domingo, 17 de março de 2013

Seja o Papa da América, o Papa del Pueblo!

Porque se chama homem também se chama História. 

E a História fala. 

Também é certo que a História move-se. 

A força da História de uma América Latina expropriada, esmagada sob as botas do colonizador, impedida de seguir seus rumos com sua cultura original e a fé de seus povos é eloquente.

Viver a América Latina é, sem dúvidas, diferente de olha-la a partir da Europa, Velho Mundo, que encobrindo-nos (não descobrindo-nos!) fez da América, sob a Cruz e a Espada, sua imagem e semelhança; mas uma imagem e semelhança silenciada, interditada, subalterna - apenas eco e almoxarifado do Capitalismo Europeu em formação...

O Capitalismo se fez mundial. À América Afro-Latíndia foi delegada a condição de Periferia. Assim fomos, periféricos. A chegada dos Europeus que proclamavam ter conquistado o "Novo Mundo", na verdade, significou o fim de um Mundo, o dos Maias, Incas, Astecas, Tupis, Xavantes, Pataxós... E o início de um outro. Outro dito e estabelecido pelo conquistador. No entanto, índios (índios?! Ainda mais a violência de ser marcados pela pretensão e ambição de haverem chegado a um outro continente!) dizimados e negros sequestrados deixaram sobreviventes, na luta, na dor, estes povos nos resguardaram uma cultura mestiça, de resistência, multicor e polifônica.

Somos, hoje, os povos antes silenciados da América Ameríndia, da América Afro-Latíndia, da América que ousamos cantar Liberdade.

Somos a América que quase quinhentos anos depois gritou Libertação e se viu traída por suas elites deslumbradas e anti-nacionalistas nos pactos obscuros entre os ricos de nosso solo sagrado e os velhos dominadores, do velho continente e, sobretudo, da América do Capital. Buscávamos uma nova e renovadora descolonização e, em verde-oliva e vermelho-sangue soterraram outra vez a nossa dignidade multicor.

A dor e o amor desta América Ameríndia, desta Pátria Grande, solo sagrado por haver sido fertilizado com o sangue dos nossos mártires exigem, ao Mundo, respeito.

O Pontífice do "fim do Mundo" bem poderia ser o guardião das pontes do recomeço do Mundo. Começo de reconhecimento do sagrado deste solo, da luz de nossos mártires, das lutas esquecidas - de Montezuma, de Martí, de Bolívar, Victor, de Violeta, de Frei Caneca, de Oscar Romero, de Helder, de Henrique, de Pedro, de Conblim, de Clemente, de Dorothy. Martírios de sangue e de silêncio. Somos, tantas vezes, uma multidão de feridos, aflitos, perdidos, onde os maiores pecados se realizam na Omissão. Ou nos pactos desonrosos com Césares e tantos outros tiranos - em nome do Medo ou do Poder?!

Talvez, seja muito sonhar que, ao lado da Bíblia, estejam na cabeceira de Francisco um volume de "As veias abertas da América Latina", de Galeano, e um de "1492: o encobrimento do outro", de Dussel. Talvez, seja muito sonhar que Pedro Casaldáliga e Erwin Kräutler serão convidados pelo Pontífice para assessorarem, não obstante suas idades avançadas, a Comissão Pontifícia para a América Latina e que o Conselho Pontifício para a Cultura será esvaziado de Doutores europeus e preenchido com bispos de pequenas dioceses da "periferia" do Mundo, do Mundo do Sul... de africanos, latino-americanos, asiáticos. Seria mito sonhar pensar nas nunciaturas apostólicas como centros avançados do Governo do Vaticano, efetivamente, e, sobretudo, nas mulheres religiosas convocadas a auxiliarem bispos e cardeais na tarefa da sempre necessária Nova Evangelização!

Seria muito pensar no crescimento da Missão do Diaconato permanente e na ousada admissão de mulheres no diaconato - como experiência de um desejável progresso da participação das mulheres na Igreja assumindo, inclusive, a dignidade sacerdotal - que tantas religiosas já inspiram, sem, no entanto, poderem ser pastoras deste rebanho que, de tão carente de tudo, precisa de pai, mas também de mãe. Por que não?

Seria muito sonhar com a abolição definitiva de títulos, ritos, vestimentas e adornos nobiliárquicos por parte dos servos da Igreja do Cristo humilde e caminhante no meio do Povo...

Seria muito sonhar com o Angelus recitado em dialetos africanos entre as tantas línguas...

Seria muito sonhar em ver, do Vaticano, se anunciar a viagem do Pontífice a El Salvador para proclamar Martírio e Santidade de Oscar Romero, com a graça que já lhe conferiu o povo sofrido, teimoso e pleno de esperanças deste sagrado continente: São Romero da América!

Minha oração, simples e atrevida, é esta:

Francesco, de Assis e do Mundo, intercedei pelo servo do Cristo sofredor, Papa Francisco, que amorosamente quis homenagear teu exemplo de seguimento do Mestre!

Romero da América, mártir da América Latina, intercedei para que o apelo do Cristo pelo serviço dos cristão aos mais pobres, humildes e perdidos seja a marca do Pontificado de Francisco da América! Seja o Papa da América, o Papa del Pueblo!

Amém!

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