quinta-feira, 17 de maio de 2012

OFÍCIO - Luciana Cavalcanti

OFÍCIO



Não é coisa fácil a lida
de construir, gesto após gesto,
o riso nas bocas desacostumadas
ao contentamento das coisas simples...
E há de ser pesado
carregar sempre uma reserva de alegria
mesmo quando a alma, eclipsada,
se faz sombria...
Não é pra quem pede,
nem é pra quem busca,
o fruto flamejante e doirado
da tua labuta.
É só pra que sabe (ou intui)
inventar meninices
e resgatar, do fundo da infância,
a transparência
do riso que, um dia, trouxemos
nas bocas...

Há quem não entenda
e, por certo, há quem considere tolice
a magia às vezes desatenta,
às vezes tão séria,
de caçar borboletas ou vagalumes,
contar estrelas, catar conchinhas do mar...
Estes, certamente, há anos não vão ao circo.
Estes, mui provavelmente, pagam infindáveis
prestações bancárias a troco de vaidades...
Estes, não viajam nas jornadas imaginárias de seus filhos...
Estes, nem vale a pena a gente chamar
para armar a lona, arrumar o picadeiro
e ajeitar a Vida, mais justa e bela,
para que seja ela espetáculo,
teimoso e inquieto,
da invenção cotidiana da alegria...!



segunda-feira, 14 de maio de 2012

Qual a cor da Música que você ouve?

Uma noite de sábado de maio, o céu naquela promessa de chuva, a fim de ficar pijamenta, em casa. Mas descobri que havia show de Chico César - e o Secretário de Cultura do Estado da Paraíba, senhoras e senhores, este, é um artista cuja arte aprecio e as posturas políticas só me fazem sublinhar o respeito que tenho por ele. Mandei o pijamas às favas... e fui pra rua!
Estava em casa, ali, na Rua da Moeda. Militantes dos movimentos populares, educadores populares, negros, muitos negros engajados na luta anti-racismo, estudantes, professores. E mais um escarcéu de gente inclassificável...


Cervejinha na mão, fui curtir o Show de Chico César. Eu, dois amigos de Black Power, um Rastafári, e demais negros e negras com os cabelos livres da ditadura da estética e da necessidade de correr da chuva que começou (chapinha impede a coisa mais gostosa, entre índios, crianças, loucos, apaixonados e livres: dançar, cantar, na chuva! Banho de chuva, yes!).
Possível entender que a música que você ouve, o som que te faz dançar... a vibe que te diverte... aponta pra tua alma. Aponta pra relação desta alma com o corpo que ela habita.
O que dá prazer ao teu corpo não é isento do Mundo e de seus significados... Não diga "é apenas música". Não diga "é apenas para me divertir, curtir". Diminuir a arte, ou simular democracia dizendo que Sheldon e Fernando Brant são, ambos, compositores, não desvia o tortuoso e arriscado caminho de tornar invisível a relação entre o estético e o ético, entre estes dois e o étnico. Entre o étnico e o político.
É preciso afirmar o conflito, que está posto. Denunciá-lo. Para que a dor de ninguém seja ignorada.
Um desafio: ser negro de corpo e de alma. Ser negro de alma e de arte. Viver arte negra, não para negar o branco... mas para ser visto, entendido.
Para não deixar de herança pro meu filho abolição incompleta, democracia racial dissimulada, que estas coisas não são genéticas, mas, pela História, o DNA vai fazer que, no meu filho, doa mais do que em outras crianças, brancas, mesmo mestiças... Me vejo no espelho e na História: Nêguinha. Me sinto de alma e de Luz, tataraneta de Áfricas, de Ameríndia invadida e explorada.
Ontem, 13 de Maio, Emicida foi detido por desacato. Quem duvida que o policial, contemporâneo Capitão do Mato, se sentirá sempre afrontado quando um Negro (marcado quase sempre com o ferro quente da pobreza) fala em Liberdades, afoitamente, qual Zumbi?!
E a Edição da reportagem do Fantástico, ontem, 13 de Maio, não conseguiu esconder a afasia de Alexandre Pires diante da oportuna pergunta da repórter: mas e a figura do macaco não reforça um esteriótipo? Uma imagem constantemente associada de modo degradante ao Negro?
Quantos quilombos serão necessários? Quantos zumbis?
Quantas Elisas, lucidamente Lucindas, lindas, precisarão gritar Poesia pra que se entenda que a Mulata, a Negra, a Morena, não é objeto de desejo do Sinhozinho - mesmo que a senzala tenha sido substituída por dependências de empregada?
Quantas e quantas vezes será preciso dizer a esta gente, ignorante ou displicente, que não é engraçado aquela sua brincadeira carinhosa de nos chamar "Nêgo Safado"? Eu sou nêga safada? Ou sou recalcada? Pois bem... você é ignorante. E não é ignorante porque incauto... é ignorante porque ignora (nunca viveu) a dor de sofrer algo por causa da cor, por causa do cabelo. Assim, como eu sou ignorante em relação à condição masculina ou branca... não sei das dores e das delícias de vocês.
Ainda é esmagadora a maioria branca (em país mestiço) a exercer a docência no Ensino Universitário. Ainda são diferentes as rendas de negros e brancos. Ainda há mais adoção das crianças de pele clara que de crianças de pele escura... ainda... Ainda!
13 de Maio... parece que foi ontem. 1888, parece que foi ontem.
"Lágrima clara sobre a pele escura" é linda, translucida, se me aponta caminhos de luta e libertação.
Aí, um cristão me disse que a religião africana oprime a mulher... Como? Não entendi! Me explica como a maior instituição de vocês é mantida por fiéis mulheres e governada (não hegemonicamente, mas exclusivamente!) por homens?
Aí, me disseram que as cotas raciais geram racismo...
Aí, me disseram que mulher de "jogador de futebol" é sempre branca... Uma pergunta: por que negro de sucesso é jogador de futebol?
Aí, voltam a atacar as cotas dizendo que as cotas pressupõem diferenças de capacidade intelectual... Minha capacidade intelectual, por si só, não consegue pagar as mensalidades de Cursinhos e me tornar competitiva. Competição, esta palavra está em uso no Mundo da Educação - eu sei, não devia! Mas...
Aí, me deram um argumento tão rebuscado para explicar porque a maioria das vítimas de violência letal é negra, pobre, masculina e jovem... mas um argumento tão rebuscado, para que eu tirasse esta ideia "recalcada" de racismo da minha cabeça... que eu preferi continuar com minha conclusão: o que fazem com nossos jovens negros é extermínio.
Mas... eu estava falando de Chico César, não foi?
Quando tive oportunidade, pela terceira vez, de falar com ele - a primeira, no Lumiara Zumbi, vendo o Encontro de Cavalos Marinho; a segunda, tocando Maracatu com os estudantes na UFPB -, disse-lhe: "Chico, eu te agradeço pelo que sua música tem de educacional! A consciência que vem de "Filá", de "Alma não tem cor"... transforma histórias"; ele: "ser educador é um privilégio, para um artista"...
Música educa. Ou deseduca. Portanto, cuidado com o que ouve. O que você ouve pode te paralisar, fazer esquecer o que houve e o que há no Mundo. A cerveja, que seja gelada! Mas a música, a música quente mesmo é a que esquenta teu cérebro.
Por favor, não se distraía...



Advertência: O presente texto não é nem pretende ser uma reflexão acadêmica sobre o tema.

sábado, 5 de maio de 2012

Descuido - Luciana Cavalcanti



Traduzia o tempo em pressa
para matar a fome
e saciar a sede,
para revelar-se inteiro
e já não fingir a ausência
do amor estampado no rosto
diante do espelho.

Chegada a hora de esgotar
os argumentos todos
dos ponteiros do relógio
para sentir-se, enfim, liberto,
solto, todo o desejo.

Agora, o sonho danou-se no Mundo,
matou aula
e foi ver o mar...
exilou-se na rua. Fez-se boêmio:
embriagou-se
cantou
fez poesia
olhou a lua...e julgou-a bem vadia,mas deixou-se enamorar.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

VOCAÇÃO DE ÍCARO - Luciana Cavalcanti




Este caminhar sem passos,
tão longe,
muito além, me levará...
Certeza de poder chegar
e o aprendizado
cotidiano das rotas...
Com curiosidade e precisão
avançar na invenção 
de caminhos novos...

Este caminhar sem passos
e o exílio das alegrias mais simples
dizem algo sobre a Liberdade:
olhar, no pés, pulsar o desejo,
saber que passos traduzem sonhos
e, então, inventar asas firmes...
já que tanto e sempre arde o sol!

Luciana Cavalcanti.
Recife, Várzea do Capibaribe, 13 de Março de 2010.

O sentido - Luciana Cavalcanti


E todo amor precisa ser sabido,
precisa ser vivido,
precisa ser lido
nas entrelinhas de nossas histórias,
nas lições aprendidas das páginas viradas,
nos suspiros dialogantes das madrugadas,
nos versos de cada poema.

Para que valha a pena,
cada amor precisa ser mantido,
precisa ser querido,
precisa, realmente, haver nascido
para reescrever boas histórias,
para preencher páginas com poesia,
para acender, com calor, cada dia
para os versos de um poema-vida!


Recife, Várzea do Capibaribe. 

"Janelas", Luciana Cavalcanti.




Abri a janela, para que a luz entrasse...
Algo em mim disse ainda
que a luz era pouca.
Sai para as ruas, abrindo sorrisos
a quem quer que fosse...
e a luz, em mim, dizia que ainda
mais poderia mostrar-se.
Abri, para tanto, livros:
poesia, contos, rotas
de quem quer saber.
Soube. E abri caminhos.
Deixei que entrassem sonhos, ventos,
flores, dores, dúvidas...
Abri a janela. E é manhã!
Que com ela, eu me abra ao hoje
e ao que sou!


Recife, Várzea do Capibaribe, 04 de Maio de 2012.
"Janelas", Luciana Cavalcanti.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Fruição - Luciana Cavalcanti



Entrego-te algumas palavras nuas.
Estão aí para dizer o que são.
Não ensaiam,
não se aprumam,
nem passam por revisão.
Palavras soltas, que,
outrora cruéis,
não sabem senão desnudar-se
para dizer de sua vergonha.
Cada palavra é um espasmo,
um soluço,
um orgasmo.
Cada palavra é já
algo que eu não calculo.

Página - Luciana Cavalcanti


Brancos cabelos.
Branca, a memória.
Não me apercebi,
tudo se tornou vago:
vago, o meu amor,
vago, o sentido de cuidado,
vaga, uma cadeira,
preenchida a cama.

E, agora, adoece, contigo,
minha noção de Futuro...
O cuidado com uma criança
que há de crescer para trás.
Quantos aprendizados,
esquecidos,
hei de repetir
para o teu sorriso?

Agora, a hora de fazer-me mestre.
Cada manhã, dizer o que é a Vida
- dizer-te e dizer-me! -
e já não esquecer
do amor-sentido, seus sentidos.
Hoje já, a tua memória é a minha
e o que sou/serei
escreve a tua História.


Luciana Cavalcanti
Recife, Várzea do Capibaribe, 22 de Abril de 2012.