segunda-feira, 5 de agosto de 2013

de Tudo - Luciana Cavalcanti



Um pecado.
Desta vez,
original,
todos os outros,
iguais aos outros,
capitais,
pesam enfadados,
pelo vício de pesar
a consciência
dos mortais.

de Tudo --------------------------- Luciana Cavalcanti. 25 de junho de 2005.

Sinopse - Luciana Cavalcanti


Eu não
acredito no Amor,
meu amor.
Não me faça promessas,
não me acredite feliz,
nem vá convencer-se
por qualquer sorriso meu...

Eu não vou
procurá-lo se, acaso,
em meio às minhas palavras,
você se perder.

Eu tenho tantos
silêncios, amor, escute.
Você ainda não sabe,
nunca me viu chorar.
Eu vivo por você...
E morro por você. Mais nada.

"Chão e pele" - Luciana Cavalcanti

A carne negra, 
meu coração vermelho,
tanta diferença nas horas
e no espelho
não me leva pra longe de ti.

Sei das intermitências da pele,
sei do desejo que sabe,
tantas vezes, as revoluções
mais precisas, necessárias,
à alma.

Sei renunciar a minha calma
e gritar a urgência de um amor
não-indiferente, se próximo
ou distante, o que se sente
é medo e espera de se envolver...

Eu quebraria espelhos,
zombando de pragas de sete mil
tempos de azar.
O testemunham estes olhos vermelhos,
por choro e espera,
sem você chegar...

Sim, esta pele negra,
esta utopia que se agita,
as mãos que carregam bandeiras,
já recusaram tantas cercas,
já denunciaram tantas opressões...

Entre os tantos lados,
o meu e o teu,
talvez, nada impossível,
a História, teimosa,
trazendo-me ao lado teu,
dissolva o que anda segregado,
una de novo, como se faz à massa
para o pão. E o dividido, seja sagrado
gesto de partilhar, eucaristia!

Amor insubmisso, insistente,
tinge novas cores para os dias,
as peles de nossos filhos
e a carne do sonho...
Tudo é bendito!
Este amor, bonito,
reinventou meu Ser.

"Chão e pele", Luciana Cavalcanti.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Auto-retratos.II

Sou Negra.
Sou Mulher.
Sou Nordestina.
E não me contento em ser tolerada. Tolerância é um pouco menos que polidez, diante do Outro que nos incomoda. A tolerância não anula o preconceito, nem cicatriza as feridas abertas pela negação do direito óbvio de ser o que se é, o que se quer. Tolerância não restitui a Liberdade de quem aprendeu a conviver com a rejeição, muitas vezes, silenciosa de quem diz negar a opressão e compactua com o opressor deixando simplesmente que as coisas sigam como estão...
A tolerância não cancela por decreto o cinismo e a hipocrisia, não traz à luz os conflitos que precisam, sim, ser assumidos para que possam ser superados, fazendo avançar a História, tornando-nos mais humanos.
Sou Educadora.
Sou Militante.
Sou Humanista.
Por isso, creio que Tolerância é muito pouco...
Não desejo que brancos e índios, mestiços e amarelos, tolerem minha negritude.
Não desejo que homens tolerem minha condição feminina.
Não desejo que brasileiros dos outros cantos de nosso país-continental, nossa pátria brasileira, tolerem minha nordestinidade.
Tolerância é pouco. Eu desejo ser respeitada.
Sou cristã.
Sou ecumênica.
Creio no Transcendente.
E creio que a Transcendência serve ao exercício de crescermos, cada dia, enquanto seres humanos e não à vigilância e à punição.
Sou heterossexual e vivo minha sexualidade...
E tenho amigos homossexuais, bissexuais e outros, muitos, amigos celibatários. E considero absurdo julgarmos a dignidade de alguém, diante de Deus e da Humanidade, pela sua sexualidade.
O sexo pode diminuir, sim, uma pessoa, se é reduzido ao utilitarismo, ao imediatismo, ao culto narcísico do Eu. Não consigo imaginar a sexualidade livre e não-egoísta tornando alguém um ser humano pior ou menor. Mas vejo o preconceito fazendo de pessoas boas e, no entanto, ingênuas, cúmplices de atrocidades, nas violências simbólicas ou concretas.
Eu tenho sonhos e ideais.
Sou diferente.
E não me contento com a tolerância. Exijo respeito.
Sou amiga e irmã. E para os que amo, da mesma forma que para mim, quero respeito.

Auto-retratos.I

Nunca confundi crítica com ranzinzice.

Convicção com extremismo.

Nunca vi o patético no outro, sem achegar-me a este Outro para rir-mo-nos de meu próprio patético.

Nunca fui intransigente. Nunca, inflexível.

Nunca fiz julgamentos implacáveis ou distribuí sentenças, condenações.

Embora tenha algumas reflexões sobre a ordem cultural de nosso tempo, nunca duvidei da capacidade de pessoas aprenderem entre pessoas. Não desprezo cafonice, cretinice, estultice... Esforço-me por entender o Outro, por mais incompreensível que este Outro se mostre.

Mas existem verdades incontornáveis... Que nos transtornam como um soco. É angustiante ver o oprimido eleger o opressor seu referencial de Cultura, de Crítica. É como se um mutilado olhasse encantado para quem porta a espada e, além de agradecer-lhe, confessasse seu mais íntimo desejo: ser como aquele!

Eu sei como dói, Diplomas de Graduação de História, ali na gaveta, uma história de militância e olhar-se de frente, da ponta dos cabelos aos dedos e assumir: não é apenas a Luta de Classes... Eu me vejo: sou mulher e negra. Mestiça e de origem social ambígua. Tataraneta e Neta do negro e do racista, da cabocla, índia sequestrada, "pegada a dente", da mulher que ousou ser livre - início de século! - e acabou, destituída de amparo e compreensão, em uma "Casa de Tolerância". Quão tolerantes, familiares e ex-amantes que condenavam à sombra mulheres que quiseram escolher! Olho no espelho, estes dentes, todos, um sorriso de meia-boca não guarda a angústia de ser parenta dos banguelas e dos dentistas. Profundamente brasileira.

Eu sei. O processo de reconhecimento identitário dói. Eu, militante, nasci de novo na reconstrução do feminino para mim, da condição de mulher, e mulher nordestina. Eu, militante, nasci ainda outra vez na reafirmação, do óbvio, mas desta vez, reafirmação altiva, consciente e consistente, minha negritude, minha pele, nossas Histórias. Os interditos todos... Por ser mulher, por ser negra e nordestina. Por estar no meu lugar. Eu me quis com força ainda maior! E me fiz. Refiz!

Me recosturo. E a costura mais fina, mais delicada, é pra dentro.

Afirmar as identidades dói. Certas identidades já vem com dor ancestral! Mas bem mais dolorosa é a negação, a aceitação submissa da invisibilização das barreiras. A dor não passa se eu dormir... Não adormeço.

Eu, militante, olhei para trás e pensei: quanto tempo perdido por uma única lição... O Movimento Estudantil, tão anacrônico, tão pequeno-burguês, mutila tanta gente como eu, inadequada - que não teve um douto avô para me contar sobre Gregório Bezerra, sobre a Revolução Sandinista, que não tinha Biblioteca em casa...
Aquele grande espetáculo: teorizar Reforma-Revolução sobre a luta do Outro, este Outro, qualquer Outro. E nos tornar depois, burocratas do Estado ou Acadêmicos sem rastro de Classe e, claro, sem cheiro de Povo.

O Povo... Ah! O Povo! Dizem-me que pensá-lo é romântico. Afirmá-lo pode degenerar em Populismo. Mas eu não esqueço que eu já o encontrei tantas vezes... Que no meio dele há gente cujos traços do rosto são tão próximos dos meus...

E eu lembro aqueles canaviais. Todo aquele horizonte de cana-de-açúcar - o que, em minha imaginação infantil, fez das queimadas um motivo para acreditar que o Inferno era perto, logo ali, beirando as estradas. Para proteger-nos, semeavam cruzes de beira-de-estrada! Aquele horizonte verde, aquela terra toda, e os insistentes sinos da Matriz anunciando mais um enterro de "anjinho". Meu velho avô, abençoando minha Posição Política: "Não faz sentido, minha filha... Nunca fará! Tanta terra e terra verde! Verde para a cana... e tanta gente morrendo de fome!". Assim, um homem simples, ingênuo, do povo, abençoa e pede "nunca desista" à sua neta Socialista.

Mas esta luta, minha gente, meu chão, exige vencer, cada dia, dores de parto!

Apontamentos - Luciana Cavalcanti



O verbo. E o Infinitivo.
No Infinitivo, o verbo
e o amor dito
Amar
coisa que se aprende na vida-vivida
O dito pelo dito
e o amor redunda vazio
Substantivo que se diz pelo verbo
Amor é Amar!
E Amar se aprende amando...

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