segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Casa de Poesia - Luciana Cavalcanti



Poesia não é,
nem foi ou será,
propriedade da Palavra.
Poesia pode vir palavra por palavra,
palavra após palavra...
ou pode calar.
Basta reparar nos enamorados:
como aprendem silêncios...!
- além d'outras formas de Comunicação.
Palavra é que é metida a besta,
muito embora, infeliz de quem careça
de palavras para ser poeta!
A palavra nem sempre se ajeita no verso
e verso desajeitado tampouco faz Poesia.
Mas, veja:
o olhar de uma mãe que amamenta,
a ternura da pequenina mão de um bebê
descobrindo a magia do carinho-feito...
Mil e uma vezes o sol se põe,
mil e uma vezes enamorados se olham,
mil e um beijos de amor nos despertam 
sonhos e alma...
mil e uma vezes choramos de alegria.
E em tudo isto, cada dia, o que há
em nós e no Mundo (ao redor)
não há que ser outra coisa:
é Poesia!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

VOCAÇÃO DE ÍCARO - Luciana Cavalcanti.

VOCAÇÃO DE ÍCARO


Este caminhar sem passos,
tão longe,
muito além, me levará...
Certeza de poder chegar
e o aprendizado
cotidiano das rotas...
Com curiosidade e precisão
avançar na invenção 
de caminhos novos...

Este caminhar sem passos
e o exílio das alegrias mais simples
dizem algo sobre a Liberdade:
olhar, no pés, pulsar o desejo,
saber que passos traduzem sonhos
e, então, inventar asas firmes...
já que tanto e sempre arde o sol!

Luciana Cavalcanti.
Recife, Várzea do Capibaribe, 13 de Março de 2010.

Eles, os poemas... - Luciana Cavalcanti



Ela, que já me olhava há muito tempo, sem que eu o percebesse, retirou-me dos devaneios com a pergunta:
- Tia Lú, no que é que você tá pensando?
- Estou pensando em escrever um poema, Júlia - respondi, entre a surpresa e a necessidade de explicar coisas às crianças...
- E escrever um poema é bom ou ruim?
- É bom, Júlia... Escrever um poema é bom!
- E, então, Tia Lú... se é bom, por que você tá triste?!?
- Estou chamando o poema, que é bom, Júlia, por isso... pra ele não deixar mais eu ficar triste!
- Ah, então, o poema é alegre?
- Nem todos os poemas são alegres... alguns são tristes, mas, quando eles vem, ajudam o coração da gente porque são bonitos...
Frustrava-me com minha incapacidade de explicar poesia a uma criança, quando Júlia saltou da cadeira e correu a uma mesa próxima, arrancando a rosa mais bonita de um arranjo que a ornamentava... Rosa na mão, ela voltou.
- Toma a rosa, Tia Lú, ela é bonita... vai ajudar o poema que 'cê tá chamando...!
E correu a ir brincar com outras crianças...




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Diálogo acontecido no dia do casamento de Lygia e Hugo com Julinha, filha de Manú...

Reflexões...



Ser copo ou lago

"O velho mestre pediu a um jovem triste
que colocasse uma mão cheia de sal
em um copo d'água e bebesse.
- Qual é o gosto? Perguntou o mestre.
- Ruim! Disse o aprendiz.
O mestre sorriu e pediu ao jovem
que pegasse outra mão cheia de sal
e levasse a um lago.
Os dois caminharam em silêncio
e o jovem jogou o sal no lago.
Então o velho disse:
- Beba um pouco dessa água.
Enquanto a água escorria do queixo
do jovem, o mestre perguntou:
- Qual é o gosto?
- Bom! Disse o rapaz.
- Você sente o gosto do sal? Perguntou o mestre.
- Não, disse o jovem.
O mestre então, sentou ao lado do jovem,
pegou em suas mãos e disse:
- A dor na vida de uma pessoa não muda.
Mas o sabor da dor depende de onde
a colocamos.
Quando você sente dor,
a única coisa que você deve fazer
é aumentar o sentido de tudo o que
está a sua volta.
É dar mais valor ao que você tem
do que ao que você perdeu.
Em outras palavras:
É deixar de ser copo...
Para tornar-se Lago!


Desconheço a autoria desta história... atribuem-na à Sabedoria Oriental.

Rascunhos de um Aprendizado (extraído dos "Diários de Piracema")


Abri o coração. Em tempos onde o desamor faz das injustiças o cotidiano e dos gestos generosos uma ingenuidade perigosa, é preciso se guardar!
Abri o coração, pois não saberia não fazê-lo...
Abri o coração porque sei, do amor, a gratuidade e não me atreveria a omitir a alegria de estar aqui... "continuando a viver o que me cabe".
Abri o coração com choro de alegria, riso incontido, palavras soltas e uma imensa vontade de dizer "eu te amo" porque aprendi que em cada momento de amor e de emoção verdadeiros confirmamos a força da Vida.
Abri o coração sem vaidades, nem peso, nem exigências... simplesmente por querer confessar que acredito em milagres.
Abri o coração para mostrar o amor, pulsante, impulsionando os meus novos passos de quem, conhecendo a dor, reconhece algo maior que torna a dor pequena - por imensa que seja...
Abri o coração para dizer da certeza de que a Vida não se fecha jamais... Nem mesmo na morte! A morte, talvez, seja uma porta costantemente aberta que adentramos tranquilos se tivermos experimentado que a força e a luz da Vida são tão grandes que é impossível que não atravesse conosco para o "lado de lá"!
Abri o coração! A força transformadora deste gesto, grandioso ante um Mundo frio, nos faz pequenos, simples, infantis...
Eis-me aprendendo tudo novamente!
Eis-me sabendo que não sei, e sem tentar esconder minha fragilidade nas assembléias de sábios...
Assim sou: pequena e aprendente.
Aqui estou: comovidamente me reencontrando nas coisas simples...


Luciana Cavalcanti: 06 de Abril de 2010

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Strip-tease (Martha Medeiros)



Chegou no apartamento dele por volta das seis da tarde e sentia um nervosismo fora do comum. Antes de entrar, pensou mais uma vez no que estava por fazer. Seria sua primeira vez. Já havia roído as unhas de ambas as mãos. Não podia mais voltar atrás. Tocou a campainha e ele, ansioso do outro lado da porta, não levou mais do que dois segundos para atender.

Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ela não quis. Ele perguntou se ela queria sentar, ela recusou. Ele perguntou o que poderia fazer por ela. A resposta: sem preliminares. Quero que você me escute, simplesmente.
Então ela começou a se despir como nunca havia feito antes.

Primeiro tirou a máscara: "Eu tenho feito de conta que você não me interessa muito, mas não é verdade. Você é a pessoa mais especial que já conheci. Não por ser bonito ou por pensar como eu sobre tantas coisas, mas por algo maior e mais profundo do que aparência e afinidade. Ser correspondida é o que menos me importa no momento: preciso dizer o que sinto".

Então ela desfez-se da arrogância: "Nem sei com que pernas cheguei até sua casa, achei que não teria coragem. Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que reparto, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história."

Era o pudor sendo desabotoado: "Eu beijo espelhos, abraço almofadas, faço carinho em mim mesma tendo você no pensamento, e mesmo quando as coisas que faço são menos importantes, como ler uma revista ou lavar uma meia, é em sua companhia que estou".

Retirava o medo: "Eu não sou melhor ou pior do que ninguém, sou apenas alguém que está aprendendo a lidar com o amor, sinto que ele existe, sinto que é forte e sinto que é aquilo que todos procuram. Encontrei".

Por fim, a última peça caía, deixando-a nua
"Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que vim. A intenção é unicamente deixá-lo saber que é amado e deixá-lo pensar a respeito, que amor não é coisa que se retribua de imediato, apenas para ser gentil. Se um dia eu for amada do mesmo modo por você, me avise que eu volto, e a gente recomeça de onde parou, paramos aqui".

E saiu do apartamento sentindo-se mais mulher do que nunca.