quinta-feira, 23 de maio de 2013

Já não sou eu só - Luciana Cavalcanti



Molde e calor de nossas mãos,
madrugada após madrugada,
forjamos a Vida,
a fazemos, conforme o sonho
e somos.

A Vida amanhece-nos.
Nos sabemos...
E isto é o que confunde meu sangue,
reinventa minha pele
e, então, conto
quantos corações serão necessários
a tanto pulsar...

Porque é fogo já
o que me corre nas veias
e o Tempo, fio incandescente,
atravessa horizontes,
multicolorindo o Azul!

Já não sou eu só...
Recebo a luz,
moldada por nós.

Já não sou eu só...
e é fogo e cor
o que me explode nas mãos...

Cantando...
Florindo...
Como o primeiro pássaro da Manhã.

Compasso - Luciana Cavalcanti


Luz moldada
por nossas mãos
uma e outra
unas
uma e outra
nós...

Luz brotada de nosso chão
passo a passo
o teu, firme
o meu, exausto
repouso
em ti.

Assim seja!



Se ele, rio...



Se ele, rio

em mim, deságua


eu, que me rio


desfaço mágoas...



[ Luciana Cavalcanti ]

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Dor e delícia...


Sou Negra.

Sou Mulher.

Sou Nordestina.

E não me contento em ser tolerada. Tolerância é um pouco menos que polidez, diante do Outro que nos incomoda. A tolerância não anula o preconceito, nem cicatriza as feridas abertas pela negação do direito óbvio de ser o que se é, o que se quer. Tolerância não restitui a Liberdade de quem aprendeu a conviver com a rejeição, muitas vezes, silenciosa de quem diz negar a opressão e compactua com o opressor deixando simplesmente que as coisas sigam como estão...

A tolerância não cancela por decreto o cinismo e a hipocrisia, não traz à luz os conflitos que precisam, sim, ser assumidos para que possam ser superados, fazendo avançar a História, tornando-nos mais humanos.

Sou Educadora.

Sou Militante.

Sou Humanista.

Por isso, creio que Tolerância é muito pouco...

Não desejo que brancos e índios, mestiços e amarelos, tolerem minha negritude.
Não desejo que homens tolerem minha condição feminina.
Não desejo que brasileiros dos outros cantos de nosso país-continental, nossa pátria brasileira, tolerem minha nordestinidade.

Tolerância é pouco. Eu desejo ser respeitada.

Sou cristã.

Sou ecumênica.

Creio no Transcendente.

E creio que a Transcendência serve ao exercício de crescermos, cada dia, enquanto seres humanos e não à vigilância e à punição.

Sou heterossexual e vivo minha sexualidade...
E tenho amigos homossexuais, bissexuais e outros, muitos, amigos celibatários. E considero absurdo julgarmos a dignidade de alguém, diante de Deus e da Humanidade, pela sua sexualidade.

O sexo pode diminuir, sim, uma pessoa, se é reduzido ao utilitarismo, ao imediatismo, ao culto narcísico do Eu. Não consigo imaginar a sexualidade livre e não-egoísta tornando alguém um ser humano pior ou menor. Mas vejo o preconceito fazendo de pessoas boas e, no entanto, ingênuas, cúmplices de atrocidades, nas violências simbólicas ou concretas.
Eu tenho sonhos e ideais.

Sou diferente.

E não me contento com a tolerância. Exijo respeito.

Sou amiga e irmã. E para os que amo, da mesma forma que para mim, quero respeito.

domingo, 5 de maio de 2013

"Meu Coração vai nas águas do Rio..."




Enquanto o motorista do táxi falava um dialeto longíquo, entre o Português e a Saudade, eu descobria o Parnaíba com os olhos... De sua fala, profundamente arrancada, destacavam-se as palavras "rio", "grande" e "velho". Num dado momento, percebi que ele não falava comigo ou, pelo menos, não só comigo. Exclamou: "Ê, Poti!", "Ê, Parnaíba!". E, de novo, eu penso que os rios guardam os corações das cidades. Saudades de meu Capibaribe (conhecido de olhos e pele). Memórias de Tietê, São Francisco, Una... e constatar que não sei o nome do rio que passa por sob a ponte onde tanta vez, eu menina, corria a ir ver a placa de inauguração onde consta o nome de meu avô, àquele tempo vereador na pequena Colônia.
De súbito, me rio de ter confundido nomes e ter chamado, ao Parnaíba, Paranoá. Ao ouvir nome estranho ao seu afeto, o motorista de outro táxi, em meu primeiro dia em Teresina, interrompeu por brevíssimos segundos a simpatia colada aos risos dos teresinenses: "Parnaíba!", disse secamente... A confusão de nomes revela a estrangeirice, distância. Não se confundem nomes aos amores. Imagine-se chamar, ao Capibaribe, Pajeú! Não! Inadmissível... 
Acontece que a Geografia dos afetos não carece de mapas, é cravada nas memórias, tem cheiro e cor. Conhece-a quem cresceu vizinho a um rio, monte, prainha... Os viajantes, esses ignorantes, tateiam, às escuras, as paredes da História em busca de coisas que iluminem o olhar. 

Há um Museu do Rio onde os dois corações da Cidade Verde se encontram. Objeto da coleção é a variedade de peixes de Parnaíba e Poti. No restaurante flutuante de onde se avista o encontro das águas, também se bebe cajuína gelada.
Ponho meus olhos onde se abraçam dois rios. Um deles, fronteira entre Piauí e Maranhão... Mas rio não tem fronteiras. Sua vocação é o sem-fim. Sabem-no os homens desde Nilo e Ganges, Indo e Amarelo. Sei-o desde Capibaribe. 
Para meus pais, à beira de dois rios, levo imagens (de talhe singular piauiense!) de São Francisco em madeira (Madeira!). Os rios dizem nós... Abraço a minha irmã, avizinhada de um novo rio, e digo a pai e mãe que povo de rio, ganha o mundo, mas sabe de sua casa, seu lugar.
E se Pessoa disse em seu poema que não há rio maior que o rio de sua aldeia, creio ter mais sorte, minha saudade inventa novos afetos: em cada rio levo o rio de minha aldeia.

Cidades e Amores...





O poeta Lêdo Ivo, ao cantar seu amor por Recife, esclamara: "amar mulheres, várias! Amar cidades, só uma: Recife..." e segue versejando afetos pela cidade de pontes e poetas. Após uma semana em Teresina, por fim, tive a possibilidade de andar bastante em busca de um mergulho na cultura, nas gentes, na História, nas memórias, na Geografia...
Ontem, ao descer do ônibus, vindo da UFPI, dei de cara com o Museu do Estado do Piauí. Que fiz? Entrei! Mas nutria a vontade de ir no encontro dos Rios Parnaíba e Poti e de adentrar a Casa da Cultura por cuja calçada passei duas ou três vezes... Hoje o fiz. Além de caminhar no comércio popular. Teresina tem um centro comercial pulsante, agitado e, interessante, achei tudo muito semelhante à Rua das Calçadas e arredores do Mercado de São José. Não há pátios, porém. E há poucas igrejas. Deve ser por conta da cidade não ser colonial. Cidade jovem, Teresina comemorou seus 150 anos um dia desses!
Gosto das cidades. Percorro-as com olhar atento. Em Delmiro Gouveia quase não andei a pé - o que estranhei. Já em Piranhas, saciei minha sede de Rio São Francisco, guardada desde Petrolina. Aprendi a amar outras cidades. Amor que não trai nem troca Recife. Permaneço leal à cidade que carrego por dentro de mim por onde vou. Nos livros de visitas de museus, assino e destaco, ao lado do nome, Recife/Pernambuco. Recife viaja comigo e percorre outras cidades. É um olhar recifense que percorre e descobre Teresina.
Amores, de fato, são assim. Impossível amar alguém sem histórias, sem memórias. "Gente é outra delícia". A delícia está na diferença. Na diferença e na descoberta. O mesmo, o previsível, não excitam, não atraem. Moro em uma cidade que me surpreende. Saio de Recife carregando-a comigo e retorno a Recife trazendo outros lugares comigo... Re-conheço Recife, então. E gente, "gente é outra delícia". Há que se percorrer geografias e histórias das gentes para poder amá-las. Percorrer espaços e memórias com a experiência (e, por vezes, a esperança) que trazemos, mas também reconhecendo a novidade do outro, sem tentar enquadrá-lo ao nosso querer.
Amantes seriam melhores em seu exercício de amar se aprendessem a viajar, a agradar as pessoas que nos acolhem mundo afora, a encontrar identificação nas coisas de outro lugar. Amar é deslocar-se. Acontece que pouquíssima gente quer sair de si mesma.
Descobrindo Teresina, ao caminhar, escutei, involuntariamente, duas fracassadas histórias de amor, três brigas ao telefone e um daqueles aconselhamentos de arrepiar de uma suposta melhor amiga...! Ainda bem que o comércio da cidade respira verde-e-amarelo e raramente se vê referências ao Dia dos Namorados. Imagine só: precisar reconhecer a crucial ignorância humana em questões de amor às vésperas de dia tão simbólico...! Devem ser os preços! Talvez... as pessoas estão brigando porque amar na sociedade de consumo tornou-se um custo muito alto. Talvez... mas são detalhes. "Detalhes", como cantaria o Rei Roberto e inspiraria o nome de Motel no caminho do Encontro dos Rios. Confluências, no entanto, são coisas muito grandes pra esquecer. O Amor é inconfundível.

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Luciana Cavalcanti. Teresina, Piauí, 10 de junho de 2010.

No Mote de Isac Santos: Reincidência.



Reincidente... 

O sono perdido. Você verifica as gavetas e os bolsos de uma bermuda folgada que (excepcionalmente hoje...) serve de pijama. A paciência perdida, em seguida... Porque perder e não encontrar assim que procuramos é demasiado chato - aliás, às vezes, nem tem graça encontrar depois.
Boa oportunidade para revisitar a estante, folhear um livro de poemas que se leu faz tempo, guardar os discos no lugar, ouvir baixinho a musiquinha que se assoprou nos ouvidos antes de o sono ir embora levantando você da cama. E o livro de poemas é de um amigo (há um tempo não reencontrado...) e fala, emprestando palavras às suas horas, falando com madureza de um não-sei-quê reincidente:

"Mais uma vez, bato a sua porta,
mais uma vez, choro.
Não por medo, não por mim.
É o vento que não sossega,
é a lua que me rouba o sono,
é a cama que não me cabe
e os lençóis." (...)

Encontradas palavras que casariam (de papel passado até...) com a inquietude desse insonear, você tenta trazer outras pelas mãos. Mas a mão não está leve, as palavras se esquivam e você não quer pedir "por favor" a poema algum... Lembra, agora, que existem poemas de palavra sua que falam bem desse não-saber-falar de agora. E sossega um pouco, convencida que poesia nem sempre se faz de palavra escrita...

"Mais uma vez, volto
menos aflito e mais desesperado.
Não por medo, não por mim.
São as aves que não conseguem dormir,
são as crianças que não conseguem
brincar
e me fatigam, me desnudam
e fogem."


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Por Luciana Cavalcanti no mote do Poema de Isac Santos, amigo, companheiro de lutas, poeta, uma saudade grande...!

Nova Profética - Luciana Cavalcanti

Nova Profética 


Estou farta do cristianismo comedido,
cristianismo bem comportado,
de um Jesus funcionário público, burocrata,
falso democrata, submisso a César,
alheio aos reinos da Terra.

Estou farta do cristianismo imaturo,
carente do afeto de um Deus - que proclamam ser Amor!
Proclamam. Não acreditam...

Abaixo os puristas!
Abaixo os fundamentalistas, gente que não aprendeu a ser irmã!

Todas as orações que não são sementes, frutos,
de ações.
Todas as aclamações que não são a da vitória de Cristo
sobre o Mundo,
injusto, insano, desigual...
Cessem as palavras de mais! Que Deus nos possa falar!

Estou farta do cristianismo bajulador,
pomposo,
vaidoso,
choroso.
De todo cristianismo que não é reconhecimento de Deus no irmão,
sobretudo os mais sofridos...

Todo o resto não é cristianismo.
Será carência religiosa, caminhada de ovelhas sem rebanho
nem pastor, ou remédio para estafa,
distração de fim de semana,
propagandismo da própria fé.

Quero antes o cristianismo atrevido, profético,
a gritar em morros e praças
uma Verdade que libertará...
Cristianismo dos pobres, excluídos, marginalizados
e vencidos. Sem vez, sem voz, sem terra, sem pão...

Não quero mais saber do Cristianismo que não é Libertação!


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Poema de Luciana Cavalcanti. Recife, Bairro do IPSEP - Primavera de 1998.

Dor de ser - e os interditos à delícia de ser o que é...



Eu não queria citar, remoer a dor de outros... Dor sobretudo, deste jovem cuja luz agora brilha em outra dimensão por já não aguentar, nesta vida, que pesasse sobre seus ombros o preconceito de seus pais. O preconceito de seus pais!!!

Quantos filhos de péssimo caráter, de nenhuma gana pela Vida ou por quaisquer coisas boas, são sustentados, superprotegidos por seus pais?

Quantos pais se acreditam no exercício de seu dever familiar tirando da cadeia jovens criminosos que, mesmo não lhes faltando materialmente nada, resolveram seguir caminhos de crimes e desrespeito ao próximo?

Onde estão os pais dos assassinos do Índio Galdino? Acaso, se consideram cristãos?

Onde estão os pais dos agressores de Sirlei Dias? Acaso alguém acha que os 500 mil Reais referentes ao Processo restituem a Sirlei o que lhe foi roubado por apanhar, um dia, de repente, por ser negra, mulher e pobre? Porque negras mulheres pobres são confundidas (reduzidas?) por certa elite torpe deste país a objetos! Prostituta? Que o fosse! Quem deu ao menino branco o direito de tripudiar da dignidade de alguém?

E hoje um jovem escolheu morrer...

Ele não era um fraco. Fomos educados a temer a morte. Escolhê-la por já não encontrar sentido em viver pode ser reflexo de tantos sentimentos... menos da covardia.

Eu não admito. Não admitirei como normal, que uma família qualquer, qualquer lugar do globo, considere tão suas as verdades universais que se reserve o direito de matar. Sim! Matar silenciosamente, dia após dia, pela rejeição, pela injustificada vergonha, pela deturpação dos preceitos evangélicos e por esta noção ocidental e imbecil de pecado...

O Cristianismo, reduzido à busca de milagres não é nada além de infantil vaidade, de seres humanos fazendo deus à sua imagem e semelhança: egoísta, chantagista, carente, barganhador... O Cristianismo, reduzido ao moralismo que fundamenta-se na Culpa e na tentação de julgar o Outro para parecermos melhores ante nós mesmos é doentio, patológico.

Não ouço nada de cristão ressoar nas palavras de Felicianos e Malafaias, nem de qualquer católico cuja burrice teológica faça eco a tal arrogância assassina.

A Liberdade é e será um inviolável Direito Humano. E sem ela nada do que se faça poderá ser dito "humano". Sem liberdade, nos degeneramos, degeneramos o outro...

Em nome de que Evangelho vocês acreditam que se pode torturar as pessoas? Apontar-lhes as fragilidades? Magoar-lhes as feridas abertas?

A que Cristo vocês seguem? Ao que andava com publicanos, com estrangeiros, pecadores públicos, leprosos, prostitutas, gente pobre...? Enfim, todos os excluídos de seu tempo? Quem acorria a escutar, na Galiléia dos anos 30, a voz do Rabi da Periferia? As elites judaicas que compactuavam com o Império Romano acaso andavam com o Galileu? Quem, daquele povo oprimido e cativo, primeiro ouviu a voz do Mestre?

E você? Você ouve ressoar o apelo do Mestre? Você entendeu a humana profundidade da afirmação "aquilo que fizeres a um destes pequeninos, a mim o fizeste"?

Hoje, um irmão jogou-se de uma torre telefônica...

Entre outras coisas, queria livrar-se do brado supostamente bíblico e purificador de que sua maneira de amar seria uma "abominação".

Abomináveis são todos os que não entenderam que a mensagem maior, a mais essencial dos Evangelhos, é o Amor...

Eis o nosso Caminho de Damasco! Eu quase posso ouvir a voz do Mestre: "por que vocês perseguem Saulo?"...


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Em tempo: Lamentavelmente, convém (precisamos") divulgar um Blog que informa "Quem a Homofobia matou hoje". O caso de Saulo, jovem gay que suicidou-se em Porto Velho, pode ser lido Aqui. O Endereço do Blog de denúncia e combate a Crimes homofóbicos pode ser visto clicando neste Link