terça-feira, 17 de dezembro de 2013

quatro cantos para a derrota - Tito de Andréa

quatro cantos para a derrota é uma série de quatro poemas de Tito de Andréa, escrita em setembro de 2013.

parte de um processo de pesquisa poético-imagética que, agora, é dividida com o público.

Faça download a partir do link:
http://www.mediafire.com/view/l77wni39qsutu7h/quatro_cantos_para_a_derrota_-_tito_de_andréa.pdf


(os poemas dessa série formam uma obra individual e não estão no livro O ano da serpente).




"Gesto" - Luciana Cavalcanti



Reflito
em tuas mãos, meu próprio gesto
meu próprio tempo
e o limite
do tempo perdido
do tempo a perder

Anseio
em teu gesto, o meu próprio gesto
expansivamente mais
amoroso e lúcido...
me vejo pequena
me vejo a crescer

Não sei
no beijo em tua testa, se a mim
me beijo, ignorante da sorte,
quase em gesto de piedade...
Repudio esta lágrima, a triste
e acolho a outra, grata
à Vida, à Deus,
pelo gesto, amoroso
de amar mesmo quando
de amar alguém se esquece
e já não pede
e já não lembra
e já não diz...
Meu nome
é, em tua boca, meu próprio grito
e nada diz além de Amor
num gesto que
ignorante
ofereço ao Infinito.

"Gesto" - Luciana Cavalcanti, Recife, Várzea do Capibaribe, 10 de Janeiro de 2013.

Dezesseis dias: depressão - Tito de Andréa

O poeta Tito de Andréa lançou recentemente seu primeiro livro,O ano da serpente, numa apresentação/recital com aChinfrapala. Agora a SuburbanaCo. tem o prazer de publicar em pdf um segundo livro do incrível poeta.

"Dezesseis dias: depressão" é um livro triste e alucinado, escrito com voracidade e beleza.

Visitem nosso blog (www.suburbanaco.tumblr.com) para baixar o livro ou use o link direto:http://www.mediafire.com/view/t42vv1sz4grdgmv/_DDD_.pdf





domingo, 17 de novembro de 2013

risco - luciana.cavalcanti



Na falta de coração,
dê-me um comprimido pra dor
ou a mão.

Pague uma cerveja,
esqueça um livro comigo,
não diga que é meu amigo.

Na falta de solução,
dê-me uma passagem e um mapa,
uma dose dupla de vodka barata
e o último trago deste cigarro.

Você não fuma. Nem eu.
Você não enxerga nem eu,
hoje, que é tarde, mas já tudo
é breu.

Na falta de um coração,
dê-me um cartão
do escritório de seu novo emprego,
uma pista dos olhos de seu novo apego,
me deixe saber a quem cabe
o choro que você não me autorizou
para o dia,
inevitável dia,
em que você vai embora...

Sem deixar na cidade
nem traço de si,
sem olhar com maldade
o sangue pisado,
sem pensar nos verbos
ou conjugá-los passados.

Na falta de tudo,
me deixe um argumento como escudo
e a lembrança entre viva e embaçada
do dissenso de perder
o jogo com a carta marcada

Ou pelo menos,
me deixe um esquecimento:
no quarto, uma meia,
um botão de sua camisa,
lápis grafite,
papel rabiscado,
o olhar perdido...
tua vida.

sábado, 16 de novembro de 2013

No Consultório _ Luciana Cavalcanti



No Consultório

Isto o que, aqui, na veia
me envenena
não é Cachaça nem Amor
Veja, doutor, 
eu sou um caso (irremediável)
de Poema.

[ Luciana Cavalcanti; 11/11/11 ]

domingo, 10 de novembro de 2013

Noturno (1) - Luciana Cavalcanti




Posso escrever-te um poema.
Posso esquecer-te um poema.
Posso um poema.
E posso esquecer-te.
Só não posso esquecer que,
sem ti e sem poemas,
parte dos sussuros
da madrugada, que declina,
serão incompreensíveis
a mim, 
como a qualquero outro
que calcula
as horas até a aurora
pelo testemunho do chão
dessilenciado pelo entregador de jornais...
E já antevejo as manchetes! Nada demais...!
Posso escrever-te um poema.
Posso esquecer-te um poema.
Posso esquecer-te
e me posso...
Mas, a estas horas,
a mim,
silenciar é delírio do sono,
ler é negar, ingenuamente, o que eu digo.
Recusarei os jornais
como quem recebe
e rasga sem ler
o telegrama de um distante amigo.

Noturno (2) - Luciana Cavalcanti


Inútil, como a quebra-de-braço
entre o si mesmo e o delírio,
este calar a paixão bem-vinda,
este negar o suor no rosto,
esta paz de quem já não foi...
Retarda
as horas que te separam do gozo,
os mundos que afastam tuas sombras
e recolhem, no passado, pedaços
e manchas indecifráveis de si.
Não sabe
do peso que assume quem
ousou ser leve
e que Ícaro, mais que alguém,
é um mundo interior,
equidistante entre o Foi e o Não-Foi.
Sonhar é coisa que se faz em voz alta,
de olhos abertos
e expressão pasmada...
Ser feliz, indiscutivelmente, é um espanto.

Comunicado - Luciana Cavalcanti


Foi, talvez, o luar.
Ou um pouco de cada nuvem, indiscreta,                                  
na noite iluminada.
Foi, talvez, o violão do Djavan
ou os cantares do vento
pela janela meio-aberta
do automóvel na estrada...
Foi ainda aquele chopp de fim de noite.
Aquele abraço e a partilha das dores
com os camaradas...
Foi não saber dizer.
Foi acreditar que o telefone
transporta vozes,
não sentidos...
Foi uma comoção violenta!
 
- E eu que achava haver dito tudo...!
 
Mas não foi nada,
não há de ser sério,
tudo o que digo
se permaneces mudo.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Cidades e Amores - Luciana Cavalcanti



O poeta Lêdo Ivo, ao cantar seu amor por Recife, esclamara: "amar mulheres, várias! Amar cidades, só uma: Recife..." e segue versejando afetos pela cidade de pontes e poetas. Após uma semana em Teresina, por fim, tive a possibilidade de andar bastante em busca de um mergulho na cultura, nas gentes, na História, nas memórias, na Geografia...
Ontem, ao descer do ônibus, vindo da UFPI, dei de cara com o Museu do Estado do Piauí. Que fiz? Entrei! Mas nutria a vontade de ir no encontro dos Rios Parnaíba e Poti e de adentrar a Casa da Cultura por cuja calçada passei duas ou três vezes... Hoje o fiz. Além de caminhar no comércio popular. Teresina tem um centro comercial pulsante, agitado e, interessante, achei tudo muito semelhante à Rua das Calçadas e arredores do Mercado de São José. Não há pátios, porém. E há poucas igrejas. Deve ser por conta da cidade não ser colonial. Cidade jovem, Teresina comemorou seus 150 anos um dia desses!
Gosto das cidades. Percorro-as com olhar atento. Em Delmiro Gouveia quase não andei a pé - o que estranhei. Já em Piranhas, saciei minha sede de Rio São Francisco, guardada desde Petrolina. Aprendi a amar outras cidades. Amor que não trai nem troca Recife. Permaneço leal à cidade que carrego por dentro de mim por onde vou. Nos livros de visitas de museus, assino e destaco, ao lado do nome, Recife/Pernambuco. Recife viaja comigo e percorre outras cidades. É um olhar recifense que percorre e descobre Teresina.
Amores, de fato, são assim. Impossível amar alguém sem histórias, sem memórias. "Gente é outra delícia". A delícia está na diferença. Na diferença e na descoberta. O mesmo, o previsível, não excitam, não atraem. Moro em uma cidade que me surpreende. Saio de Recife carregando-a comigo e retorno a Recife trazendo outros lugares comigo... Re-conheço Recife, então. E gente, "gente é outra delícia". Há que se percorrer geografias e histórias das gentes para poder amá-las. Percorrer espaços e memórias com a experiência (e, por vezes, a esperança) que trazemos, mas também reconhecendo a novidade do outro, sem tentar enquadrá-lo ao nosso querer.
Amantes seriam melhores em seu exercício de amar se aprendessem a viajar, a agradar as pessoas que nos acolhem mundo afora, a encontrar identificação nas coisas de outro lugar. Amar é deslocar-se. Acontece que pouquíssima gente quer sair de si mesma.
Descobrindo Teresina, ao caminhar, escutei, involuntariamente, duas fracassadas histórias de amor, três brigas ao telefone e um daqueles aconselhamentos de arrepiar de uma suposta melhor amiga...! Ainda bem que o comércio da cidade respira verde-e-amarelo e raramente se vê referências ao Dia dos Namorados. Imagine só: precisar reconhecer a crucial ignorância humana em questões de amor às vésperas de dia tão simbólico...! Devem ser os preços! Talvez... as pessoas estão brigando porque amar na sociedade de consumo tornou-se um custo muito alto. Talvez... mas são detalhes. "Detalhes", como cantaria o Rei Roberto e inspiraria o nome de Motel no caminho do Encontro dos Rios. Confluências, no entanto, são coisas muito grandes pra esquecer. O Amor é inconfundível.

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Luciana Cavalcanti. Teresina, Piauí, 10 de junho de 2010.

domingo, 20 de outubro de 2013

Amar, Aymê...



O Amor é um verbo.
Fique dita, a minha infinita vontade
de repetir,
haja sol ou não,
haja brisa ou mormaço,
este discurso contínuo,
em meus atos.
Verbalize-se minha Vida:
Amo,
Amarei,
Amei.
E, amando, quantas (centenas de vezes)
me perdi...
Do Amor me perdi,
De mim, me perdi...
Da Vida que só se significa
e completa
no Verbo.
Palavra de Vida,
Deus em si,
é Verbo e Amor,
princípio,
caminho.
Amor é o que se escreve
nos rastros de nossos passos,
nos olhos das pessoas queridas,
nas lições aprendidas,
na vontade de se re-fazer.
Amor-doar,
Amor-dizer,
Amor-ser,
Amor-estar,
Amor-fazer,
Amor-tornar...
e, infinitamente, semear
Amor em Viver.

sábado, 14 de setembro de 2013

Página - Luciana Cavalcanti

Brancos cabelos.
Branca, a memória.
Não me apercebi,
tudo se tornou vago:
vago, o meu amor,
vago, o sentido de cuidado,
vaga, uma cadeira,
preenchida a cama.

E, agora, adoece, contigo,
minha noção de Futuro...
O cuidado com uma criança
que há de crescer para trás.
Quantos aprendizados,
esquecidos,
hei de repetir
para o teu sorriso?

Agora, a hora de fazer-me mestre.
Cada manhã, dizer o que é a Vida
- dizer-te e dizer-me! -
e já não esquecer
do amor-sentido, seus sentidos.
Hoje já, a tua memória é a minha
e o que sou/serei
escreve a tua História.


Luciana Cavalcanti
Recife, Várzea do Capibaribe, 22 de Abril de 2012.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

de Tudo - Luciana Cavalcanti



Um pecado.
Desta vez,
original,
todos os outros,
iguais aos outros,
capitais,
pesam enfadados,
pelo vício de pesar
a consciência
dos mortais.

de Tudo --------------------------- Luciana Cavalcanti. 25 de junho de 2005.

Sinopse - Luciana Cavalcanti


Eu não
acredito no Amor,
meu amor.
Não me faça promessas,
não me acredite feliz,
nem vá convencer-se
por qualquer sorriso meu...

Eu não vou
procurá-lo se, acaso,
em meio às minhas palavras,
você se perder.

Eu tenho tantos
silêncios, amor, escute.
Você ainda não sabe,
nunca me viu chorar.
Eu vivo por você...
E morro por você. Mais nada.

"Chão e pele" - Luciana Cavalcanti

A carne negra, 
meu coração vermelho,
tanta diferença nas horas
e no espelho
não me leva pra longe de ti.

Sei das intermitências da pele,
sei do desejo que sabe,
tantas vezes, as revoluções
mais precisas, necessárias,
à alma.

Sei renunciar a minha calma
e gritar a urgência de um amor
não-indiferente, se próximo
ou distante, o que se sente
é medo e espera de se envolver...

Eu quebraria espelhos,
zombando de pragas de sete mil
tempos de azar.
O testemunham estes olhos vermelhos,
por choro e espera,
sem você chegar...

Sim, esta pele negra,
esta utopia que se agita,
as mãos que carregam bandeiras,
já recusaram tantas cercas,
já denunciaram tantas opressões...

Entre os tantos lados,
o meu e o teu,
talvez, nada impossível,
a História, teimosa,
trazendo-me ao lado teu,
dissolva o que anda segregado,
una de novo, como se faz à massa
para o pão. E o dividido, seja sagrado
gesto de partilhar, eucaristia!

Amor insubmisso, insistente,
tinge novas cores para os dias,
as peles de nossos filhos
e a carne do sonho...
Tudo é bendito!
Este amor, bonito,
reinventou meu Ser.

"Chão e pele", Luciana Cavalcanti.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Auto-retratos.II

Sou Negra.
Sou Mulher.
Sou Nordestina.
E não me contento em ser tolerada. Tolerância é um pouco menos que polidez, diante do Outro que nos incomoda. A tolerância não anula o preconceito, nem cicatriza as feridas abertas pela negação do direito óbvio de ser o que se é, o que se quer. Tolerância não restitui a Liberdade de quem aprendeu a conviver com a rejeição, muitas vezes, silenciosa de quem diz negar a opressão e compactua com o opressor deixando simplesmente que as coisas sigam como estão...
A tolerância não cancela por decreto o cinismo e a hipocrisia, não traz à luz os conflitos que precisam, sim, ser assumidos para que possam ser superados, fazendo avançar a História, tornando-nos mais humanos.
Sou Educadora.
Sou Militante.
Sou Humanista.
Por isso, creio que Tolerância é muito pouco...
Não desejo que brancos e índios, mestiços e amarelos, tolerem minha negritude.
Não desejo que homens tolerem minha condição feminina.
Não desejo que brasileiros dos outros cantos de nosso país-continental, nossa pátria brasileira, tolerem minha nordestinidade.
Tolerância é pouco. Eu desejo ser respeitada.
Sou cristã.
Sou ecumênica.
Creio no Transcendente.
E creio que a Transcendência serve ao exercício de crescermos, cada dia, enquanto seres humanos e não à vigilância e à punição.
Sou heterossexual e vivo minha sexualidade...
E tenho amigos homossexuais, bissexuais e outros, muitos, amigos celibatários. E considero absurdo julgarmos a dignidade de alguém, diante de Deus e da Humanidade, pela sua sexualidade.
O sexo pode diminuir, sim, uma pessoa, se é reduzido ao utilitarismo, ao imediatismo, ao culto narcísico do Eu. Não consigo imaginar a sexualidade livre e não-egoísta tornando alguém um ser humano pior ou menor. Mas vejo o preconceito fazendo de pessoas boas e, no entanto, ingênuas, cúmplices de atrocidades, nas violências simbólicas ou concretas.
Eu tenho sonhos e ideais.
Sou diferente.
E não me contento com a tolerância. Exijo respeito.
Sou amiga e irmã. E para os que amo, da mesma forma que para mim, quero respeito.

Auto-retratos.I

Nunca confundi crítica com ranzinzice.

Convicção com extremismo.

Nunca vi o patético no outro, sem achegar-me a este Outro para rir-mo-nos de meu próprio patético.

Nunca fui intransigente. Nunca, inflexível.

Nunca fiz julgamentos implacáveis ou distribuí sentenças, condenações.

Embora tenha algumas reflexões sobre a ordem cultural de nosso tempo, nunca duvidei da capacidade de pessoas aprenderem entre pessoas. Não desprezo cafonice, cretinice, estultice... Esforço-me por entender o Outro, por mais incompreensível que este Outro se mostre.

Mas existem verdades incontornáveis... Que nos transtornam como um soco. É angustiante ver o oprimido eleger o opressor seu referencial de Cultura, de Crítica. É como se um mutilado olhasse encantado para quem porta a espada e, além de agradecer-lhe, confessasse seu mais íntimo desejo: ser como aquele!

Eu sei como dói, Diplomas de Graduação de História, ali na gaveta, uma história de militância e olhar-se de frente, da ponta dos cabelos aos dedos e assumir: não é apenas a Luta de Classes... Eu me vejo: sou mulher e negra. Mestiça e de origem social ambígua. Tataraneta e Neta do negro e do racista, da cabocla, índia sequestrada, "pegada a dente", da mulher que ousou ser livre - início de século! - e acabou, destituída de amparo e compreensão, em uma "Casa de Tolerância". Quão tolerantes, familiares e ex-amantes que condenavam à sombra mulheres que quiseram escolher! Olho no espelho, estes dentes, todos, um sorriso de meia-boca não guarda a angústia de ser parenta dos banguelas e dos dentistas. Profundamente brasileira.

Eu sei. O processo de reconhecimento identitário dói. Eu, militante, nasci de novo na reconstrução do feminino para mim, da condição de mulher, e mulher nordestina. Eu, militante, nasci ainda outra vez na reafirmação, do óbvio, mas desta vez, reafirmação altiva, consciente e consistente, minha negritude, minha pele, nossas Histórias. Os interditos todos... Por ser mulher, por ser negra e nordestina. Por estar no meu lugar. Eu me quis com força ainda maior! E me fiz. Refiz!

Me recosturo. E a costura mais fina, mais delicada, é pra dentro.

Afirmar as identidades dói. Certas identidades já vem com dor ancestral! Mas bem mais dolorosa é a negação, a aceitação submissa da invisibilização das barreiras. A dor não passa se eu dormir... Não adormeço.

Eu, militante, olhei para trás e pensei: quanto tempo perdido por uma única lição... O Movimento Estudantil, tão anacrônico, tão pequeno-burguês, mutila tanta gente como eu, inadequada - que não teve um douto avô para me contar sobre Gregório Bezerra, sobre a Revolução Sandinista, que não tinha Biblioteca em casa...
Aquele grande espetáculo: teorizar Reforma-Revolução sobre a luta do Outro, este Outro, qualquer Outro. E nos tornar depois, burocratas do Estado ou Acadêmicos sem rastro de Classe e, claro, sem cheiro de Povo.

O Povo... Ah! O Povo! Dizem-me que pensá-lo é romântico. Afirmá-lo pode degenerar em Populismo. Mas eu não esqueço que eu já o encontrei tantas vezes... Que no meio dele há gente cujos traços do rosto são tão próximos dos meus...

E eu lembro aqueles canaviais. Todo aquele horizonte de cana-de-açúcar - o que, em minha imaginação infantil, fez das queimadas um motivo para acreditar que o Inferno era perto, logo ali, beirando as estradas. Para proteger-nos, semeavam cruzes de beira-de-estrada! Aquele horizonte verde, aquela terra toda, e os insistentes sinos da Matriz anunciando mais um enterro de "anjinho". Meu velho avô, abençoando minha Posição Política: "Não faz sentido, minha filha... Nunca fará! Tanta terra e terra verde! Verde para a cana... e tanta gente morrendo de fome!". Assim, um homem simples, ingênuo, do povo, abençoa e pede "nunca desista" à sua neta Socialista.

Mas esta luta, minha gente, meu chão, exige vencer, cada dia, dores de parto!

Apontamentos - Luciana Cavalcanti



O verbo. E o Infinitivo.
No Infinitivo, o verbo
e o amor dito
Amar
coisa que se aprende na vida-vivida
O dito pelo dito
e o amor redunda vazio
Substantivo que se diz pelo verbo
Amor é Amar!
E Amar se aprende amando...

[ "Apontamentos" - Luciana Cavalcanti ]

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Te quiero - Mario Benedetti



Tus manos son mi caricia 
mis acordes cotidianos 
te quiero porque tus manos 
trabajan por la justicia 

si te quiero es porque sos 
mi amor mi cómplice y todo 
y en la calle codo a codo 
somos mucho más que dos 

tus ojos son mi conjuro 
contra la mala jornada 
te quiero por tu mirada 
que mira y siembra futuro 

tu boca que es tuya y mía 
tu boca no se equivoca 
te quiero porque tu boca 
sabe gritar rebeldía 

si te quiero es porque sos 
mi amor mi cómplice y todo 
y en la calle codo a codo 
somos mucho más que dos 

y por tu rostro sincero 
y tu paso vagabundo 
y tu llanto por el mundo 
porque sos pueblo te quiero 

y porque amor no es aureola 
ni cándida moraleja 
y porque somos pareja 
que sabe que no está sola 

te quiero en mi paraíso 
es decir que en mi país 
la gente viva feliz 
aunque no tenga permiso 

si te quiero es porque sos 
mi amor mi cómplice y todo 
y en la calle codo a codo 
somos mucho más que dos.

"Precisão" - Luciana Cavalcanti



Era precisamente aquele amor,
mas aquele amor
que, de tão perfeito,
pareceria impossível;
de tão cabível,
pareceria descabido;
de tão lúcido,
pareceria loucura;
de tão louco,
pareceria invenção!

Mas era precisamente amor,
nem mais nem menos,
nem pura amizade,
nem mera pretensão,
nem ociosidade,
nem qualquer desrazão.
Era tudo e era nada.
A paixão aguardada
e, enquanto aguardada,
já vivida
no que a Vida oferecera
sempre antes
e que permitiria
falar, depois, do Amor
como História
dessas que se contam 
pra fazer sonhar e crer...

Amor, assim, possível,
como nos passou despercebido?
Como nos assombrou assim,
chegando de canto,
como se à espreita
e aproveitando-se
de estar invisível?

No entanto, era precisamente amor,
nem demais nem de menos,
sem assombros nem acenos,
com simplicidade de riso
para reacender em nossas bocas
utopias de felicidade a dois,
a dez, a mil...
Sem peso e sem pressa,
sem fraude nem promessa,
precisamente amor porque amar
é urgente, é da gente,
e é preciso.


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Já não sou eu só - Luciana Cavalcanti



Molde e calor de nossas mãos,
madrugada após madrugada,
forjamos a Vida,
a fazemos, conforme o sonho
e somos.

A Vida amanhece-nos.
Nos sabemos...
E isto é o que confunde meu sangue,
reinventa minha pele
e, então, conto
quantos corações serão necessários
a tanto pulsar...

Porque é fogo já
o que me corre nas veias
e o Tempo, fio incandescente,
atravessa horizontes,
multicolorindo o Azul!

Já não sou eu só...
Recebo a luz,
moldada por nós.

Já não sou eu só...
e é fogo e cor
o que me explode nas mãos...

Cantando...
Florindo...
Como o primeiro pássaro da Manhã.

Compasso - Luciana Cavalcanti


Luz moldada
por nossas mãos
uma e outra
unas
uma e outra
nós...

Luz brotada de nosso chão
passo a passo
o teu, firme
o meu, exausto
repouso
em ti.

Assim seja!



Se ele, rio...



Se ele, rio

em mim, deságua


eu, que me rio


desfaço mágoas...



[ Luciana Cavalcanti ]

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Dor e delícia...


Sou Negra.

Sou Mulher.

Sou Nordestina.

E não me contento em ser tolerada. Tolerância é um pouco menos que polidez, diante do Outro que nos incomoda. A tolerância não anula o preconceito, nem cicatriza as feridas abertas pela negação do direito óbvio de ser o que se é, o que se quer. Tolerância não restitui a Liberdade de quem aprendeu a conviver com a rejeição, muitas vezes, silenciosa de quem diz negar a opressão e compactua com o opressor deixando simplesmente que as coisas sigam como estão...

A tolerância não cancela por decreto o cinismo e a hipocrisia, não traz à luz os conflitos que precisam, sim, ser assumidos para que possam ser superados, fazendo avançar a História, tornando-nos mais humanos.

Sou Educadora.

Sou Militante.

Sou Humanista.

Por isso, creio que Tolerância é muito pouco...

Não desejo que brancos e índios, mestiços e amarelos, tolerem minha negritude.
Não desejo que homens tolerem minha condição feminina.
Não desejo que brasileiros dos outros cantos de nosso país-continental, nossa pátria brasileira, tolerem minha nordestinidade.

Tolerância é pouco. Eu desejo ser respeitada.

Sou cristã.

Sou ecumênica.

Creio no Transcendente.

E creio que a Transcendência serve ao exercício de crescermos, cada dia, enquanto seres humanos e não à vigilância e à punição.

Sou heterossexual e vivo minha sexualidade...
E tenho amigos homossexuais, bissexuais e outros, muitos, amigos celibatários. E considero absurdo julgarmos a dignidade de alguém, diante de Deus e da Humanidade, pela sua sexualidade.

O sexo pode diminuir, sim, uma pessoa, se é reduzido ao utilitarismo, ao imediatismo, ao culto narcísico do Eu. Não consigo imaginar a sexualidade livre e não-egoísta tornando alguém um ser humano pior ou menor. Mas vejo o preconceito fazendo de pessoas boas e, no entanto, ingênuas, cúmplices de atrocidades, nas violências simbólicas ou concretas.
Eu tenho sonhos e ideais.

Sou diferente.

E não me contento com a tolerância. Exijo respeito.

Sou amiga e irmã. E para os que amo, da mesma forma que para mim, quero respeito.