um sonho.

E é luta de cada dia,
e é a dor mais atrevida,
e é chama flamejante,
e é o pão de cada dia.

Todos os dias, me dizes.
Todos os dias, recordo.

Por isso, cada manhã,
em água pura
desperto em meu rosto
a semelhança do teu.

"Emaús", Abril de 2014 - Recife, Várzea do Capibaribe.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

"Poema de caminho e caminhada" - Luciana Cavalcanti



Quis trazer ao Poema 
a luz de tua cor,
iluminação de teu suor, 
cotidiano,
fruto de lutas 
e sonhos,
fonte e semente
de algo que há de vir.

História,
pulsa em tuas mãos
morenas
a insistência do povo
que não se conforma
e repousa somente
para lutar amanhã,
mais forte
e melhor.

Quis trazer ao Poema
a poeira nos sapatos
e a certeza do caminho,
ousado.

Quis trazer esta ousadia,
nossa ousadia...
Novas auroras.

Quis trazer ao Poema
aquilo que só se marca
a ferro e fogo
nas cotidianas batalhas
quando se decide
doar-se e ser
ferro e flor,
como és,
como ousas,
como há tanto tempo
eu houvera sonhado:
"será toda a gente"
e seremos irmãos.

Serenizados,
não recordaremos as dores
da injustiça
e apreciaremos nossas cicatrizes
como medalhas...
E a luz do teu suor,
e o pó em teus sapatos,
testemunharão,
junto aos meus versos,
as bonitezas e as lonjuras
de haver chegado.

"Poema de caminho e caminhada", Várzea do Capibaribe.

domingo, 6 de abril de 2014

Poesia Pouca... (Luciana Cavalcanti)

ENIGMA

Desde janeiro, diante do espelho
buscando, passo a passo, descobrir
de que lado de mim eu estou...



...
paradoxo

este jeito de viver sempre
com pressa (inevitavelmente)
torna a vida breve-breve...


...
desequilíbrio

tanto e tão pouco.
a vida, sem medida,
deixa a gente louco...


...
A Máquina dos Tempos
Por que é que a gente sente,
quando o amor vem chegando,
uma ansiedade adolescente?

Fé - Luciana Cavalcanti

Fé 


Não conheço a Cabala.
Tampouco li o Corão.
Não contei quantas forças
e fraquezas trouxe Eva,
do homem, na costela de Adão.

De um coágulo de sangue,
preso a material cirúrgico
entre as minhas costelas,
Deus fez o milagre
de eu me descobrir barro...

Não o temor da Morte,
mas o pavor dos dias, todos,
em que não tenho vivido...
Eu, que não li o Mahabaratha
e desconheço a sabedoria dos Vedas!

Moisés prescreveu não tomar
O Santo nome de Iawhé em vão...
Com amor dizer Iawhé, Oxalá, Oxum.
E dizer Alá, Jesus, Brahma, Krishna,
no respeito de um dizer irmanado.

Não serei culpada, se não
me atingir alguma pedra. E, então,
serei livre por não ser profeta...
E não ofenderei a Deus,
de quem desconheço o Mistério.

Mas procurarei as Suas mãos, onde,
talvez, permanece a espátula de artesão
e ainda os calos do labor. Ou um corte,
quem sabe origem do coágulo...
e os restos do barro primeiro dos homens.


[ luciana.cavalcanti - Recife: 1999/2001 ]

Fruição (Luciana Cavalcanti)



Entrego-te algumas palavras nuas.
Estão aí para dizer o que são.
Não ensaiam,
não se aprumam,
nem passam por revisão.
Palavras soltas, que,
outrora cruéis,
não sabem senão desnudar-se
para dizer de sua vergonha.
Cada palavra é um espasmo,
um soluço,
um orgasmo.
Cada palavra é já
algo que eu não calculo.

Da Arte de Odiar - Luciana Cavalcanti

Da Arte de Odiar

Não quis aprender
Mas me ensinaram
Era lida dura
Ali, me doía o preconceito
acolá, me aconselhavam
alisar o cabelo
falar menos
ser menos espontânea
rir mais baixo
gozar sem gozo
viver sem paixão
estudar sem dúvidas
escrever sem alma
adaptar-me ao jogo
jogar com amores
ignorar as dores
caminhar no escuro
acostumar-me ao trânsito
e sempre
sempre
sempre
beber muita água
e passar
protetor solar
para viver melhor.

- Ora vejam: viver melhor!

Duas horas ou quase até o trabalho
sol a pino
o tratamento diferenciado
na agência bancária
de que sou cliente
desde antes
do primeiro emprego...
A mim, fila e mais fila
sem a água que preciso
beber
regularmente
para ser saudável
e aguentar
aquele prato feito de bar
servido
pelo garçom que espirra
sem lenços
(assim como eu!)...

Não quis aprender
Mas, ora, vejam:
um pilantra qualquer
- em seu justo papel
de macho - me pisa,
esquece
o telefone que eu não pedi,
o encontro que não marquei,
sua camisa
com que me vestiu.
E,
de cá,
eu pensando
"dura lição",
mas está escrito
imposto
atrasado
e dedicado.
Na frente do jornal
lês
"Foda-se!"
em cada manchete
e o mundo,
o mundo gira
à revelia
de nossa vontade que ele exploda
com ele,
a fatura do cartão de crédito
e a obrigação
de explicar
uma ferida exposta.

Não quis aprender,
mas, por infelicidade,
apesar
deste destino frágil
deste voz irritante
destas dores
e argumentos repetitivos
destas estantes repletas
de livros
aprendi a pensar
e a absorver
parte de tudo...
Aprendo fácil!
Não quis odiar,
mas ora vejam:
há sempre alguém
que consegue
transignificar-se
de nome
em palavrão...
puta-que-o-pariu!
Para quê tanta
falta
de vontade
de viver?
E deixar...
deixar...
deixar
Ser.

Luciana Cavalcanti, Várzea do Capibaribe - Recife: 2013.