domingo, 5 de maio de 2013

"Meu Coração vai nas águas do Rio..."




Enquanto o motorista do táxi falava um dialeto longíquo, entre o Português e a Saudade, eu descobria o Parnaíba com os olhos... De sua fala, profundamente arrancada, destacavam-se as palavras "rio", "grande" e "velho". Num dado momento, percebi que ele não falava comigo ou, pelo menos, não só comigo. Exclamou: "Ê, Poti!", "Ê, Parnaíba!". E, de novo, eu penso que os rios guardam os corações das cidades. Saudades de meu Capibaribe (conhecido de olhos e pele). Memórias de Tietê, São Francisco, Una... e constatar que não sei o nome do rio que passa por sob a ponte onde tanta vez, eu menina, corria a ir ver a placa de inauguração onde consta o nome de meu avô, àquele tempo vereador na pequena Colônia.
De súbito, me rio de ter confundido nomes e ter chamado, ao Parnaíba, Paranoá. Ao ouvir nome estranho ao seu afeto, o motorista de outro táxi, em meu primeiro dia em Teresina, interrompeu por brevíssimos segundos a simpatia colada aos risos dos teresinenses: "Parnaíba!", disse secamente... A confusão de nomes revela a estrangeirice, distância. Não se confundem nomes aos amores. Imagine-se chamar, ao Capibaribe, Pajeú! Não! Inadmissível... 
Acontece que a Geografia dos afetos não carece de mapas, é cravada nas memórias, tem cheiro e cor. Conhece-a quem cresceu vizinho a um rio, monte, prainha... Os viajantes, esses ignorantes, tateiam, às escuras, as paredes da História em busca de coisas que iluminem o olhar. 

Há um Museu do Rio onde os dois corações da Cidade Verde se encontram. Objeto da coleção é a variedade de peixes de Parnaíba e Poti. No restaurante flutuante de onde se avista o encontro das águas, também se bebe cajuína gelada.
Ponho meus olhos onde se abraçam dois rios. Um deles, fronteira entre Piauí e Maranhão... Mas rio não tem fronteiras. Sua vocação é o sem-fim. Sabem-no os homens desde Nilo e Ganges, Indo e Amarelo. Sei-o desde Capibaribe. 
Para meus pais, à beira de dois rios, levo imagens (de talhe singular piauiense!) de São Francisco em madeira (Madeira!). Os rios dizem nós... Abraço a minha irmã, avizinhada de um novo rio, e digo a pai e mãe que povo de rio, ganha o mundo, mas sabe de sua casa, seu lugar.
E se Pessoa disse em seu poema que não há rio maior que o rio de sua aldeia, creio ter mais sorte, minha saudade inventa novos afetos: em cada rio levo o rio de minha aldeia.

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