quinta-feira, 21 de março de 2013

Aterro e asfalto (Cantiga de ninar Ninguém) por Luciana Cavalcanti


Aterro e asfalto
(Cantiga de ninar Ninguém)
por Luciana Cavalcanti

Tiraram-me o quintal,
mas não do peito, errante,
a menina que corre ligeira
e, se chora, é porque arranhou-se
enquanto brincava
entre árvores, pedras, terras, calangos,
cabanas, passaredos,
a vida firmando-se em pau-a-pique.
Nada era solúvel.
Tudo firme como a árvore
desnuda pelo raio lá onde o monte
gostava de enganar nossos olhos
fingindo beijar o Céu...
Firme, a árvore perdia folhas,
mas a raiz por dentro da terra
garantia-lhe a Vida,
confirmava-lhe a pertença ao chão.
Dividiram, comigo, o pão,
mas não entenderam o sentido da partilha,
nem perceberam
que nem toda a igualdade é Justiça...
Desassemelharam-se de mim.
Por isso, neste espelho,
recomponho com arte meu sangue,
corto sem lágrima a carne,
com fria lâmina, pra me refazer...
Se é lama o que me brota,
misturado ao sangue,
assumo-me bicho de fome e de mangue
e finco as raízes no caos. Recife!
Daqui, nenhum quintal se entranha
nas minhas lembranças, mas de ti
quero arrancar a luz
para refazer a criança que me roubaram
por coisas miúdas, bens de areia, tijolos, cal,
de ferro, alumínio, cimento...
Disto, nenhum pedaço me diz "infância",
nenhum pedaço me diz "herança",
podem ficar!
No entanto, palavras que trago me dizem "História",
o brilho nos olhos reluz "memória"
de todas as estrelas contadas
quando, menina, da calçada eu avistava
um Universo inteiro.
Tiraram-me algo, é certo.
E desnuda, agora, desperto:
hora de lavar a alma e deixá-la assim
com cor de terra e de arrebol,
com gosto de fruta no pé
e de pele ao sol.
E que cresça esta menina assim,
que seja assim: querendo ser,
ao crescer, Gente...
sem pensar que coisa de gente crescida
reduz a vida a status e dinheiro.

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