sábado, 26 de julho de 2014

O APRENDIZADO DA POLÍTICA ___ Luciana Cavalcanti.



Meu amado avô foi vereador...

Zé Pretinho, um homem do povo, "matuto de pé no chão", como ele se definia, de uma oratória invejável! Uma memória absurda e um conhecimento das demandas populares que vi raras vezes. Não era um homem de esquerda. Mas foi um grande homem. E, sobretudo, foi um político que merecia ter ido mais longe - não fossem os vícios acentuadíssimos da política alagoana!

Lembro-me que o seu último carro de som de campanha, dirigido por meu Tio Zé Popô, era tão velho que tinha a lataria desbotada. Tio Zé não tardou apelidá-lo "Água Sanitária". E as campanhas, lá, na terra de Seu Zé Pretinho, onde eu aprendi a gostar (pasmem!) de comícios eram sempre assim: cheias de figuras (figuraças!) e eventos engraçadíssimos.

Diante das placas de inauguração, muito sérias e sisudas, frequentemente se via um eleitor indignado porque o nome de seu vereador não tava lá: acontece que o povo votava em Zé Pretinho e na placa estava escrito José Amâncio, o povo votava em Mané Jandaia, Zequinha da Farmácia, ou Gordo.

Eleição era um período sempre agitadíssimo para a minha família. Tomei gosto disso. E, desde pequena, aprendi a burlar a vigilância dos adultos para ir espiar a conversa dos deputados, vereadores, prefeitos e demais "homens de poder" na sala de jantar de meu avô. Esquisito era ver que nestas conversas, comendo a mesma canja de Dona Sila, a mesma batata e macaxeira, estavam apenas aqueles homens, nenhum dos do povo que, dia-a-dia, estavam ali, na nossa casa. A decisão não passava por eles. Eram convidados na "festa da Democracia". Mais esquisito era ver que, mesmo adultas, as mulheres também não participavam destas conversas: serviam a canja, a macaxeira com charque, não serviam para opinar.

Minha curiosidade e teimosia me lançaram desde cedo na ante-sala daquelas reuniões, para tentar ouvir e entender.

Crescida, entendi que aquela conversa não deveria ser exclusiva para homens. Aquela conversa não deveria ser exclusiva para os homens de dinheiro. Ali, naquela sala, naquela mesa, deveria caber os cotidianos homens do povo, como o era, afinal, meu avô, e deveria caber as mulheres. Canja de galinha, aprendi, não faz mal a ninguém. Aquele banquete simples, por que não poderia ser o banquete de todos?

Quando realizei minha primeira filiação partidária, os tios, indignados, vieram me dar broncas, fazer chantagens e ameaçar que eu mataria Zé Pretinho de desgosto por ser "comunista"... Proibiram-me de falar. Zé Pretinho, caboclo experiente, via na jovem neta um discurso que não era simplesmente de uma estudante interessada, e perguntou-me à queima-roupa: "por onde a neta de Zé Pretinho está fazendo Política?", sorri e respondi. Foi uma conversa bonita.

No fim, concordamos em muita coisa. Concordamos que, na Poítica, o povo não poderia ser coadjuvante. E ele me deu conselhos que, depois, foram confirmados em dolorosas lições sobre os partidos e seus homens. Os pés no chão de meu avô matuto foram, em muito, mais significativos que meus livros na estante. Segui, militante, e com a benção daquele homem.

Esta é a primeira eleição estadual em que meus amig@s "comunistas", candidatos, não contarão com os votos, esquisítissimos ideologicamente, nas urnas em que Lula e Dilma, ou, Heloísa e Plínio, por vezes, não tinham um voto sequer! - lá para as bandas da divisa entre Pernambuco e Alagoas.

Quanto barulho da parentada! Minha primeira aliança política, de fato, singela e confiante, foi com o meu avô.

Um comentário:

Iapoã Leite Gomes Barros Barros disse...

Ola querida Luciana, a quanto tempo, você esta bem? vi você deitada ao lado do seu avô, tudo bem? Só faltou dizer o lugar, mais não altera, todos os nossos rincões, do sertão, passando pelo agreste, zona da mata até o litoral, temos os nossos "Zé Pretinho" Abraços.