quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Cartas...


Existem várias modalidades de Cartas de Amor. A maior parte delas, quase a totalidade, ridículas, nos advertiu o Poeta. 
No entanto, no patético, no poético, da Vida se entranha tanto encanto que nos seria ingênuo, senão mesmo criminoso, furtarmo-nos à tarefa de expor a alma sem truques, sem maquiagens, em cartas, abertas, infantis, inúteis, de Amor e de Sonho.

Assim, te escrevo: como quem se ri no espelho, diante da própria imagem; como quem lava o rosto demoradamente para mais sentir o frescor da água; como quem se sacia em dia quente.

Escrevo cartas de Amor e de Mundo, atrevida que sou, ousando sonhar, depois dos trinta, que tudo pode ser mais leve e azul, qualquer dia desses, pela decisão soberana do Povo.

Escrevo sem tramas nem pautas, a certeza de uma luz que me percorre as veias ou brota da pele junto ao suor cada vez que, nas ruas, nas praças, ouso pensar Outra Humanidade, outras verdades, não-exclusivistas, não-excludentes, não-únicas...

Escrevo. Certa de que, no rosto cansado de meu Amor ao Mundo, enxergas traços de teu rosto, tua História. E te reconheces em algo meu. Preocupo-me, misteriosamente, em trazer-te perto; tu, que estás, há tanto tempo, dentro... No fundo estrelado de meu peito que sonha, no gesto teimoso de minhas mãos que repartem, no brilho inquieto de meu olhar que faz perguntas.

E começo a me responder, com as palavras que não disse, sobre as procuras inúteis, as batalhas inúteis, anos a fio... quando estava tão claro: o que pulsa e impulsiona é um afeto tão antigo e verdadeiro que, de repente, me vejo criança. E, me vendo criança, sei tão meu o Mundo que já nem pergunto... Suavemente, tocarei teu ombro para o convite: vamos pintá-lo em outra cor, vamos mudá-lo, para mais justo e belo. Vamos tocar o Céu sempre que possível! Vamos impossivelmente, nós dois, reinventar-nos...


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