segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Cidades e Amores - Luciana Cavalcanti



O poeta Lêdo Ivo, ao cantar seu amor por Recife, esclamara: "amar mulheres, várias! Amar cidades, só uma: Recife..." e segue versejando afetos pela cidade de pontes e poetas. Após uma semana em Teresina, por fim, tive a possibilidade de andar bastante em busca de um mergulho na cultura, nas gentes, na História, nas memórias, na Geografia...
Ontem, ao descer do ônibus, vindo da UFPI, dei de cara com o Museu do Estado do Piauí. Que fiz? Entrei! Mas nutria a vontade de ir no encontro dos Rios Parnaíba e Poti e de adentrar a Casa da Cultura por cuja calçada passei duas ou três vezes... Hoje o fiz. Além de caminhar no comércio popular. Teresina tem um centro comercial pulsante, agitado e, interessante, achei tudo muito semelhante à Rua das Calçadas e arredores do Mercado de São José. Não há pátios, porém. E há poucas igrejas. Deve ser por conta da cidade não ser colonial. Cidade jovem, Teresina comemorou seus 150 anos um dia desses!
Gosto das cidades. Percorro-as com olhar atento. Em Delmiro Gouveia quase não andei a pé - o que estranhei. Já em Piranhas, saciei minha sede de Rio São Francisco, guardada desde Petrolina. Aprendi a amar outras cidades. Amor que não trai nem troca Recife. Permaneço leal à cidade que carrego por dentro de mim por onde vou. Nos livros de visitas de museus, assino e destaco, ao lado do nome, Recife/Pernambuco. Recife viaja comigo e percorre outras cidades. É um olhar recifense que percorre e descobre Teresina.
Amores, de fato, são assim. Impossível amar alguém sem histórias, sem memórias. "Gente é outra delícia". A delícia está na diferença. Na diferença e na descoberta. O mesmo, o previsível, não excitam, não atraem. Moro em uma cidade que me surpreende. Saio de Recife carregando-a comigo e retorno a Recife trazendo outros lugares comigo... Re-conheço Recife, então. E gente, "gente é outra delícia". Há que se percorrer geografias e histórias das gentes para poder amá-las. Percorrer espaços e memórias com a experiência (e, por vezes, a esperança) que trazemos, mas também reconhecendo a novidade do outro, sem tentar enquadrá-lo ao nosso querer.
Amantes seriam melhores em seu exercício de amar se aprendessem a viajar, a agradar as pessoas que nos acolhem mundo afora, a encontrar identificação nas coisas de outro lugar. Amar é deslocar-se. Acontece que pouquíssima gente quer sair de si mesma.
Descobrindo Teresina, ao caminhar, escutei, involuntariamente, duas fracassadas histórias de amor, três brigas ao telefone e um daqueles aconselhamentos de arrepiar de uma suposta melhor amiga...! Ainda bem que o comércio da cidade respira verde-e-amarelo e raramente se vê referências ao Dia dos Namorados. Imagine só: precisar reconhecer a crucial ignorância humana em questões de amor às vésperas de dia tão simbólico...! Devem ser os preços! Talvez... as pessoas estão brigando porque amar na sociedade de consumo tornou-se um custo muito alto. Talvez... mas são detalhes. "Detalhes", como cantaria o Rei Roberto e inspiraria o nome de Motel no caminho do Encontro dos Rios. Confluências, no entanto, são coisas muito grandes pra esquecer. O Amor é inconfundível.

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Luciana Cavalcanti. Teresina, Piauí, 10 de junho de 2010.

Um comentário:

Carlos Maia disse...

Belíssimo, belíssimo, belíssimo!!!