domingo, 17 de novembro de 2013

risco - luciana.cavalcanti



Na falta de coração,
dê-me um comprimido pra dor
ou a mão.

Pague uma cerveja,
esqueça um livro comigo,
não diga que é meu amigo.

Na falta de solução,
dê-me uma passagem e um mapa,
uma dose dupla de vodka barata
e o último trago deste cigarro.

Você não fuma. Nem eu.
Você não enxerga nem eu,
hoje, que é tarde, mas já tudo
é breu.

Na falta de um coração,
dê-me um cartão
do escritório de seu novo emprego,
uma pista dos olhos de seu novo apego,
me deixe saber a quem cabe
o choro que você não me autorizou
para o dia,
inevitável dia,
em que você vai embora...

Sem deixar na cidade
nem traço de si,
sem olhar com maldade
o sangue pisado,
sem pensar nos verbos
ou conjugá-los passados.

Na falta de tudo,
me deixe um argumento como escudo
e a lembrança entre viva e embaçada
do dissenso de perder
o jogo com a carta marcada

Ou pelo menos,
me deixe um esquecimento:
no quarto, uma meia,
um botão de sua camisa,
lápis grafite,
papel rabiscado,
o olhar perdido...
tua vida.

sábado, 16 de novembro de 2013

No Consultório _ Luciana Cavalcanti



No Consultório

Isto o que, aqui, na veia
me envenena
não é Cachaça nem Amor
Veja, doutor, 
eu sou um caso (irremediável)
de Poema.

[ Luciana Cavalcanti; 11/11/11 ]

domingo, 10 de novembro de 2013

Noturno (1) - Luciana Cavalcanti




Posso escrever-te um poema.
Posso esquecer-te um poema.
Posso um poema.
E posso esquecer-te.
Só não posso esquecer que,
sem ti e sem poemas,
parte dos sussuros
da madrugada, que declina,
serão incompreensíveis
a mim, 
como a qualquero outro
que calcula
as horas até a aurora
pelo testemunho do chão
dessilenciado pelo entregador de jornais...
E já antevejo as manchetes! Nada demais...!
Posso escrever-te um poema.
Posso esquecer-te um poema.
Posso esquecer-te
e me posso...
Mas, a estas horas,
a mim,
silenciar é delírio do sono,
ler é negar, ingenuamente, o que eu digo.
Recusarei os jornais
como quem recebe
e rasga sem ler
o telegrama de um distante amigo.

Noturno (2) - Luciana Cavalcanti


Inútil, como a quebra-de-braço
entre o si mesmo e o delírio,
este calar a paixão bem-vinda,
este negar o suor no rosto,
esta paz de quem já não foi...
Retarda
as horas que te separam do gozo,
os mundos que afastam tuas sombras
e recolhem, no passado, pedaços
e manchas indecifráveis de si.
Não sabe
do peso que assume quem
ousou ser leve
e que Ícaro, mais que alguém,
é um mundo interior,
equidistante entre o Foi e o Não-Foi.
Sonhar é coisa que se faz em voz alta,
de olhos abertos
e expressão pasmada...
Ser feliz, indiscutivelmente, é um espanto.

Comunicado - Luciana Cavalcanti


Foi, talvez, o luar.
Ou um pouco de cada nuvem, indiscreta,                                  
na noite iluminada.
Foi, talvez, o violão do Djavan
ou os cantares do vento
pela janela meio-aberta
do automóvel na estrada...
Foi ainda aquele chopp de fim de noite.
Aquele abraço e a partilha das dores
com os camaradas...
Foi não saber dizer.
Foi acreditar que o telefone
transporta vozes,
não sentidos...
Foi uma comoção violenta!
 
- E eu que achava haver dito tudo...!
 
Mas não foi nada,
não há de ser sério,
tudo o que digo
se permaneces mudo.