quinta-feira, 21 de março de 2013

"Teu Riso", Luciana Cavalcanti

Teu sorriso faz falta quando
me sorris na fotografia,
pois recordo que o riso
é movimento.
Não são teus dentes,
em tua boca,
músculos que se movem
e dizem da felicidade,
do congraçamento, qualquer coisa
entre banal e linda
que justifique a luz
com que iluminas
a partir de teu rosto
minha vida inteira
em tarde qualquer,
seja domingo
ou uma segunda-feira,
cinzenta, pijamenta,
burocrática e apressada...
Teu sorriso me faz falta quando
não me falta nada
além da luz de seres,
natural e límpido,
plenamente amigo:
mão estendida,
abraço apertado,
afeto cuidado
para não te causar espanto!
Por tanto encanto que a falta,
nem lacunar, nem carente,
mas falta amorosa e urgente
que teu riso me faz
quando me sorris
na fotografia
e eu penso em causar
eu mesma teu riso,
todo dia,
com meus mais grandiosos
e os mais banais gestos.
E deliro a sonhar
que me sorris adentrando esta casa,
mais que a porta, o coração se abre,
e, então, desperta, me rio
a olhar ainda tua fotografia!
E, movimento,
meu coração se agita...
Direi-te, um dia, ao menos,
que esta foto onde me ris...
ah! ela está tão bonita!

"Teu Riso", Luciana Cavalcanti

Aterro e asfalto (Cantiga de ninar Ninguém) por Luciana Cavalcanti


Aterro e asfalto
(Cantiga de ninar Ninguém)
por Luciana Cavalcanti

Tiraram-me o quintal,
mas não do peito, errante,
a menina que corre ligeira
e, se chora, é porque arranhou-se
enquanto brincava
entre árvores, pedras, terras, calangos,
cabanas, passaredos,
a vida firmando-se em pau-a-pique.
Nada era solúvel.
Tudo firme como a árvore
desnuda pelo raio lá onde o monte
gostava de enganar nossos olhos
fingindo beijar o Céu...
Firme, a árvore perdia folhas,
mas a raiz por dentro da terra
garantia-lhe a Vida,
confirmava-lhe a pertença ao chão.
Dividiram, comigo, o pão,
mas não entenderam o sentido da partilha,
nem perceberam
que nem toda a igualdade é Justiça...
Desassemelharam-se de mim.
Por isso, neste espelho,
recomponho com arte meu sangue,
corto sem lágrima a carne,
com fria lâmina, pra me refazer...
Se é lama o que me brota,
misturado ao sangue,
assumo-me bicho de fome e de mangue
e finco as raízes no caos. Recife!
Daqui, nenhum quintal se entranha
nas minhas lembranças, mas de ti
quero arrancar a luz
para refazer a criança que me roubaram
por coisas miúdas, bens de areia, tijolos, cal,
de ferro, alumínio, cimento...
Disto, nenhum pedaço me diz "infância",
nenhum pedaço me diz "herança",
podem ficar!
No entanto, palavras que trago me dizem "História",
o brilho nos olhos reluz "memória"
de todas as estrelas contadas
quando, menina, da calçada eu avistava
um Universo inteiro.
Tiraram-me algo, é certo.
E desnuda, agora, desperto:
hora de lavar a alma e deixá-la assim
com cor de terra e de arrebol,
com gosto de fruta no pé
e de pele ao sol.
E que cresça esta menina assim,
que seja assim: querendo ser,
ao crescer, Gente...
sem pensar que coisa de gente crescida
reduz a vida a status e dinheiro.

Delírios que eu tinha, tinha tantos...!

À queima-roupa:

Me responda, amigo, quem, 
entre eu e eu mesma, 
consegue mais viver sem você?
Arredar o pé de tua vida 
e arriscar não me alimentar
do teu riso, mesmo quando sério,
fonte de luz e, genuína,
alegria?!
Responda se isto é jeito
de enredar-se na vida
de alguém...!
Porque muito parece
sem resposta, sem proposta,
sem propósito,
ou graça, ou gosto,
se não é por teu rosto
que eu abro o riso
ou a janela!
Responda, mas não carece
pressa nem precisão,
porque foi também imprecisamente
que, um dia, o coração
andou lembrando histórias
e concluiu, sem mais nem menos,
você...
Ah, e este coração, cadê?
Pregador de peça, inventor de encantos...
Delírios que eu tinha, tinha tantos...!
Mas, agora, cismei na Realidade...
E, realmente, cadê resposta
pra mim sem você?!

Luciana Cavalcanti - "À queima-roupa"

domingo, 17 de março de 2013

Seja o Papa da América, o Papa del Pueblo!

Porque se chama homem também se chama História. 

E a História fala. 

Também é certo que a História move-se. 

A força da História de uma América Latina expropriada, esmagada sob as botas do colonizador, impedida de seguir seus rumos com sua cultura original e a fé de seus povos é eloquente.

Viver a América Latina é, sem dúvidas, diferente de olha-la a partir da Europa, Velho Mundo, que encobrindo-nos (não descobrindo-nos!) fez da América, sob a Cruz e a Espada, sua imagem e semelhança; mas uma imagem e semelhança silenciada, interditada, subalterna - apenas eco e almoxarifado do Capitalismo Europeu em formação...

O Capitalismo se fez mundial. À América Afro-Latíndia foi delegada a condição de Periferia. Assim fomos, periféricos. A chegada dos Europeus que proclamavam ter conquistado o "Novo Mundo", na verdade, significou o fim de um Mundo, o dos Maias, Incas, Astecas, Tupis, Xavantes, Pataxós... E o início de um outro. Outro dito e estabelecido pelo conquistador. No entanto, índios (índios?! Ainda mais a violência de ser marcados pela pretensão e ambição de haverem chegado a um outro continente!) dizimados e negros sequestrados deixaram sobreviventes, na luta, na dor, estes povos nos resguardaram uma cultura mestiça, de resistência, multicor e polifônica.

Somos, hoje, os povos antes silenciados da América Ameríndia, da América Afro-Latíndia, da América que ousamos cantar Liberdade.

Somos a América que quase quinhentos anos depois gritou Libertação e se viu traída por suas elites deslumbradas e anti-nacionalistas nos pactos obscuros entre os ricos de nosso solo sagrado e os velhos dominadores, do velho continente e, sobretudo, da América do Capital. Buscávamos uma nova e renovadora descolonização e, em verde-oliva e vermelho-sangue soterraram outra vez a nossa dignidade multicor.

A dor e o amor desta América Ameríndia, desta Pátria Grande, solo sagrado por haver sido fertilizado com o sangue dos nossos mártires exigem, ao Mundo, respeito.

O Pontífice do "fim do Mundo" bem poderia ser o guardião das pontes do recomeço do Mundo. Começo de reconhecimento do sagrado deste solo, da luz de nossos mártires, das lutas esquecidas - de Montezuma, de Martí, de Bolívar, Victor, de Violeta, de Frei Caneca, de Oscar Romero, de Helder, de Henrique, de Pedro, de Conblim, de Clemente, de Dorothy. Martírios de sangue e de silêncio. Somos, tantas vezes, uma multidão de feridos, aflitos, perdidos, onde os maiores pecados se realizam na Omissão. Ou nos pactos desonrosos com Césares e tantos outros tiranos - em nome do Medo ou do Poder?!

Talvez, seja muito sonhar que, ao lado da Bíblia, estejam na cabeceira de Francisco um volume de "As veias abertas da América Latina", de Galeano, e um de "1492: o encobrimento do outro", de Dussel. Talvez, seja muito sonhar que Pedro Casaldáliga e Erwin Kräutler serão convidados pelo Pontífice para assessorarem, não obstante suas idades avançadas, a Comissão Pontifícia para a América Latina e que o Conselho Pontifício para a Cultura será esvaziado de Doutores europeus e preenchido com bispos de pequenas dioceses da "periferia" do Mundo, do Mundo do Sul... de africanos, latino-americanos, asiáticos. Seria mito sonhar pensar nas nunciaturas apostólicas como centros avançados do Governo do Vaticano, efetivamente, e, sobretudo, nas mulheres religiosas convocadas a auxiliarem bispos e cardeais na tarefa da sempre necessária Nova Evangelização!

Seria muito pensar no crescimento da Missão do Diaconato permanente e na ousada admissão de mulheres no diaconato - como experiência de um desejável progresso da participação das mulheres na Igreja assumindo, inclusive, a dignidade sacerdotal - que tantas religiosas já inspiram, sem, no entanto, poderem ser pastoras deste rebanho que, de tão carente de tudo, precisa de pai, mas também de mãe. Por que não?

Seria muito sonhar com a abolição definitiva de títulos, ritos, vestimentas e adornos nobiliárquicos por parte dos servos da Igreja do Cristo humilde e caminhante no meio do Povo...

Seria muito sonhar com o Angelus recitado em dialetos africanos entre as tantas línguas...

Seria muito sonhar em ver, do Vaticano, se anunciar a viagem do Pontífice a El Salvador para proclamar Martírio e Santidade de Oscar Romero, com a graça que já lhe conferiu o povo sofrido, teimoso e pleno de esperanças deste sagrado continente: São Romero da América!

Minha oração, simples e atrevida, é esta:

Francesco, de Assis e do Mundo, intercedei pelo servo do Cristo sofredor, Papa Francisco, que amorosamente quis homenagear teu exemplo de seguimento do Mestre!

Romero da América, mártir da América Latina, intercedei para que o apelo do Cristo pelo serviço dos cristão aos mais pobres, humildes e perdidos seja a marca do Pontificado de Francisco da América! Seja o Papa da América, o Papa del Pueblo!

Amém!

Aqui, Assis...

Galiléia, ano 30: um jovem nazareno, de nome Jesus, aproximava-se de publicanos, de pobres e deixou uma prostituta tocar-lhe o corpo, beijar-lhe os pés, chorar, molhando com suas lágrimas os pés do Rabi aos quais ela lavava com perfumes enxugando em seus cabelos.

Assis, século XIII: um jovem burguês, de ascendência francesa, vivia de farras e extravagâncias, bebedeiras e futilidades, como roupas da moda e exibicionismos até que, capturado na guerra contra a Peruggia, teve acesso a um Evangelho traduzido em sua língua pátria... Desistiu das Cruzadas e, em São Damião, foi chamado a reconstruir a Igreja. O jovem chamava-se Francesco. Casou-se com a "Senhora Pobreza" e passou a amar com predileção aos leprosos, por ele repudiados antes da conversão... abraçava-os e beijava-os, repartia da própria comida.

Recife, "Oropa, França e Bahia"...
Onde você está?! Quem são os marginalizados do Mundo de hoje? Os postos à margem? Intuo que seja a estes que devemos amar por primeiro para nos fazermos seguidores de Cristo com a radicalidade do Irmão de Assis!