segunda-feira, 14 de maio de 2012

Qual a cor da Música que você ouve?

Uma noite de sábado de maio, o céu naquela promessa de chuva, a fim de ficar pijamenta, em casa. Mas descobri que havia show de Chico César - e o Secretário de Cultura do Estado da Paraíba, senhoras e senhores, este, é um artista cuja arte aprecio e as posturas políticas só me fazem sublinhar o respeito que tenho por ele. Mandei o pijamas às favas... e fui pra rua!
Estava em casa, ali, na Rua da Moeda. Militantes dos movimentos populares, educadores populares, negros, muitos negros engajados na luta anti-racismo, estudantes, professores. E mais um escarcéu de gente inclassificável...


Cervejinha na mão, fui curtir o Show de Chico César. Eu, dois amigos de Black Power, um Rastafári, e demais negros e negras com os cabelos livres da ditadura da estética e da necessidade de correr da chuva que começou (chapinha impede a coisa mais gostosa, entre índios, crianças, loucos, apaixonados e livres: dançar, cantar, na chuva! Banho de chuva, yes!).
Possível entender que a música que você ouve, o som que te faz dançar... a vibe que te diverte... aponta pra tua alma. Aponta pra relação desta alma com o corpo que ela habita.
O que dá prazer ao teu corpo não é isento do Mundo e de seus significados... Não diga "é apenas música". Não diga "é apenas para me divertir, curtir". Diminuir a arte, ou simular democracia dizendo que Sheldon e Fernando Brant são, ambos, compositores, não desvia o tortuoso e arriscado caminho de tornar invisível a relação entre o estético e o ético, entre estes dois e o étnico. Entre o étnico e o político.
É preciso afirmar o conflito, que está posto. Denunciá-lo. Para que a dor de ninguém seja ignorada.
Um desafio: ser negro de corpo e de alma. Ser negro de alma e de arte. Viver arte negra, não para negar o branco... mas para ser visto, entendido.
Para não deixar de herança pro meu filho abolição incompleta, democracia racial dissimulada, que estas coisas não são genéticas, mas, pela História, o DNA vai fazer que, no meu filho, doa mais do que em outras crianças, brancas, mesmo mestiças... Me vejo no espelho e na História: Nêguinha. Me sinto de alma e de Luz, tataraneta de Áfricas, de Ameríndia invadida e explorada.
Ontem, 13 de Maio, Emicida foi detido por desacato. Quem duvida que o policial, contemporâneo Capitão do Mato, se sentirá sempre afrontado quando um Negro (marcado quase sempre com o ferro quente da pobreza) fala em Liberdades, afoitamente, qual Zumbi?!
E a Edição da reportagem do Fantástico, ontem, 13 de Maio, não conseguiu esconder a afasia de Alexandre Pires diante da oportuna pergunta da repórter: mas e a figura do macaco não reforça um esteriótipo? Uma imagem constantemente associada de modo degradante ao Negro?
Quantos quilombos serão necessários? Quantos zumbis?
Quantas Elisas, lucidamente Lucindas, lindas, precisarão gritar Poesia pra que se entenda que a Mulata, a Negra, a Morena, não é objeto de desejo do Sinhozinho - mesmo que a senzala tenha sido substituída por dependências de empregada?
Quantas e quantas vezes será preciso dizer a esta gente, ignorante ou displicente, que não é engraçado aquela sua brincadeira carinhosa de nos chamar "Nêgo Safado"? Eu sou nêga safada? Ou sou recalcada? Pois bem... você é ignorante. E não é ignorante porque incauto... é ignorante porque ignora (nunca viveu) a dor de sofrer algo por causa da cor, por causa do cabelo. Assim, como eu sou ignorante em relação à condição masculina ou branca... não sei das dores e das delícias de vocês.
Ainda é esmagadora a maioria branca (em país mestiço) a exercer a docência no Ensino Universitário. Ainda são diferentes as rendas de negros e brancos. Ainda há mais adoção das crianças de pele clara que de crianças de pele escura... ainda... Ainda!
13 de Maio... parece que foi ontem. 1888, parece que foi ontem.
"Lágrima clara sobre a pele escura" é linda, translucida, se me aponta caminhos de luta e libertação.
Aí, um cristão me disse que a religião africana oprime a mulher... Como? Não entendi! Me explica como a maior instituição de vocês é mantida por fiéis mulheres e governada (não hegemonicamente, mas exclusivamente!) por homens?
Aí, me disseram que as cotas raciais geram racismo...
Aí, me disseram que mulher de "jogador de futebol" é sempre branca... Uma pergunta: por que negro de sucesso é jogador de futebol?
Aí, voltam a atacar as cotas dizendo que as cotas pressupõem diferenças de capacidade intelectual... Minha capacidade intelectual, por si só, não consegue pagar as mensalidades de Cursinhos e me tornar competitiva. Competição, esta palavra está em uso no Mundo da Educação - eu sei, não devia! Mas...
Aí, me deram um argumento tão rebuscado para explicar porque a maioria das vítimas de violência letal é negra, pobre, masculina e jovem... mas um argumento tão rebuscado, para que eu tirasse esta ideia "recalcada" de racismo da minha cabeça... que eu preferi continuar com minha conclusão: o que fazem com nossos jovens negros é extermínio.
Mas... eu estava falando de Chico César, não foi?
Quando tive oportunidade, pela terceira vez, de falar com ele - a primeira, no Lumiara Zumbi, vendo o Encontro de Cavalos Marinho; a segunda, tocando Maracatu com os estudantes na UFPB -, disse-lhe: "Chico, eu te agradeço pelo que sua música tem de educacional! A consciência que vem de "Filá", de "Alma não tem cor"... transforma histórias"; ele: "ser educador é um privilégio, para um artista"...
Música educa. Ou deseduca. Portanto, cuidado com o que ouve. O que você ouve pode te paralisar, fazer esquecer o que houve e o que há no Mundo. A cerveja, que seja gelada! Mas a música, a música quente mesmo é a que esquenta teu cérebro.
Por favor, não se distraía...



Advertência: O presente texto não é nem pretende ser uma reflexão acadêmica sobre o tema.

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