sábado, 22 de dezembro de 2012

De Educação, de Futuro e de Eternidade - à Elmo Freitas

"Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais" (Rubem Alves)


Sempre considerei tristíssimo, belo, mas de uma beleza triste que os jovens compareçam às despedidas terrenas de seus educadores, seus mestres, fardados ou até, tomados pela emergência, com livros e cadernos nas mãos.

Consolava-me, é certo, a reflexão do professor-poeta, o louco Rubem Alves, que concede à Educação a loucura da Poética, da reflexão sobre o óbvio, da embriaguez do Amor, do enamoramento do Mundo. Professores teóricos, sisudos, professores que esquecem as histórias de seus alunos ou confundem tudo em burocráticas cadernetas e burocratizados corações... há muitos!

Rubem Alves é, pois necessário. Eu, doidamente, sou uma necessidade na aridez da Educação Contemporânea! Elmo Freitas também foi necessário, urgente, em uma tradição que reduziu à Pedagogia à Escola, a tarefa de educar à Educação das crianças e confundiu Formação com Ensino, além de ter reduzido o inquieto gestar dos conhecimentos à fórmulas científicas que, não raras vezes, ocultam com método a ausência de conteúdo. Elmo foi um aluno bom. Bom não porque disciplinado... Bom não porque adaptado às regras da Academia. Elmo era maior. Em tempos de uma Educação medíocre, Elmo brilhava! Incomodava, com isto, até mesmo aos professores desatentos que não aprenderam ainda que apenas um professor medíocre pode esperar nunca ser superado por seus educandos, por seus alunos.

Eu fui orientadora de Elmo, juntamente com Augusto França, na elaboração de seu TCC. Não demorou muito para que o estudante, que não conheci de salas de aula, se mostrasse de uma inteligência incomum e, portanto, mais que oportuna para os dias de hoje, conformados à mesmice e ao tédio de uma Formação que não forma e de Trabalhos de Conclusão de Curso que não estão produzindo saberes e, às vezes, sequer mexendo com eles. Elmo estava aprendendo a saber. E aprendendo bem! Fazia perguntas... Grandes perguntas. Muitas vezes, me deixou sem respostas. E, tudo isto, foi ótimo... Procuramos saber, depois. Aprendemos juntos. O breve espaço entre a apresentação dos dois jovens estudantes na porta da minha sala de aula e a defesa de seu TCC, com bons momentos de aprendizado partilhados na Biblioteca da Faculdade Osman Lins - Facol foram lúcidos, fecundos.

O sentimento doído de agora me deixa a sensação de que, mesmo quando lecionamos em turmas de jovens-adultos, a morte de um estudante inverte a lógica... Nós, os professores, esperávamos, talvez, ir antes! E, assim, contar com a imortalidade alentadora de permanecer presentes no pensamento e na ação daqueles em cuja Formação interferimos. É esquisito... Tem o sem-nome e o sem-sentido de perder um filho... De ver interrompida a trajetória de uma vida que, antevíamos, alvissareira, cheia de frutos bons e inquietos para o Mundo. Dói. E dói sem nome... Não faz sentido ver quem começou depois de mim chegar ao fim sem que eu tenha aprendido tudo o que podia ao seu lado, sem que mais pessoas pudessem saber o que sabia, descobrir suas descobertas. Mas convida a pensar.
Como toda a Vida e todo o acontecimento convida a pensar... a Recomeçar.

Um dia, a também dolorosa notícia de uma grave doença em uma de minhas alunas me impôs, diante da decisão dela de continuar a assistir aulas mesmo em tratamento de Quimioterapia, a motivação de construir, a cada dia, aulas que fizessem valer a pena superar a dor para continuar aprendendo. Não sei se tenho conseguido. Mas é um objetivo: construir conhecimento como quem gera vida, com a radicalidade deste comprometimento.

Não sei muito o que dizer quando choro... Mas sei melhor chorar quando digo o tamanho da minha dor! De certo, só o sentimento de que o instigante e provocador orientando que escolhi para uma substituição na aula de Filosofia da Educação dava conta do recado. Ele não seria um grande educador... ele já era um grande educador. Educador, inclusive, de seus educadores. Por isso, o convite aos colegas professores de vivenciarem esta dor na vibração das lições aprendidas, de refletirem em torno das perguntas que ele nos deixou. O convite também aos alunos e alunas a pensarem o Mundo como ele nos convidou a questionar... E, atrevidamente, penso agora, neste legado, nesta herança: tocar para a frente o futuro e os sonhos que um grande, excelente aluno, nos deixou!

Segue em Paz, meu querido! E deixa-nos inquietos, mas serenos... sabemos das mudanças que tu nos convidas a fazer no Mundo. Grata, a Deus e a ti, pela sorte de ter sido sua professora!

Com Amor,

Luciana Cavalcanti

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