sábado, 17 de maio de 2014

Fazer Política. E Ser.

Nunca confundi crítica com ranzinzice.

Convicção com extremismo.

Nunca vi o patético no outro, sem achegar-me a este Outro para rir-mo-nos de meu próprio patético.

Nunca fui intransigente. Nunca, inflexível.

Nunca fiz julgamentos implacáveis ou distribuí sentenças, condenações.

Embora tenha algumas reflexões sobre a ordem cultural de nosso tempo, nunca duvidei da capacidade de pessoas aprenderem entre pessoas. Não desprezo cafonice, cretinice, estultice... Esforço-me por entender o Outro, por mais incompreensível que este Outro se mostre.

Mas existem verdades incontornáveis... Que nos transtornam como um soco. É angustiante ver o oprimido eleger o opressor seu referencial de Cultura, de Crítica. É como se um mutilado olhasse encantado para quem porta a espada e, além de agradecer-lhe, confessasse seu mais íntimo desejo: ser como aquele!

Eu sei como dói, Diplomas de Graduação de História, ali na gaveta, uma história de militância e olhar-se de frente, da ponta dos cabelos aos dedos e assumir: não é apenas a Luta de Classes... Eu me vejo: sou mulher e negra. Mestiça e de origem social ambígua. Tataraneta e Neta do negro e do racista, da cabocla, índia sequestrada, "pegada a dente", da mulher que ousou ser livre - início de século! - e acabou, destituída de amparo e compreensão, em uma "Casa de Tolerância". Quão tolerantes, familiares e ex-amantes que condenavam à sombra mulheres que quiseram escolher! Olho no espelho, estes dentes, todos, um sorriso de meia-boca não guarda a angústia de ser parenta dos banguelas e dos dentistas. Profundamente brasileira.

Eu sei. O processo de reconhecimento identitário dói. Eu, militante, nasci de novo na reconstrução do feminino para mim, da condição de mulher, e mulher nordestina. Eu, militante, nasci ainda outra vez na reafirmação, do óbvio, mas desta vez, reafirmação altiva, consciente e consistente, minha negritude, minha pele, nossas Histórias. Os interditos todos... Por ser mulher, por ser negra e nordestina. Por estar no meu lugar. Eu me quis com força ainda maior! E me fiz. Refiz!

Me recosturo. E a costura mais fina, mais delicada, é pra dentro.

Afirmar as identidades dói. Certas identidades já vem com dor ancestral! Mas bem mais dolorosa é a negação, a aceitação submissa da invisibilização das barreiras. A dor não passa se eu dormir... Não adormeço.

Eu, militante, olhei para trás e pensei: quanto tempo perdido por uma única lição... O Movimento Estudantil, tão anacrônico, tão pequeno-burguês, mutila tanta gente como eu, inadequada - que não teve um douto avô para me contar sobre Gregório Bezerra, sobre a Revolução Sandinista, que não tinha Biblioteca em casa...
Aquele grande espetáculo: teorizar Reforma-Revolução sobre a luta do Outro, este Outro, qualquer Outro. E nos tornar depois, burocratas do Estado ou Acadêmicos sem rastro de Classe e, claro, sem cheiro de Povo.

O Povo... Ah! O Povo! Dizem-me que pensá-lo é romântico. Afirmá-lo pode degenerar em Populismo. Mas eu não esqueço que eu já o encontrei tantas vezes... Que no meio dele há gente cujos traços do rosto são tão próximos dos meus...

E eu lembro aqueles canaviais. Todo aquele horizonte de cana-de-açúcar - o que, em minha imaginação infantil, fez das queimadas um motivo para acreditar que o Inferno era perto, logo ali, beirando as estradas. Para proteger-nos, semeavam cruzes de beira-de-estrada! Aquele horizonte verde, aquela terra toda, e os insistentes sinos da Matriz anunciando mais um enterro de "anjinho". Meu velho avô, abençoando minha Posição Política: "Não faz sentido, minha filha... Nunca fará! Tanta terra e terra verde! Verde para a cana... e tanta gente morrendo de fome!". Assim, um homem simples, ingênuo, do povo, abençoa e pede "nunca desista" à sua neta Socialista.

Mas esta luta, minha gente, meu chão, exige vencer, cada dia, dores de parto!

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