domingo, 3 de agosto de 2014

Rastro ............................ Luciana Cavalcanti



Se rastro de pólvora
se areia escura
se cinza funerária
se a visão enganada

não sei.

Olho o chão.

Se poeira do tempo
se sujeira de tudo
se resquícios da festa
se cupim na madeira

apodrece,

e olho o chão.

Por isso mesmo,
apodrece.

E há
cheiro de pólvora
lama e areia
prenúncio de morte
e a cegueira
irreversível...

Como o correr do tempo
como o cansaço de tudo
como a ressaca da festa
como desgata a madeira

irreversível!

Olho o chão.

Entonteço
e não tombo:
sei mais que antes.

sábado, 26 de julho de 2014

Escolhi ser militante. A Política em primeira pessoa ___ Luciana Cavalcanti



Fiz uma escolha: sou militante. Quando falo sobre Política não é opinião, é posicionamento. Expresso aquilo que orienta as minhas decisões e ações. A leitura permanente dos fatos é, dentro dos encargos de minha escolha, uma obrigação.
Indigno-me. Cotidianamente, me posiciono contra recorrentes situações de injustiça. Desta indignação cotidiana, brotou a tarefa que me dei ainda bem jovem: compreender. E fiz-me estudante de História e de Economia, para compreender. Não obtive meu diploma em Economia - inclusive, pela dificuldade que havia anos atrás para um pobre concluir o Ensino Superior na rede privada. Segui. Dediquei-me e dedico-me à Pesquisa e à Prática Educacional como minha resposta esperançosa à indignação que me provoca enquanto gente. Educo e me educo por apostar na Mudança.
Apostei, por minhas causas, uma vida.
Toda aposta é um risco. Perco, às vezes. Ganho bem mais! Minha vida tem sentido.
Mas a Política me traz lições amargas... Entre elas, as lições da dificuldade da Democracia, do Diálogo, da Construção do Consenso. No debate público, se conquista adversários por se expressar sem farsas, sem meias palavras. Na defesa de princípios e na busca da coerência, também se pode errar, mas é imprescindível ser radical: vinculado, apropriado, às nossas raízes. Assim sou. Assim me fiz.
E não me arrependo de minhas escolhas.
Fiz análises erradas, reconheço, mas, quando agi mediante as análises que tinha, agi em coerência com o que acreditava, então. Superei. Voltei. Reconheci. Frequentemente, pedi desculpas e agradeci as críticas.
Porém, nunca reduzi minha análise política à mera opinião. Quis traduzi-la, incansavelmente, em ação.
Nesta lida, a gente leva tanta porrada, que machuca. Parei para cuidar das feridas. E vou seguir. Seguir com a certeza de que é isto o que me faz. Seguir com a certeza de que minha indignação não pode ser ranzinza, mas ser gesto permanente e amoroso de buscar fazer-me mais e fazer mais para que as coisas sejam diferentes. Que o mundo seja mais justo e toda a gente, plenamente, mais gente.
Relembro, publicamente, estas coisas porque após algumas decepções com o meu primeiro partido político, alguns amigos e conhecidos fizeram-me cobranças acima de minhas possibilidades e poder de decição e ação militantes. Não foi nem é apenas duro, doloroso, foi e é injusto. Injusto porque eu insisti, mesmo aos pedaços, em seguir lutando e sonhando. Injusto porque sempre procurei estar ao lado, ombro a ombro, com companheiros dedicados, companheiros coerentes que, em absoluto, não são melhores que ninguém, mas lutam frequentemente pelas melhores causas!
Para seguir lutando e sonhando, estou, agora, no Partido Socialismo e Liberdade, o PSol. Acredito que o PSol é um partido necessário, para a democracia brasileira, para a discussão de outros modelos de Sociedade, de outros mundos possíveis. E o PSol é necessário para mim, que nunca parei de me indignar com a injustiça que a gente não engole seco, nem deve engolir de modo algum; é necessário, para mim, seguir lutando e fazendo diferente.
Mas é impossível fazer diferente sozinhos. Então, meus amados amigos, paciência: eu vivo Política, e 2014 é um marco, um desafio, para cada um de nós que, como eu, indigna-se, sonha, luta e ousa buscar o diferente.
A proposta é dialogar. Mas pelas melhores causas, a gente briga também. E, amorosamente, aposta uma vida. É isto aí.

O APRENDIZADO DA POLÍTICA ___ Luciana Cavalcanti.



Meu amado avô foi vereador...

Zé Pretinho, um homem do povo, "matuto de pé no chão", como ele se definia, de uma oratória invejável! Uma memória absurda e um conhecimento das demandas populares que vi raras vezes. Não era um homem de esquerda. Mas foi um grande homem. E, sobretudo, foi um político que merecia ter ido mais longe - não fossem os vícios acentuadíssimos da política alagoana!

Lembro-me que o seu último carro de som de campanha, dirigido por meu Tio Zé Popô, era tão velho que tinha a lataria desbotada. Tio Zé não tardou apelidá-lo "Água Sanitária". E as campanhas, lá, na terra de Seu Zé Pretinho, onde eu aprendi a gostar (pasmem!) de comícios eram sempre assim: cheias de figuras (figuraças!) e eventos engraçadíssimos.

Diante das placas de inauguração, muito sérias e sisudas, frequentemente se via um eleitor indignado porque o nome de seu vereador não tava lá: acontece que o povo votava em Zé Pretinho e na placa estava escrito José Amâncio, o povo votava em Mané Jandaia, Zequinha da Farmácia, ou Gordo.

Eleição era um período sempre agitadíssimo para a minha família. Tomei gosto disso. E, desde pequena, aprendi a burlar a vigilância dos adultos para ir espiar a conversa dos deputados, vereadores, prefeitos e demais "homens de poder" na sala de jantar de meu avô. Esquisito era ver que nestas conversas, comendo a mesma canja de Dona Sila, a mesma batata e macaxeira, estavam apenas aqueles homens, nenhum dos do povo que, dia-a-dia, estavam ali, na nossa casa. A decisão não passava por eles. Eram convidados na "festa da Democracia". Mais esquisito era ver que, mesmo adultas, as mulheres também não participavam destas conversas: serviam a canja, a macaxeira com charque, não serviam para opinar.

Minha curiosidade e teimosia me lançaram desde cedo na ante-sala daquelas reuniões, para tentar ouvir e entender.

Crescida, entendi que aquela conversa não deveria ser exclusiva para homens. Aquela conversa não deveria ser exclusiva para os homens de dinheiro. Ali, naquela sala, naquela mesa, deveria caber os cotidianos homens do povo, como o era, afinal, meu avô, e deveria caber as mulheres. Canja de galinha, aprendi, não faz mal a ninguém. Aquele banquete simples, por que não poderia ser o banquete de todos?

Quando realizei minha primeira filiação partidária, os tios, indignados, vieram me dar broncas, fazer chantagens e ameaçar que eu mataria Zé Pretinho de desgosto por ser "comunista"... Proibiram-me de falar. Zé Pretinho, caboclo experiente, via na jovem neta um discurso que não era simplesmente de uma estudante interessada, e perguntou-me à queima-roupa: "por onde a neta de Zé Pretinho está fazendo Política?", sorri e respondi. Foi uma conversa bonita.

No fim, concordamos em muita coisa. Concordamos que, na Poítica, o povo não poderia ser coadjuvante. E ele me deu conselhos que, depois, foram confirmados em dolorosas lições sobre os partidos e seus homens. Os pés no chão de meu avô matuto foram, em muito, mais significativos que meus livros na estante. Segui, militante, e com a benção daquele homem.

Esta é a primeira eleição estadual em que meus amig@s "comunistas", candidatos, não contarão com os votos, esquisítissimos ideologicamente, nas urnas em que Lula e Dilma, ou, Heloísa e Plínio, por vezes, não tinham um voto sequer! - lá para as bandas da divisa entre Pernambuco e Alagoas.

Quanto barulho da parentada! Minha primeira aliança política, de fato, singela e confiante, foi com o meu avô.

sábado, 17 de maio de 2014

Fazer Política. E Ser.

Nunca confundi crítica com ranzinzice.

Convicção com extremismo.

Nunca vi o patético no outro, sem achegar-me a este Outro para rir-mo-nos de meu próprio patético.

Nunca fui intransigente. Nunca, inflexível.

Nunca fiz julgamentos implacáveis ou distribuí sentenças, condenações.

Embora tenha algumas reflexões sobre a ordem cultural de nosso tempo, nunca duvidei da capacidade de pessoas aprenderem entre pessoas. Não desprezo cafonice, cretinice, estultice... Esforço-me por entender o Outro, por mais incompreensível que este Outro se mostre.

Mas existem verdades incontornáveis... Que nos transtornam como um soco. É angustiante ver o oprimido eleger o opressor seu referencial de Cultura, de Crítica. É como se um mutilado olhasse encantado para quem porta a espada e, além de agradecer-lhe, confessasse seu mais íntimo desejo: ser como aquele!

Eu sei como dói, Diplomas de Graduação de História, ali na gaveta, uma história de militância e olhar-se de frente, da ponta dos cabelos aos dedos e assumir: não é apenas a Luta de Classes... Eu me vejo: sou mulher e negra. Mestiça e de origem social ambígua. Tataraneta e Neta do negro e do racista, da cabocla, índia sequestrada, "pegada a dente", da mulher que ousou ser livre - início de século! - e acabou, destituída de amparo e compreensão, em uma "Casa de Tolerância". Quão tolerantes, familiares e ex-amantes que condenavam à sombra mulheres que quiseram escolher! Olho no espelho, estes dentes, todos, um sorriso de meia-boca não guarda a angústia de ser parenta dos banguelas e dos dentistas. Profundamente brasileira.

Eu sei. O processo de reconhecimento identitário dói. Eu, militante, nasci de novo na reconstrução do feminino para mim, da condição de mulher, e mulher nordestina. Eu, militante, nasci ainda outra vez na reafirmação, do óbvio, mas desta vez, reafirmação altiva, consciente e consistente, minha negritude, minha pele, nossas Histórias. Os interditos todos... Por ser mulher, por ser negra e nordestina. Por estar no meu lugar. Eu me quis com força ainda maior! E me fiz. Refiz!

Me recosturo. E a costura mais fina, mais delicada, é pra dentro.

Afirmar as identidades dói. Certas identidades já vem com dor ancestral! Mas bem mais dolorosa é a negação, a aceitação submissa da invisibilização das barreiras. A dor não passa se eu dormir... Não adormeço.

Eu, militante, olhei para trás e pensei: quanto tempo perdido por uma única lição... O Movimento Estudantil, tão anacrônico, tão pequeno-burguês, mutila tanta gente como eu, inadequada - que não teve um douto avô para me contar sobre Gregório Bezerra, sobre a Revolução Sandinista, que não tinha Biblioteca em casa...
Aquele grande espetáculo: teorizar Reforma-Revolução sobre a luta do Outro, este Outro, qualquer Outro. E nos tornar depois, burocratas do Estado ou Acadêmicos sem rastro de Classe e, claro, sem cheiro de Povo.

O Povo... Ah! O Povo! Dizem-me que pensá-lo é romântico. Afirmá-lo pode degenerar em Populismo. Mas eu não esqueço que eu já o encontrei tantas vezes... Que no meio dele há gente cujos traços do rosto são tão próximos dos meus...

E eu lembro aqueles canaviais. Todo aquele horizonte de cana-de-açúcar - o que, em minha imaginação infantil, fez das queimadas um motivo para acreditar que o Inferno era perto, logo ali, beirando as estradas. Para proteger-nos, semeavam cruzes de beira-de-estrada! Aquele horizonte verde, aquela terra toda, e os insistentes sinos da Matriz anunciando mais um enterro de "anjinho". Meu velho avô, abençoando minha Posição Política: "Não faz sentido, minha filha... Nunca fará! Tanta terra e terra verde! Verde para a cana... e tanta gente morrendo de fome!". Assim, um homem simples, ingênuo, do povo, abençoa e pede "nunca desista" à sua neta Socialista.

Mas esta luta, minha gente, meu chão, exige vencer, cada dia, dores de parto!

quinta-feira, 1 de maio de 2014

[ Sem título ] Luciana Cavalcanti



Cerquemos,
eu e tu,
de todos os sóis
a minha e a tua pele.

Abandonemos à luz
e ao excesso,
à sede e à cor,
a minha e a tua pele.

Até que queime
cerquemo-nos,
eu e tu, de todos os sóis!

Até que arda
e inflame,
cerquemo-nos de nós!

Há um território
inexplorado
em nossos corpos.
E é ali,
onde possível seria
um Encontro.
Fôssemos eu e tu,
astros, a isto
chamaríamos conjunção...

No entanto,
somos terra, eu e tu,
se vê na pele, em cor,
calor.

Somos terra,
eu e tu,
com a possibilidade
de expedições
até
ali
onde há
um território óbvio,
próximo e vazio,
porque distante de viajantes ociosos
e porque ausente de atrativos fáceis,

Ali,
no limite
onde encontram-se
a minha e a tua pele,
corporifica-se a alma,
pois há um território
onde nunca,
amigo, nunca anoitece.

Por isso,
podemos colher todos
os sóis.

Manhã após manhã,
noite após noite
e queimar...

Queimar,
juntas,
as nossas peles
até que sejamos diversos,
eu e tu,
daquilo que, em nós,
não nos encontra.

"Chão e pele", Luciana Cavalcanti.



A carne negra, 
meu coração vermelho,
tanta diferença nas horas
e no espelho
não me leva pra longe de ti.

Sei das intermitências da pele,
sei do desejo que sabe,
tantas vezes, as revoluções
mais precisas, necessárias,
à alma.

Sei renunciar a minha calma
e gritar a urgência de um amor
não-indiferente, se próximo
ou distante, o que se sente
é medo e espera de se envolver...

Eu quebraria espelhos,
zombando de pragas de sete mil
tempos de azar.
O testemunham estes olhos vermelhos,
por choro e espera,
sem você chegar...

Sim, esta pele negra,
esta utopia que se agita,
as mãos que carregam bandeiras,
já recusaram tantas cercas,
já denunciaram tantas opressões...

Entre os tantos lados,
o meu e o teu,
talvez, nada impossível,
a História, teimosa,
trazendo-me ao lado teu,
dissolva o que anda segregado,
una de novo, como se faz à massa
para o pão. E o dividido, seja sagrado
gesto de partilhar, eucaristia!

Amor insubmisso, insistente,
tinge novas cores para os dias,
as peles de nossos filhos
e a carne do sonho...
Tudo é bendito!
Este amor, bonito,
reinventou meu Ser.

Chico César - Pétala Por Pétala

saldo ______________ luciana cavalcanti

<< saldo >>

Os poemas esquecidos
quanto viço
sepultado em poeira!
Luzes,
sóis, 
lágrimas cadentes,
luzidias estrelas,
o multicor.

No entanto,
no papel em branco,
o que redunda
é desencanto

Poema que não foi.

Dor que não se assume...

Redenção.
De mágoa em mágoa
se perde um coração...



sexta-feira, 11 de abril de 2014

Emaús - Luciana Cavalcanti





Disseste 
que a luta é cada dia
Eu o sabia!
E disto sabias, por certo,
porém cabia lembrar-me
a cada instante
e o fizeste
em riso de contentamento,
em gesto de indignação,
no abraço de conforto
que nem carece de teus braços
em mim.

Abraças o Mundo
com as pernas,
com as mãos
e os olhos. Estes olhos
de enxergar a dor e desafiá-la,
de desafiar a dor e vencê-la,
de desfiar histórias
e tecer a História
na luz de um sonho.

E é luta de cada dia,
e é a dor mais atrevida,
e é chama flamejante,
e é o pão de cada dia.

Todos os dias, me dizes.
Todos os dias, recordo.

Por isso, cada manhã,
em água pura
desperto em meu rosto
a semelhança do teu.

"Emaús", Abril de 2014 - Recife, Várzea do Capibaribe.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

"Poema de caminho e caminhada" - Luciana Cavalcanti



Quis trazer ao Poema 
a luz de tua cor,
iluminação de teu suor, 
cotidiano,
fruto de lutas 
e sonhos,
fonte e semente
de algo que há de vir.

História,
pulsa em tuas mãos
morenas
a insistência do povo
que não se conforma
e repousa somente
para lutar amanhã,
mais forte
e melhor.

Quis trazer ao Poema
a poeira nos sapatos
e a certeza do caminho,
ousado.

Quis trazer esta ousadia,
nossa ousadia...
Novas auroras.

Quis trazer ao Poema
aquilo que só se marca
a ferro e fogo
nas cotidianas batalhas
quando se decide
doar-se e ser
ferro e flor,
como és,
como ousas,
como há tanto tempo
eu houvera sonhado:
"será toda a gente"
e seremos irmãos.

Serenizados,
não recordaremos as dores
da injustiça
e apreciaremos nossas cicatrizes
como medalhas...
E a luz do teu suor,
e o pó em teus sapatos,
testemunharão,
junto aos meus versos,
as bonitezas e as lonjuras
de haver chegado.

"Poema de caminho e caminhada", Várzea do Capibaribe.

domingo, 6 de abril de 2014

Poesia Pouca... (Luciana Cavalcanti)

ENIGMA

Desde janeiro, diante do espelho
buscando, passo a passo, descobrir
de que lado de mim eu estou...



...
paradoxo

este jeito de viver sempre
com pressa (inevitavelmente)
torna a vida breve-breve...


...
desequilíbrio

tanto e tão pouco.
a vida, sem medida,
deixa a gente louco...


...
A Máquina dos Tempos
Por que é que a gente sente,
quando o amor vem chegando,
uma ansiedade adolescente?

Fé - Luciana Cavalcanti

Fé 


Não conheço a Cabala.
Tampouco li o Corão.
Não contei quantas forças
e fraquezas trouxe Eva,
do homem, na costela de Adão.

De um coágulo de sangue,
preso a material cirúrgico
entre as minhas costelas,
Deus fez o milagre
de eu me descobrir barro...

Não o temor da Morte,
mas o pavor dos dias, todos,
em que não tenho vivido...
Eu, que não li o Mahabaratha
e desconheço a sabedoria dos Vedas!

Moisés prescreveu não tomar
O Santo nome de Iawhé em vão...
Com amor dizer Iawhé, Oxalá, Oxum.
E dizer Alá, Jesus, Brahma, Krishna,
no respeito de um dizer irmanado.

Não serei culpada, se não
me atingir alguma pedra. E, então,
serei livre por não ser profeta...
E não ofenderei a Deus,
de quem desconheço o Mistério.

Mas procurarei as Suas mãos, onde,
talvez, permanece a espátula de artesão
e ainda os calos do labor. Ou um corte,
quem sabe origem do coágulo...
e os restos do barro primeiro dos homens.


[ luciana.cavalcanti - Recife: 1999/2001 ]

Fruição (Luciana Cavalcanti)



Entrego-te algumas palavras nuas.
Estão aí para dizer o que são.
Não ensaiam,
não se aprumam,
nem passam por revisão.
Palavras soltas, que,
outrora cruéis,
não sabem senão desnudar-se
para dizer de sua vergonha.
Cada palavra é um espasmo,
um soluço,
um orgasmo.
Cada palavra é já
algo que eu não calculo.

Da Arte de Odiar - Luciana Cavalcanti

Da Arte de Odiar

Não quis aprender
Mas me ensinaram
Era lida dura
Ali, me doía o preconceito
acolá, me aconselhavam
alisar o cabelo
falar menos
ser menos espontânea
rir mais baixo
gozar sem gozo
viver sem paixão
estudar sem dúvidas
escrever sem alma
adaptar-me ao jogo
jogar com amores
ignorar as dores
caminhar no escuro
acostumar-me ao trânsito
e sempre
sempre
sempre
beber muita água
e passar
protetor solar
para viver melhor.

- Ora vejam: viver melhor!

Duas horas ou quase até o trabalho
sol a pino
o tratamento diferenciado
na agência bancária
de que sou cliente
desde antes
do primeiro emprego...
A mim, fila e mais fila
sem a água que preciso
beber
regularmente
para ser saudável
e aguentar
aquele prato feito de bar
servido
pelo garçom que espirra
sem lenços
(assim como eu!)...

Não quis aprender
Mas, ora, vejam:
um pilantra qualquer
- em seu justo papel
de macho - me pisa,
esquece
o telefone que eu não pedi,
o encontro que não marquei,
sua camisa
com que me vestiu.
E,
de cá,
eu pensando
"dura lição",
mas está escrito
imposto
atrasado
e dedicado.
Na frente do jornal
lês
"Foda-se!"
em cada manchete
e o mundo,
o mundo gira
à revelia
de nossa vontade que ele exploda
com ele,
a fatura do cartão de crédito
e a obrigação
de explicar
uma ferida exposta.

Não quis aprender,
mas, por infelicidade,
apesar
deste destino frágil
deste voz irritante
destas dores
e argumentos repetitivos
destas estantes repletas
de livros
aprendi a pensar
e a absorver
parte de tudo...
Aprendo fácil!
Não quis odiar,
mas ora vejam:
há sempre alguém
que consegue
transignificar-se
de nome
em palavrão...
puta-que-o-pariu!
Para quê tanta
falta
de vontade
de viver?
E deixar...
deixar...
deixar
Ser.

Luciana Cavalcanti, Várzea do Capibaribe - Recife: 2013.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Poema pra depois... - Luciana Cavalcanti.

Que este teu sorriso
seja
minha força
este sorriso mesmo
que você 
não sorria

Seja
este teu sorriso meu
mesmo
que você não...

Minha força
seja você
neste não
e
um sorriso
restitua tudo:
você
e
eu.
Sem mais nada.