segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Receita Para um Ano Bom...!


Desejos de Janeiro (Para um Ano Bom!) - Luciana Cavalcanti



Saiba um amor que te sinta,
mergulhe por sede da pele,
delire em canção que não minta...
E feche os olhos,
e abra o peito,
encontre o mar.

Encontre o caminho de casa,
da casa invisível,
onde morarão teus sonhos,
onde moras já (sem saber).
Queira o amor,
dilate o querer,
dilate os dias,
comendo as horas sem pressa,
como fruta boa em dia de mar.

Saiba saber do desejo,
não se esquive (nunca!) ao bom do beijo
- nem se furte ao beijo roubado!
Sinta o amor do cuidado,
saiba das harmonias do silêncio
e cante. E dance. E seja...

Feche bem os olhos, se veja.
Ajuda, no escuro, ao parto
da Luz. Ilumina o olho cego das ruas,
desengaveta os poemas,
mostra a cara,
assume o sonho,
desnuda a alma...

E o mais certo de ti,
desnuda também, com calma,
porque em cada pele dorme
um bocado atrevido de luz.

Guarda a lua que vês,
três pedaços de crepúsculo
e dois de aurora,
para trazer nos olhos
à emergência do amor amado.

Não peça nada dos dias,
antes, desperta em cada um
a vontade mais doida e boa
de te fazer sempre mais
feliz, feliz...

E seja
feliz com o que deseja
e desejante do que faz riso.
Criterioso sem ciso,
cuidadoso, sem medo...

Seja o mistério e seja claro,
seja aquele instante raro
em que se sabe beber o Eterno
nas bocas.

Seja uma verdade,
não última, nem primeira,
seja qualquer verdade verdadeira
de um amor que se quer para querer,
de um momento
que não te aceita sozinho,
de um viajante, embriagado de caminho,
que deseja parar e olhar o sol.

Veja a estrela que arde,
aprenda a ouvi-las,
aprenda a dividir com as estrelas
a força
de multiplicar teus desejos,
de trazer os desejos pela mão,
de trazer o desejo nas mãos,
e estender brilho,
transbordante,
dos olhos ao chão de casa.

Saiba, de cór,
saiba demais, de ouvido,
a canção que te traz sentido
a um novo amor...
Saiba por um cheiro,
imaginar cores e formas.
E saiba inventar melhor depois.
Ou saiba nada. Esqueça um pouco...
E – de sexto sentido e outros cinco -
intua, de intuição descarada,
boa vida
para dois.

Cântico da Esperança - Rabindranath Tagore

Cântico da Esperança


Não peça eu nunca 
para me ver livre de perigos, 
mas coragem para afrontá-los. 

Não queira eu
que se apaguem as minhas dores,
mas que saiba dominá-las
no meu coração.

Não procure eu amigos
no campo da batalha da vida,
mas ter forças dentro de mim.

Não deseje eu ansiosamente
ser salvo,
mas ter esperança
para conquistar pacientemente
a minha liberdade.

Não seja eu tão covarde, Senhor,
que deseje a tua misericórdia
no meu triunfo,
mas apertar a tua mão
no meu fracasso!

- Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera", (Tradução de Manuel Simões)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Qual a graça de brincar quieto??


Os calendários ofertando as saideiras... Os dias encerram um ano. Não é nada, eu sei. Rigidez de contar tempo hermetica e toscamente, gregorianamente. No entanto, quem escapa da possibilidade de pensar futuros, passados, acertar o passo do presente? Quem se furta da ânsia de arrumar o quarto e o Mundo para desejar o novo? E o novo sempre vem... Vem! Mas nem todo mundo topa: mudar a trilha, mudar os ares, mudar de idéias... Virar páginas. A gente traça rotas e é um tanto difícil não as poder seguir. A idéia do "Ano Novo" se faz forte pela força simbólica de acender os alertas do desejo e apontar para o futuro... mas isso aqui é repetição - pareeei!!!
Guardando Neruda para ir à padaria, eu leio a rua. Um garoto corria, de um lado a outro, em zigue-zague, pulava. Tudo isso, arrastando atrás de si um enorme caminhão de brinquedo... A mãe, visivelmente digerindo ainda as cifras do "Feliz Natal" de seu rebento, protesta:
- Diego, brinca direito!!!
- Como assim?!? Eu tô brincando...
- Brinca quieto, menino...!
- Mas brincar parado não tem graça... Eu não vou me machucar não...
- Diego, esse carro foi caro... vai quebrar com uma semana!!!
- Ah, então, pra quê eu tenho um caminhão de guardar? Eu quero brincar...!
Lembro de Diego ter perguntado, afinal, quanto lhe custara o tal caminhão antes de sair com essa (... é verdade!) frase proverbial: "então, pra quê se quer brinquedos de guardar?"...
Qual o sentido de bonecas que não são pintadas, de carrinhos que não rolam escada abaixo, que não carregam areia, de bolas impecavelmente limpas? Talvez, a repressão que os cartões de crédito fazem os pais incutirem nos pirráias justifique a graça gostosa dos brinquedos de madeira, papagaios, garrafas coloridas, guerras de frutas (ou sementes...). Talvez, a adesão voraz da garotada aos video-games seja justificada porque diante de um game a criança estravasa sem risco de quebrar o brinquedo, tudo higienizado e sob controle: joystick...
Eu estou falando sério! Que mania absurdamente chata de não querer quebrar, não querer gastar, não querer acabar... O povo diz (falando, evidentemente, pela voz de Deus!): quem guarda com fome, o gato come. Afinal, pra quê se vai brincar com medo de cair? Brincar com medo de quebrar? O lúdico e o medo são realidades que se anulam, geralmente - e, agora, penso e destaco esportes radicais e filmes de suspense como outra história...
Olha, isso tudo é muito adulto: regras, cuidados, etiquetas... até para brincar?!? Dá um tempo! Quando eu era criança, lembro que meu maior pavor era saber que iria, fatalmente, me tornar adulta; seguia-se o medo de enterros de "anjinhos". Ao primeiro medo, dei uma solução interessante: minha adultice tem regras próprias. Sim, se ficar chato, eu paro de brincar! Seja a brincadeira o que for... A única coisa de fato séria nessa vida é a capacidade de ser feliz.
O prazer, a vontade, o amor, o desejo de chuva na pele, a sede de brisa, o gosto de ter cabelos batendo nos olhos, as árvores escaladas nas férias, as farras de bar, tudo, são novas brincadeiras. Eu não me pergunto quanto custam os meus brinquedos... Aprendi com meus pais que o sentido de meu brinquedo é a minha alegria e não a preservação do estado físico do souvenir. Não duvido de como minha infância me ensinou a brincar: me sujando, caindo, chorando e levantando ainda limpando o sangue misturado à areia para continuar correndo, quebrando brinquedo, brigando (ficar de mal...) e fazendo as pazes trinta segundos depois... Aprendi a brincar brincando, como a amar se aprende amando. E sei que o medo de quebrar o brinquedo torna tudo muito chato...
Peito aberto, vida solta, descalços e sem hora, vamos ao Mundo! Vamos aos dias! Só não vale trapacear - como brincar de esconde-esconde contando de olho aberto! No mais: se sujar faz bem e, como diria Diego, pra quê que eu quero um brinquedo bom pra guardar?!? Então, a vida está aqui, pronta para ser devorada como fruta boa "caçada" nos cumes das grandes árvores dos quintais... A vida está aqui, brinquedo sempre novo, que eu não vou quebrar (pra não parar a brincadeira!), mas nunca vou guardar na caixa em cima da estante.

sábado, 22 de dezembro de 2012

De Educação, de Futuro e de Eternidade - à Elmo Freitas

"Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais" (Rubem Alves)


Sempre considerei tristíssimo, belo, mas de uma beleza triste que os jovens compareçam às despedidas terrenas de seus educadores, seus mestres, fardados ou até, tomados pela emergência, com livros e cadernos nas mãos.

Consolava-me, é certo, a reflexão do professor-poeta, o louco Rubem Alves, que concede à Educação a loucura da Poética, da reflexão sobre o óbvio, da embriaguez do Amor, do enamoramento do Mundo. Professores teóricos, sisudos, professores que esquecem as histórias de seus alunos ou confundem tudo em burocráticas cadernetas e burocratizados corações... há muitos!

Rubem Alves é, pois necessário. Eu, doidamente, sou uma necessidade na aridez da Educação Contemporânea! Elmo Freitas também foi necessário, urgente, em uma tradição que reduziu à Pedagogia à Escola, a tarefa de educar à Educação das crianças e confundiu Formação com Ensino, além de ter reduzido o inquieto gestar dos conhecimentos à fórmulas científicas que, não raras vezes, ocultam com método a ausência de conteúdo. Elmo foi um aluno bom. Bom não porque disciplinado... Bom não porque adaptado às regras da Academia. Elmo era maior. Em tempos de uma Educação medíocre, Elmo brilhava! Incomodava, com isto, até mesmo aos professores desatentos que não aprenderam ainda que apenas um professor medíocre pode esperar nunca ser superado por seus educandos, por seus alunos.

Eu fui orientadora de Elmo, juntamente com Augusto França, na elaboração de seu TCC. Não demorou muito para que o estudante, que não conheci de salas de aula, se mostrasse de uma inteligência incomum e, portanto, mais que oportuna para os dias de hoje, conformados à mesmice e ao tédio de uma Formação que não forma e de Trabalhos de Conclusão de Curso que não estão produzindo saberes e, às vezes, sequer mexendo com eles. Elmo estava aprendendo a saber. E aprendendo bem! Fazia perguntas... Grandes perguntas. Muitas vezes, me deixou sem respostas. E, tudo isto, foi ótimo... Procuramos saber, depois. Aprendemos juntos. O breve espaço entre a apresentação dos dois jovens estudantes na porta da minha sala de aula e a defesa de seu TCC, com bons momentos de aprendizado partilhados na Biblioteca da Faculdade Osman Lins - Facol foram lúcidos, fecundos.

O sentimento doído de agora me deixa a sensação de que, mesmo quando lecionamos em turmas de jovens-adultos, a morte de um estudante inverte a lógica... Nós, os professores, esperávamos, talvez, ir antes! E, assim, contar com a imortalidade alentadora de permanecer presentes no pensamento e na ação daqueles em cuja Formação interferimos. É esquisito... Tem o sem-nome e o sem-sentido de perder um filho... De ver interrompida a trajetória de uma vida que, antevíamos, alvissareira, cheia de frutos bons e inquietos para o Mundo. Dói. E dói sem nome... Não faz sentido ver quem começou depois de mim chegar ao fim sem que eu tenha aprendido tudo o que podia ao seu lado, sem que mais pessoas pudessem saber o que sabia, descobrir suas descobertas. Mas convida a pensar.
Como toda a Vida e todo o acontecimento convida a pensar... a Recomeçar.

Um dia, a também dolorosa notícia de uma grave doença em uma de minhas alunas me impôs, diante da decisão dela de continuar a assistir aulas mesmo em tratamento de Quimioterapia, a motivação de construir, a cada dia, aulas que fizessem valer a pena superar a dor para continuar aprendendo. Não sei se tenho conseguido. Mas é um objetivo: construir conhecimento como quem gera vida, com a radicalidade deste comprometimento.

Não sei muito o que dizer quando choro... Mas sei melhor chorar quando digo o tamanho da minha dor! De certo, só o sentimento de que o instigante e provocador orientando que escolhi para uma substituição na aula de Filosofia da Educação dava conta do recado. Ele não seria um grande educador... ele já era um grande educador. Educador, inclusive, de seus educadores. Por isso, o convite aos colegas professores de vivenciarem esta dor na vibração das lições aprendidas, de refletirem em torno das perguntas que ele nos deixou. O convite também aos alunos e alunas a pensarem o Mundo como ele nos convidou a questionar... E, atrevidamente, penso agora, neste legado, nesta herança: tocar para a frente o futuro e os sonhos que um grande, excelente aluno, nos deixou!

Segue em Paz, meu querido! E deixa-nos inquietos, mas serenos... sabemos das mudanças que tu nos convidas a fazer no Mundo. Grata, a Deus e a ti, pela sorte de ter sido sua professora!

Com Amor,

Luciana Cavalcanti

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Notícia...

Notícia


Elegi, para mim,
alguns silêncios.
Eu, que falo tanto,
que não calo...
Trouxe pela mão esse não-dizer
que instalou-se
entre nós dois durante as horas
(intermináveis)
de falarmo-nos,
de transbordarmos um
da presença do outro.

Somos imensos!
E, isso, me acovarda.

Como eu diria, assim,
sem nenhuma cautela,
que o amor sentou ao meu lado,
sussurrando absurdos
ao meu ouvido,
a ponto de fazer-me estremecer
quando em tua presença?

Fevereiro/2006 - Luciana Cavalcanti

sábado, 1 de dezembro de 2012

"À queima-roupa" - Luciana Cavalcanti

À queima-roupa:



Me responda, amigo, quem, 
entre eu e eu mesma, 
consegue mais viver sem você?
Arredar o pé de tua vida 
e arriscar não me alimentar
do teu riso, mesmo quando sério,
fonte de luz e, genuína,
alegria?!
Responda se isto é jeito
de enredar-se na vida
de alguém...!
Porque muito parece 
sem resposta, sem proposta,
sem propósito,
ou graça, ou gosto,
se não é por teu rosto
que eu abro o riso
ou a janela!
Responda, mas não carece
pressa nem precisão,
porque foi também imprecisamente
que, um dia, o coração
andou lembrando histórias
e concluiu, sem mais nem menos,
você...
Ah, e este coração, cadê?
Pregador de peça, inventor de encantos...
Delírios que eu tinha, tinha tantos...!
Mas, agora, cismei na Realidade...
E, realmente, cadê resposta 
pra mim sem você?!

Luciana Cavalcanti - "À queima-roupa"