sábado, 15 de setembro de 2012

Na tarde, de palavra tonta - Luciana Cavalcanti



Sofrer de bom sofredor. Saber ouvir... No entanto, não ter nem tempo, nem promessa, nem peito, para dizer palavra que avive o coração do outro, palavra que diga "pulse!". Vinícius na vitrola. E já não é tão Natal assim... Me desobrigo. Ontem, fim de festa, um pouco eu fui às ruas a ver gente e caos... e fins de festas. De novo a Vida, repertório enjoado, e nem é samba duma nota só... Muitas notas. Promissórias... Um ano findo. Prazo vencido. Peito vencido (pelo cansaço). Juro...
Aluga-se um ouvido, aluga-se um amigo e que se cobre ao fiador. Ficou devendo. Nem dinheiro, nem favor. Ficou devendo aquele amor ao poema... Os poemas vieram. Força e agudeza de corte... Ontem eu olhava, noturno e seco, o Capibaribe. Meu silêncio necessário, minha cidade desejada (corpo, abraço o Recife com desejo e dor...) e lembro João Cabral. Recordo que é ele o poeta deixado, só, à beira do Rio, na Aurora. O jornal me diz "Bom-dia" com Cabral... Fotografias do povo ao lado do poeta, versos de amor ao Rio, versos de entendimento da lama e do escuro: Recife. Não vivo sem o acaso. Abraço João Cabral.
Verdade é que as ruas da cidade, bem como a sua imagem (distante e límpida) vista do Alto da Sé, me refazem, reinventam. Triste ou contente, preciso encontrar a Cidade. Ontem, foram as duas coisas. Duas noites em uma só. Duas cidades. Dois rios. Duas vidas...
Eu, que me ri no Ato Penitencial - achando sem sentido que Deus-Criador esteja lá preocupado com meus pequenos fazeres -, pecadora, confesso: errei muitas vezes por pensamentos, mas, sobretudo, por palavras. Poeta (um pouco), não sei dizer tudo, não sei seduzir palavras, nem guardar estrelas nas entranhas de versos... Errei muitas vezes por palavras e estraguei os motes, e estanquei a rima, e perdi o ritmo, e menti pra mim. Errei por palavras guardadas ou afloradas, pelo dito na hora errada, não-dito, bendito, maldito. Errei por palavras, atos e omissões. Mas não por minha culpa (tão grande culpa!)... Errar de erro ingênuo, de curiosidade, de vontade do não-vivido. Errar pela sede assanhada, pelo sonho apressado, pela imagem confundida, pela embriaguez. E, então, erro de errar com culpa, pelo risco assumido, pela consciência consciente, pelo atrevimento sabido, pela lei lida, relida e contornada.
Na noite, a dor pressentida, se mostra. Leve e incontornável como o momento do assalto, em um instante a chaga se apresenta. Eu tenho medo da sombra terrível que é quase precisar sofrer para arrancar poesia funda e contundente das coisas, dos sentidos e sentimentos... Tenho medo, mas não me esquivo, não me escondo. Vulnerável, caminho na noite. Esquecida, perco as horas. Lunática, delirante, louca, solto os olhos sozinhos e, cega, tento descobrir outras visões... Um bom poema me chega assim. E, às vezes, nem deixa que eu guarde os versos que me trouxe, que eu cheire suas roupas, lhe pergunte onde esteve até aquelas horas, lhe irrite, lhe faça queixas, depois, o abrace como quem precisa disto pra viver...
Eu me resignei, no entanto. E aprendi a acreditar que há solidões que valem os versos. E me acalmo (e isto é rídiculo!) porque sinto o Capibaribe mais só e frio que eu, mas louco e impotente em suas ânsias, mais interditado e amado pela metade... Os rios, as pontes, dão à Cidade (incontestavelmente suja e escura) tons estranhos de poesia nunca escrita. Eu acredito Recife uma cidade entorpecida e triste - nunca disse! E a amo justamente por isso... As Religiões me assustam porque prometem o ajuste e a sincronia perfeita de tudo, harmonias nos dias... Não creio. O dolorido é verdadeiro e a gente sabe isso quando percebe o carnaval como festa de euforias tristes - é só escutar marchinhas e frevo de bloco... E eu tenho medo de amar - aqui, quem não sabe ainda, já intuia!
Se poesia matasse, eu teria morrido esta madrugada - mas não contem a mais ninguém... Eu não saberia explicar porquê. Embriaguei-me do Capibaribe. E ele me bebeu com sede. Duvidei que a vida seja séria... e ri de todas as minhas penitências. Quis o mar de jeito único, inundei de sons o quarto, acabei o vinho e fundei uma nova verdade: eu não careço de motes para os versos... Pouco mais, eles me assaltarão (sozinha) na noite e, um dia, eu vou morrer disso...

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