sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Auto-retratos.II

Sou Negra.
Sou Mulher.
Sou Nordestina.
E não me contento em ser tolerada. Tolerância é um pouco menos que polidez, diante do Outro que nos incomoda. A tolerância não anula o preconceito, nem cicatriza as feridas abertas pela negação do direito óbvio de ser o que se é, o que se quer. Tolerância não restitui a Liberdade de quem aprendeu a conviver com a rejeição, muitas vezes, silenciosa de quem diz negar a opressão e compactua com o opressor deixando simplesmente que as coisas sigam como estão...
A tolerância não cancela por decreto o cinismo e a hipocrisia, não traz à luz os conflitos que precisam, sim, ser assumidos para que possam ser superados, fazendo avançar a História, tornando-nos mais humanos.
Sou Educadora.
Sou Militante.
Sou Humanista.
Por isso, creio que Tolerância é muito pouco...
Não desejo que brancos e índios, mestiços e amarelos, tolerem minha negritude.
Não desejo que homens tolerem minha condição feminina.
Não desejo que brasileiros dos outros cantos de nosso país-continental, nossa pátria brasileira, tolerem minha nordestinidade.
Tolerância é pouco. Eu desejo ser respeitada.
Sou cristã.
Sou ecumênica.
Creio no Transcendente.
E creio que a Transcendência serve ao exercício de crescermos, cada dia, enquanto seres humanos e não à vigilância e à punição.
Sou heterossexual e vivo minha sexualidade...
E tenho amigos homossexuais, bissexuais e outros, muitos, amigos celibatários. E considero absurdo julgarmos a dignidade de alguém, diante de Deus e da Humanidade, pela sua sexualidade.
O sexo pode diminuir, sim, uma pessoa, se é reduzido ao utilitarismo, ao imediatismo, ao culto narcísico do Eu. Não consigo imaginar a sexualidade livre e não-egoísta tornando alguém um ser humano pior ou menor. Mas vejo o preconceito fazendo de pessoas boas e, no entanto, ingênuas, cúmplices de atrocidades, nas violências simbólicas ou concretas.
Eu tenho sonhos e ideais.
Sou diferente.
E não me contento com a tolerância. Exijo respeito.
Sou amiga e irmã. E para os que amo, da mesma forma que para mim, quero respeito.

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