domingo, 6 de abril de 2014

Da Arte de Odiar - Luciana Cavalcanti

Da Arte de Odiar

Não quis aprender
Mas me ensinaram
Era lida dura
Ali, me doía o preconceito
acolá, me aconselhavam
alisar o cabelo
falar menos
ser menos espontânea
rir mais baixo
gozar sem gozo
viver sem paixão
estudar sem dúvidas
escrever sem alma
adaptar-me ao jogo
jogar com amores
ignorar as dores
caminhar no escuro
acostumar-me ao trânsito
e sempre
sempre
sempre
beber muita água
e passar
protetor solar
para viver melhor.

- Ora vejam: viver melhor!

Duas horas ou quase até o trabalho
sol a pino
o tratamento diferenciado
na agência bancária
de que sou cliente
desde antes
do primeiro emprego...
A mim, fila e mais fila
sem a água que preciso
beber
regularmente
para ser saudável
e aguentar
aquele prato feito de bar
servido
pelo garçom que espirra
sem lenços
(assim como eu!)...

Não quis aprender
Mas, ora, vejam:
um pilantra qualquer
- em seu justo papel
de macho - me pisa,
esquece
o telefone que eu não pedi,
o encontro que não marquei,
sua camisa
com que me vestiu.
E,
de cá,
eu pensando
"dura lição",
mas está escrito
imposto
atrasado
e dedicado.
Na frente do jornal
lês
"Foda-se!"
em cada manchete
e o mundo,
o mundo gira
à revelia
de nossa vontade que ele exploda
com ele,
a fatura do cartão de crédito
e a obrigação
de explicar
uma ferida exposta.

Não quis aprender,
mas, por infelicidade,
apesar
deste destino frágil
deste voz irritante
destas dores
e argumentos repetitivos
destas estantes repletas
de livros
aprendi a pensar
e a absorver
parte de tudo...
Aprendo fácil!
Não quis odiar,
mas ora vejam:
há sempre alguém
que consegue
transignificar-se
de nome
em palavrão...
puta-que-o-pariu!
Para quê tanta
falta
de vontade
de viver?
E deixar...
deixar...
deixar
Ser.

Luciana Cavalcanti, Várzea do Capibaribe - Recife: 2013.

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