sábado, 15 de setembro de 2012

Seja como for...

E seja lá 
o que for
felicidade a gente encontre
sem precisar de ajuda.
E seja lá
onde for
o lugar exato a gente saiba
para ficar sem dor...
Porque, eu confesso,
mais de uma vez,
quase acreditei 
no amor.
Quase me fiei na sorte
e muito ri,
levando a sério 
aquela luz...
Mas já não me esconda nada,
não se esconda em nada
que eu parei comigo
e parei contigo,
eu calei meu peito
para dizer
que não há nada,
não será nada...
E, então, é tudo.
Sendo assim, vai bem:
Eu tomo outro café,
acendo (e esqueço) o cigarro
e já nem acredito
que eu te acreditei...

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Recife, 25 de Dezembro de 2006.

Na tarde, de palavra tonta - Luciana Cavalcanti



Sofrer de bom sofredor. Saber ouvir... No entanto, não ter nem tempo, nem promessa, nem peito, para dizer palavra que avive o coração do outro, palavra que diga "pulse!". Vinícius na vitrola. E já não é tão Natal assim... Me desobrigo. Ontem, fim de festa, um pouco eu fui às ruas a ver gente e caos... e fins de festas. De novo a Vida, repertório enjoado, e nem é samba duma nota só... Muitas notas. Promissórias... Um ano findo. Prazo vencido. Peito vencido (pelo cansaço). Juro...
Aluga-se um ouvido, aluga-se um amigo e que se cobre ao fiador. Ficou devendo. Nem dinheiro, nem favor. Ficou devendo aquele amor ao poema... Os poemas vieram. Força e agudeza de corte... Ontem eu olhava, noturno e seco, o Capibaribe. Meu silêncio necessário, minha cidade desejada (corpo, abraço o Recife com desejo e dor...) e lembro João Cabral. Recordo que é ele o poeta deixado, só, à beira do Rio, na Aurora. O jornal me diz "Bom-dia" com Cabral... Fotografias do povo ao lado do poeta, versos de amor ao Rio, versos de entendimento da lama e do escuro: Recife. Não vivo sem o acaso. Abraço João Cabral.
Verdade é que as ruas da cidade, bem como a sua imagem (distante e límpida) vista do Alto da Sé, me refazem, reinventam. Triste ou contente, preciso encontrar a Cidade. Ontem, foram as duas coisas. Duas noites em uma só. Duas cidades. Dois rios. Duas vidas...
Eu, que me ri no Ato Penitencial - achando sem sentido que Deus-Criador esteja lá preocupado com meus pequenos fazeres -, pecadora, confesso: errei muitas vezes por pensamentos, mas, sobretudo, por palavras. Poeta (um pouco), não sei dizer tudo, não sei seduzir palavras, nem guardar estrelas nas entranhas de versos... Errei muitas vezes por palavras e estraguei os motes, e estanquei a rima, e perdi o ritmo, e menti pra mim. Errei por palavras guardadas ou afloradas, pelo dito na hora errada, não-dito, bendito, maldito. Errei por palavras, atos e omissões. Mas não por minha culpa (tão grande culpa!)... Errar de erro ingênuo, de curiosidade, de vontade do não-vivido. Errar pela sede assanhada, pelo sonho apressado, pela imagem confundida, pela embriaguez. E, então, erro de errar com culpa, pelo risco assumido, pela consciência consciente, pelo atrevimento sabido, pela lei lida, relida e contornada.
Na noite, a dor pressentida, se mostra. Leve e incontornável como o momento do assalto, em um instante a chaga se apresenta. Eu tenho medo da sombra terrível que é quase precisar sofrer para arrancar poesia funda e contundente das coisas, dos sentidos e sentimentos... Tenho medo, mas não me esquivo, não me escondo. Vulnerável, caminho na noite. Esquecida, perco as horas. Lunática, delirante, louca, solto os olhos sozinhos e, cega, tento descobrir outras visões... Um bom poema me chega assim. E, às vezes, nem deixa que eu guarde os versos que me trouxe, que eu cheire suas roupas, lhe pergunte onde esteve até aquelas horas, lhe irrite, lhe faça queixas, depois, o abrace como quem precisa disto pra viver...
Eu me resignei, no entanto. E aprendi a acreditar que há solidões que valem os versos. E me acalmo (e isto é rídiculo!) porque sinto o Capibaribe mais só e frio que eu, mas louco e impotente em suas ânsias, mais interditado e amado pela metade... Os rios, as pontes, dão à Cidade (incontestavelmente suja e escura) tons estranhos de poesia nunca escrita. Eu acredito Recife uma cidade entorpecida e triste - nunca disse! E a amo justamente por isso... As Religiões me assustam porque prometem o ajuste e a sincronia perfeita de tudo, harmonias nos dias... Não creio. O dolorido é verdadeiro e a gente sabe isso quando percebe o carnaval como festa de euforias tristes - é só escutar marchinhas e frevo de bloco... E eu tenho medo de amar - aqui, quem não sabe ainda, já intuia!
Se poesia matasse, eu teria morrido esta madrugada - mas não contem a mais ninguém... Eu não saberia explicar porquê. Embriaguei-me do Capibaribe. E ele me bebeu com sede. Duvidei que a vida seja séria... e ri de todas as minhas penitências. Quis o mar de jeito único, inundei de sons o quarto, acabei o vinho e fundei uma nova verdade: eu não careço de motes para os versos... Pouco mais, eles me assaltarão (sozinha) na noite e, um dia, eu vou morrer disso...

Escritos de Luciana Cavalcanti


Qual é a graça de brincar quieto?!?



Os calendários ofertando as saideiras... Os dias encerram um ano. Não é nada, eu sei. Rigidez de contar tempo hermetica e toscamente, gregorianamente. No entanto, quem escapa da possibilidade de pensar futuros, passados, acertar o passo do presente? Quem se furta da ânsia de arrumar o quarto e o Mundo para desejar o novo? E o novo sempre vem... Vem! Mas nem todo mundo topa: mudar a trilha, mudar os ares, mudar de idéias... Virar páginas. A gente traça rotas e é um tanto difícil não as poder seguir. A idéia do "Ano Novo" se faz forte pela força simbólica de acender os alertas do desejo e apontar para o futuro... mas isso aqui é repetição - pareeei!!!
Guardando Neruda para ir à padaria, eu leio a rua. Um garoto corria, de um lado a outro, em zigue-zague, pulava. Tudo isso, arrastando atrás de si um enorme caminhão de brinquedo... A mãe, visivelmente digerindo ainda as cifras do "Feliz Natal" de seu rebento, protesta:
- Diego, brinca direito!!!
- Como assim?!? Eu tô brincando...
- Brinca quieto, menino...!
- Mas brincar parado não tem graça... Eu não vou me machucar não...
- Diego, esse carro foi caro... vai quebrar com uma semana!!!
- Ah, então, pra quê eu tenho um caminhão de guardar? Eu quero brincar...!
Lembro de Diego ter perguntado, afinal, quanto lhe custara o tal caminhão antes de sair com essa (... é verdade!) frase proverbial: "então, pra quê se quer brinquedos de guardar?"...
Qual o sentido de bonecas que não são pintadas, de carrinhos que não rolam escada abaixo, que não carregam areia, de bolas impecavelmente limpas? Talvez, a repressão que os cartões de crédito fazem os pais incutirem nos pirráias justifique a graça gostosa dos brinquedos de madeira, papagaios, garrafas coloridas, guerras de frutas (ou sementes...). Talvez, a adesão voraz da garotada aos video-games seja justificada porque diante de um game a criança estravasa sem risco de quebrar o brinquedo, tudo higienizado e sob controle: joystick...
Eu estou falando sério! Que mania absurdamente chata de não querer quebrar, não querer gastar, não querer acabar... O povo diz (falando, evidentemente, pela voz de Deus!): quem guarda com fome, o gato come. Afinal, pra quê se vai brincar com medo de cair? Brincar com medo de quebrar? O lúdico e o medo são realidades que se anulam, geralmente - e, agora, penso e destaco esportes radicais e filmes de suspense como outra história...
Olha, isso tudo é muito adulto: regras, cuidados, etiquetas... até para brincar?!? Dá um tempo! Quando eu era criança, lembro que meu maior pavor era saber que iria, fatalmente, me tornar adulta; seguia-se o medo de enterros de "anjinhos". Ao primeiro medo, dei uma solução interessante: minha adultice tem regras próprias. Sim, se ficar chato, eu paro de brincar! Seja a brincadeira o que for... A única coisa de fato séria nessa vida é a capacidade de ser feliz.
O prazer, a vontade, o amor, o desejo de chuva na pele, a sede de brisa, o gosto de ter cabelos batendo nos olhos, as árvores escaladas nas férias, as farras de bar, tudo, são novas brincadeiras. Eu não me pergunto quanto custam os meus brinquedos... Aprendi com meus pais que o sentido de meu brinquedo é a minha alegria e não a preservação do estado físico do souvenir. Não duvido de como minha infância me ensinou a brincar: me sujando, caindo, chorando e levantando ainda limpando o sangue misturado à areia para continuar correndo, quebrando brinquedo, brigando (ficar de mal...) e fazendo as pazes trinta segundos depois... Aprendi a brincar brincando, como a amar se aprende amando. E sei que o medo de quebrar o brinquedo torna tudo muito chato...
Peito aberto, vida solta, descalços e sem hora, vamos ao Mundo! Vamos aos dias! Só não vale trapacear - como brincar de esconde-esconde contando de olho aberto! No mais: se sujar faz bem e, como diria Diego, pra quê que eu quero um brinquedo bom pra guardar?!? Então, a vida está aqui, pronta para ser devorada como fruta boa "caçada" nos cumes das grandes árvores dos quintais... A vida está aqui, brinquedo sempre novo, que eu não vou quebrar (pra não parar a brincadeira!), mas nunca vou guardar na caixa em cima da estante.

Eles, os poemas - Luciana Cavalcanti


Ela, que já me olhava há muito tempo, sem que eu o percebesse, retirou-me dos devaneios com a pergunta:
- Tia Lú, no que é que você tá pensando?
- Estou pensando em escrever um poema, Júlia - respondi, entre a surpresa e a necessidade de explicar coisas às crianças...
- E escrever um poema é bom ou ruim?
- É bom, Júlia... Escrever um poema é bom!
- E, então, Tia Lú... se é bom, por que você tá triste?!?
- Estou chamando o poema, que é bom, Júlia, por isso... pra ele não deixar mais eu ficar triste!
- Ah, então, o poema é alegre?
- Nem todos os poemas são alegres... alguns são tristes, mas, quando eles vem, ajudam o coração da gente porque são bonitos...
Frustrava-me com minha incapacidade de explicar poesia a uma criança, quando Júlia saltou da cadeira e correu a uma mesa próxima, arrancando a rosa mais bonita de um arranjo que a ornamentava... Rosa na mão, ela voltou.
- Toma a rosa, Tia Lú, ela é bonita... vai ajudar o poema que 'cê tá chamando...!
E correu a ir brincar com outras crianças...




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Diálogo acontecido no dia do casamento de Lygia e Hugo com Julinha, filha de Manú...

Conselhos - Luciana Cavalcanti


Conselhos...

Sossega, que o amor
há de ser sempre desassossegado.
Pois sucede que é seu proceder
seguir-se sempre indeterminado.
Há brilhos gêmeos em cada pupila.
Há uma imensa sede na boca.
Há uma fogueira acesa por onde quer
que vá o peregrino amador.
E não há explicação alguma...
Sossegue!


Luciana Cavalcanti - Março de 2010.

Lição de Porrada - Luciana Cavalcanti


Lição de Porrada - o poema.

o automóvel
que mais longe
nos leva
é aquele que bate
sem nos matar...
e, sem passagem,
descortina, então,
mil outros lados da Vida.


Recife, Várzea do Capibaribe, 20 de Fevereiro de 2010.