sábado, 15 de setembro de 2012

Escritos de Luciana Cavalcanti


Qual é a graça de brincar quieto?!?



Os calendários ofertando as saideiras... Os dias encerram um ano. Não é nada, eu sei. Rigidez de contar tempo hermetica e toscamente, gregorianamente. No entanto, quem escapa da possibilidade de pensar futuros, passados, acertar o passo do presente? Quem se furta da ânsia de arrumar o quarto e o Mundo para desejar o novo? E o novo sempre vem... Vem! Mas nem todo mundo topa: mudar a trilha, mudar os ares, mudar de idéias... Virar páginas. A gente traça rotas e é um tanto difícil não as poder seguir. A idéia do "Ano Novo" se faz forte pela força simbólica de acender os alertas do desejo e apontar para o futuro... mas isso aqui é repetição - pareeei!!!
Guardando Neruda para ir à padaria, eu leio a rua. Um garoto corria, de um lado a outro, em zigue-zague, pulava. Tudo isso, arrastando atrás de si um enorme caminhão de brinquedo... A mãe, visivelmente digerindo ainda as cifras do "Feliz Natal" de seu rebento, protesta:
- Diego, brinca direito!!!
- Como assim?!? Eu tô brincando...
- Brinca quieto, menino...!
- Mas brincar parado não tem graça... Eu não vou me machucar não...
- Diego, esse carro foi caro... vai quebrar com uma semana!!!
- Ah, então, pra quê eu tenho um caminhão de guardar? Eu quero brincar...!
Lembro de Diego ter perguntado, afinal, quanto lhe custara o tal caminhão antes de sair com essa (... é verdade!) frase proverbial: "então, pra quê se quer brinquedos de guardar?"...
Qual o sentido de bonecas que não são pintadas, de carrinhos que não rolam escada abaixo, que não carregam areia, de bolas impecavelmente limpas? Talvez, a repressão que os cartões de crédito fazem os pais incutirem nos pirráias justifique a graça gostosa dos brinquedos de madeira, papagaios, garrafas coloridas, guerras de frutas (ou sementes...). Talvez, a adesão voraz da garotada aos video-games seja justificada porque diante de um game a criança estravasa sem risco de quebrar o brinquedo, tudo higienizado e sob controle: joystick...
Eu estou falando sério! Que mania absurdamente chata de não querer quebrar, não querer gastar, não querer acabar... O povo diz (falando, evidentemente, pela voz de Deus!): quem guarda com fome, o gato come. Afinal, pra quê se vai brincar com medo de cair? Brincar com medo de quebrar? O lúdico e o medo são realidades que se anulam, geralmente - e, agora, penso e destaco esportes radicais e filmes de suspense como outra história...
Olha, isso tudo é muito adulto: regras, cuidados, etiquetas... até para brincar?!? Dá um tempo! Quando eu era criança, lembro que meu maior pavor era saber que iria, fatalmente, me tornar adulta; seguia-se o medo de enterros de "anjinhos". Ao primeiro medo, dei uma solução interessante: minha adultice tem regras próprias. Sim, se ficar chato, eu paro de brincar! Seja a brincadeira o que for... A única coisa de fato séria nessa vida é a capacidade de ser feliz.
O prazer, a vontade, o amor, o desejo de chuva na pele, a sede de brisa, o gosto de ter cabelos batendo nos olhos, as árvores escaladas nas férias, as farras de bar, tudo, são novas brincadeiras. Eu não me pergunto quanto custam os meus brinquedos... Aprendi com meus pais que o sentido de meu brinquedo é a minha alegria e não a preservação do estado físico do souvenir. Não duvido de como minha infância me ensinou a brincar: me sujando, caindo, chorando e levantando ainda limpando o sangue misturado à areia para continuar correndo, quebrando brinquedo, brigando (ficar de mal...) e fazendo as pazes trinta segundos depois... Aprendi a brincar brincando, como a amar se aprende amando. E sei que o medo de quebrar o brinquedo torna tudo muito chato...
Peito aberto, vida solta, descalços e sem hora, vamos ao Mundo! Vamos aos dias! Só não vale trapacear - como brincar de esconde-esconde contando de olho aberto! No mais: se sujar faz bem e, como diria Diego, pra quê que eu quero um brinquedo bom pra guardar?!? Então, a vida está aqui, pronta para ser devorada como fruta boa "caçada" nos cumes das grandes árvores dos quintais... A vida está aqui, brinquedo sempre novo, que eu não vou quebrar (pra não parar a brincadeira!), mas nunca vou guardar na caixa em cima da estante.

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