segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Receita Para um Ano Bom...!


Desejos de Janeiro (Para um Ano Bom!) - Luciana Cavalcanti



Saiba um amor que te sinta,
mergulhe por sede da pele,
delire em canção que não minta...
E feche os olhos,
e abra o peito,
encontre o mar.

Encontre o caminho de casa,
da casa invisível,
onde morarão teus sonhos,
onde moras já (sem saber).
Queira o amor,
dilate o querer,
dilate os dias,
comendo as horas sem pressa,
como fruta boa em dia de mar.

Saiba saber do desejo,
não se esquive (nunca!) ao bom do beijo
- nem se furte ao beijo roubado!
Sinta o amor do cuidado,
saiba das harmonias do silêncio
e cante. E dance. E seja...

Feche bem os olhos, se veja.
Ajuda, no escuro, ao parto
da Luz. Ilumina o olho cego das ruas,
desengaveta os poemas,
mostra a cara,
assume o sonho,
desnuda a alma...

E o mais certo de ti,
desnuda também, com calma,
porque em cada pele dorme
um bocado atrevido de luz.

Guarda a lua que vês,
três pedaços de crepúsculo
e dois de aurora,
para trazer nos olhos
à emergência do amor amado.

Não peça nada dos dias,
antes, desperta em cada um
a vontade mais doida e boa
de te fazer sempre mais
feliz, feliz...

E seja
feliz com o que deseja
e desejante do que faz riso.
Criterioso sem ciso,
cuidadoso, sem medo...

Seja o mistério e seja claro,
seja aquele instante raro
em que se sabe beber o Eterno
nas bocas.

Seja uma verdade,
não última, nem primeira,
seja qualquer verdade verdadeira
de um amor que se quer para querer,
de um momento
que não te aceita sozinho,
de um viajante, embriagado de caminho,
que deseja parar e olhar o sol.

Veja a estrela que arde,
aprenda a ouvi-las,
aprenda a dividir com as estrelas
a força
de multiplicar teus desejos,
de trazer os desejos pela mão,
de trazer o desejo nas mãos,
e estender brilho,
transbordante,
dos olhos ao chão de casa.

Saiba, de cór,
saiba demais, de ouvido,
a canção que te traz sentido
a um novo amor...
Saiba por um cheiro,
imaginar cores e formas.
E saiba inventar melhor depois.
Ou saiba nada. Esqueça um pouco...
E – de sexto sentido e outros cinco -
intua, de intuição descarada,
boa vida
para dois.

Cântico da Esperança - Rabindranath Tagore

Cântico da Esperança


Não peça eu nunca 
para me ver livre de perigos, 
mas coragem para afrontá-los. 

Não queira eu
que se apaguem as minhas dores,
mas que saiba dominá-las
no meu coração.

Não procure eu amigos
no campo da batalha da vida,
mas ter forças dentro de mim.

Não deseje eu ansiosamente
ser salvo,
mas ter esperança
para conquistar pacientemente
a minha liberdade.

Não seja eu tão covarde, Senhor,
que deseje a tua misericórdia
no meu triunfo,
mas apertar a tua mão
no meu fracasso!

- Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera", (Tradução de Manuel Simões)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Qual a graça de brincar quieto??


Os calendários ofertando as saideiras... Os dias encerram um ano. Não é nada, eu sei. Rigidez de contar tempo hermetica e toscamente, gregorianamente. No entanto, quem escapa da possibilidade de pensar futuros, passados, acertar o passo do presente? Quem se furta da ânsia de arrumar o quarto e o Mundo para desejar o novo? E o novo sempre vem... Vem! Mas nem todo mundo topa: mudar a trilha, mudar os ares, mudar de idéias... Virar páginas. A gente traça rotas e é um tanto difícil não as poder seguir. A idéia do "Ano Novo" se faz forte pela força simbólica de acender os alertas do desejo e apontar para o futuro... mas isso aqui é repetição - pareeei!!!
Guardando Neruda para ir à padaria, eu leio a rua. Um garoto corria, de um lado a outro, em zigue-zague, pulava. Tudo isso, arrastando atrás de si um enorme caminhão de brinquedo... A mãe, visivelmente digerindo ainda as cifras do "Feliz Natal" de seu rebento, protesta:
- Diego, brinca direito!!!
- Como assim?!? Eu tô brincando...
- Brinca quieto, menino...!
- Mas brincar parado não tem graça... Eu não vou me machucar não...
- Diego, esse carro foi caro... vai quebrar com uma semana!!!
- Ah, então, pra quê eu tenho um caminhão de guardar? Eu quero brincar...!
Lembro de Diego ter perguntado, afinal, quanto lhe custara o tal caminhão antes de sair com essa (... é verdade!) frase proverbial: "então, pra quê se quer brinquedos de guardar?"...
Qual o sentido de bonecas que não são pintadas, de carrinhos que não rolam escada abaixo, que não carregam areia, de bolas impecavelmente limpas? Talvez, a repressão que os cartões de crédito fazem os pais incutirem nos pirráias justifique a graça gostosa dos brinquedos de madeira, papagaios, garrafas coloridas, guerras de frutas (ou sementes...). Talvez, a adesão voraz da garotada aos video-games seja justificada porque diante de um game a criança estravasa sem risco de quebrar o brinquedo, tudo higienizado e sob controle: joystick...
Eu estou falando sério! Que mania absurdamente chata de não querer quebrar, não querer gastar, não querer acabar... O povo diz (falando, evidentemente, pela voz de Deus!): quem guarda com fome, o gato come. Afinal, pra quê se vai brincar com medo de cair? Brincar com medo de quebrar? O lúdico e o medo são realidades que se anulam, geralmente - e, agora, penso e destaco esportes radicais e filmes de suspense como outra história...
Olha, isso tudo é muito adulto: regras, cuidados, etiquetas... até para brincar?!? Dá um tempo! Quando eu era criança, lembro que meu maior pavor era saber que iria, fatalmente, me tornar adulta; seguia-se o medo de enterros de "anjinhos". Ao primeiro medo, dei uma solução interessante: minha adultice tem regras próprias. Sim, se ficar chato, eu paro de brincar! Seja a brincadeira o que for... A única coisa de fato séria nessa vida é a capacidade de ser feliz.
O prazer, a vontade, o amor, o desejo de chuva na pele, a sede de brisa, o gosto de ter cabelos batendo nos olhos, as árvores escaladas nas férias, as farras de bar, tudo, são novas brincadeiras. Eu não me pergunto quanto custam os meus brinquedos... Aprendi com meus pais que o sentido de meu brinquedo é a minha alegria e não a preservação do estado físico do souvenir. Não duvido de como minha infância me ensinou a brincar: me sujando, caindo, chorando e levantando ainda limpando o sangue misturado à areia para continuar correndo, quebrando brinquedo, brigando (ficar de mal...) e fazendo as pazes trinta segundos depois... Aprendi a brincar brincando, como a amar se aprende amando. E sei que o medo de quebrar o brinquedo torna tudo muito chato...
Peito aberto, vida solta, descalços e sem hora, vamos ao Mundo! Vamos aos dias! Só não vale trapacear - como brincar de esconde-esconde contando de olho aberto! No mais: se sujar faz bem e, como diria Diego, pra quê que eu quero um brinquedo bom pra guardar?!? Então, a vida está aqui, pronta para ser devorada como fruta boa "caçada" nos cumes das grandes árvores dos quintais... A vida está aqui, brinquedo sempre novo, que eu não vou quebrar (pra não parar a brincadeira!), mas nunca vou guardar na caixa em cima da estante.

sábado, 22 de dezembro de 2012

De Educação, de Futuro e de Eternidade - à Elmo Freitas

"Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais" (Rubem Alves)


Sempre considerei tristíssimo, belo, mas de uma beleza triste que os jovens compareçam às despedidas terrenas de seus educadores, seus mestres, fardados ou até, tomados pela emergência, com livros e cadernos nas mãos.

Consolava-me, é certo, a reflexão do professor-poeta, o louco Rubem Alves, que concede à Educação a loucura da Poética, da reflexão sobre o óbvio, da embriaguez do Amor, do enamoramento do Mundo. Professores teóricos, sisudos, professores que esquecem as histórias de seus alunos ou confundem tudo em burocráticas cadernetas e burocratizados corações... há muitos!

Rubem Alves é, pois necessário. Eu, doidamente, sou uma necessidade na aridez da Educação Contemporânea! Elmo Freitas também foi necessário, urgente, em uma tradição que reduziu à Pedagogia à Escola, a tarefa de educar à Educação das crianças e confundiu Formação com Ensino, além de ter reduzido o inquieto gestar dos conhecimentos à fórmulas científicas que, não raras vezes, ocultam com método a ausência de conteúdo. Elmo foi um aluno bom. Bom não porque disciplinado... Bom não porque adaptado às regras da Academia. Elmo era maior. Em tempos de uma Educação medíocre, Elmo brilhava! Incomodava, com isto, até mesmo aos professores desatentos que não aprenderam ainda que apenas um professor medíocre pode esperar nunca ser superado por seus educandos, por seus alunos.

Eu fui orientadora de Elmo, juntamente com Augusto França, na elaboração de seu TCC. Não demorou muito para que o estudante, que não conheci de salas de aula, se mostrasse de uma inteligência incomum e, portanto, mais que oportuna para os dias de hoje, conformados à mesmice e ao tédio de uma Formação que não forma e de Trabalhos de Conclusão de Curso que não estão produzindo saberes e, às vezes, sequer mexendo com eles. Elmo estava aprendendo a saber. E aprendendo bem! Fazia perguntas... Grandes perguntas. Muitas vezes, me deixou sem respostas. E, tudo isto, foi ótimo... Procuramos saber, depois. Aprendemos juntos. O breve espaço entre a apresentação dos dois jovens estudantes na porta da minha sala de aula e a defesa de seu TCC, com bons momentos de aprendizado partilhados na Biblioteca da Faculdade Osman Lins - Facol foram lúcidos, fecundos.

O sentimento doído de agora me deixa a sensação de que, mesmo quando lecionamos em turmas de jovens-adultos, a morte de um estudante inverte a lógica... Nós, os professores, esperávamos, talvez, ir antes! E, assim, contar com a imortalidade alentadora de permanecer presentes no pensamento e na ação daqueles em cuja Formação interferimos. É esquisito... Tem o sem-nome e o sem-sentido de perder um filho... De ver interrompida a trajetória de uma vida que, antevíamos, alvissareira, cheia de frutos bons e inquietos para o Mundo. Dói. E dói sem nome... Não faz sentido ver quem começou depois de mim chegar ao fim sem que eu tenha aprendido tudo o que podia ao seu lado, sem que mais pessoas pudessem saber o que sabia, descobrir suas descobertas. Mas convida a pensar.
Como toda a Vida e todo o acontecimento convida a pensar... a Recomeçar.

Um dia, a também dolorosa notícia de uma grave doença em uma de minhas alunas me impôs, diante da decisão dela de continuar a assistir aulas mesmo em tratamento de Quimioterapia, a motivação de construir, a cada dia, aulas que fizessem valer a pena superar a dor para continuar aprendendo. Não sei se tenho conseguido. Mas é um objetivo: construir conhecimento como quem gera vida, com a radicalidade deste comprometimento.

Não sei muito o que dizer quando choro... Mas sei melhor chorar quando digo o tamanho da minha dor! De certo, só o sentimento de que o instigante e provocador orientando que escolhi para uma substituição na aula de Filosofia da Educação dava conta do recado. Ele não seria um grande educador... ele já era um grande educador. Educador, inclusive, de seus educadores. Por isso, o convite aos colegas professores de vivenciarem esta dor na vibração das lições aprendidas, de refletirem em torno das perguntas que ele nos deixou. O convite também aos alunos e alunas a pensarem o Mundo como ele nos convidou a questionar... E, atrevidamente, penso agora, neste legado, nesta herança: tocar para a frente o futuro e os sonhos que um grande, excelente aluno, nos deixou!

Segue em Paz, meu querido! E deixa-nos inquietos, mas serenos... sabemos das mudanças que tu nos convidas a fazer no Mundo. Grata, a Deus e a ti, pela sorte de ter sido sua professora!

Com Amor,

Luciana Cavalcanti

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Notícia...

Notícia


Elegi, para mim,
alguns silêncios.
Eu, que falo tanto,
que não calo...
Trouxe pela mão esse não-dizer
que instalou-se
entre nós dois durante as horas
(intermináveis)
de falarmo-nos,
de transbordarmos um
da presença do outro.

Somos imensos!
E, isso, me acovarda.

Como eu diria, assim,
sem nenhuma cautela,
que o amor sentou ao meu lado,
sussurrando absurdos
ao meu ouvido,
a ponto de fazer-me estremecer
quando em tua presença?

Fevereiro/2006 - Luciana Cavalcanti

sábado, 1 de dezembro de 2012

"À queima-roupa" - Luciana Cavalcanti

À queima-roupa:



Me responda, amigo, quem, 
entre eu e eu mesma, 
consegue mais viver sem você?
Arredar o pé de tua vida 
e arriscar não me alimentar
do teu riso, mesmo quando sério,
fonte de luz e, genuína,
alegria?!
Responda se isto é jeito
de enredar-se na vida
de alguém...!
Porque muito parece 
sem resposta, sem proposta,
sem propósito,
ou graça, ou gosto,
se não é por teu rosto
que eu abro o riso
ou a janela!
Responda, mas não carece
pressa nem precisão,
porque foi também imprecisamente
que, um dia, o coração
andou lembrando histórias
e concluiu, sem mais nem menos,
você...
Ah, e este coração, cadê?
Pregador de peça, inventor de encantos...
Delírios que eu tinha, tinha tantos...!
Mas, agora, cismei na Realidade...
E, realmente, cadê resposta 
pra mim sem você?!

Luciana Cavalcanti - "À queima-roupa"

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Olhar-se. Mostrar-se.

A Beleza não é o que se pinta por aí!

Há defeitos que nenhum corretivo facial te deixa fingir... Há espelhos implacáveis: a vida, o cotidiano, o silêncio, a solidão.

O que foi dito não é tão essencial como o que foi vivido.


O que se mostra não é necessariamente o "lado de fora".

Externar-se é trazer a Luz quem és... À luz inteira, o belo e o feio se ressignificam.

Há gente que esconde a parte de dentro. E eu os convido: não percam a chance de ser percebidos, entendidos; mais: de ser belos.

Ou alguém se conforma de despertar mais desejo que Ad-miração?!

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Precisão - Luciana Cavalcanti




Era precisamente aquele amor,

mas aquele amor
que, de tão perfeito,
pareceria impossível;
de tão cabível,
pareceria descabido;
de tão lúcido,
pareceria loucura;
de tão louco,
pareceria invenção!

Mas era precisamente amor,
nem mais nem menos,
nem pura amizade,
nem mera pretensão,
nem ociosidade,
nem qualquer desrazão.
Era tudo e era nada.
A paixão aguardada
e, enquanto aguardada,
já vivida
no que a Vida oferecera
sempre antes
e que permitiria
falar, depois, do Amor
como História
dessas que se contam 
pra fazer sonhar e crer...

Amor, assim, possível,
como nos passou despercebido?
Como nos assombrou assim,
chegando de canto,
como se à espreita
e aproveitando-se
de estar invisível?

No entanto, era precisamente amor,
nem demais nem de menos,
sem assombros nem acenos,
com simplicidade de riso
para reacender em nossas bocas
utopias de felicidade a dois,
a dez, a mil...
Sem peso e sem pressa,
sem fraude nem promessa,
precisamente amor porque amar
é urgente, é da gente,
e é preciso.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Aqui - Luciana Cavalcanti




Contigo, para as pontes,
para as portas,
para os portos,
para os poros,
para os partos...


Contigo, quando for noite,
quando for tarde,
ou cedo, mas sempre
pra se inventar um tempo
de não ter medo
e seguir...


Contigo, por hoje, por hora,
e por cada sonho
(que não demora)
em inventar amanhãs...


Contigo, pelos meus versos,
pelos meus risos
e pelos teus risos, mais.


Contigo, sim, talvez e não.
Contudo, sempre ainda mais:
abertos, as portas e os poros,
atentos, às pontes e portos,
prontos para manhãs
e amanhãs...
apertados os nós.


Luciana Cavalcanti


(Recife, Várzea do Capibaribe, 07 de Novembro de 2011)

Te quiero - Mario Benedetti




Tus manos son mi caricia 
mis acordes cotidianos 
te quiero porque tus manos 
trabajan por la justicia 

si te quiero es porque sos 
mi amor mi cómplice y todo 
y en la calle codo a codo 
somos mucho más que dos 

tus ojos son mi conjuro 
contra la mala jornada 
te quiero por tu mirada 
que mira y siembra futuro 

tu boca que es tuya y mía 
tu boca no se equivoca 
te quiero porque tu boca 
sabe gritar rebeldía 

si te quiero es porque sos 
mi amor mi cómplice y todo 
y en la calle codo a codo 
somos mucho más que dos 

y por tu rostro sincero 
y tu paso vagabundo 
y tu llanto por el mundo 
porque sos pueblo te quiero 

y porque amor no es aureola 
ni cándida moraleja 
y porque somos pareja 
que sabe que no está sola 

te quiero en mi paraíso 
es decir que en mi país 
la gente viva feliz 
aunque no tenga permiso 

si te quiero es porque sos 
mi amor mi cómplice y todo 
y en la calle codo a codo 
somos mucho más que dos.



domingo, 11 de novembro de 2012

Como dizia o Poeta...


Teu riso - Luciana Cavalcanti


Teu sorriso faz falta quando
me sorris na fotografia,
pois recordo que o riso
é movimento.
Não são teus dentes,
em tua boca,
músculos que se movem
e dizem da felicidade,
do congraçamento, qualquer coisa
entre banal e linda
que justifique a luz
com que iluminas
a partir de teu rosto
minha vida inteira
em tarde qualquer,
seja domingo
ou uma segunda-feira,
cinzenta, pijamenta,
burocrática e apressada...
Teu sorriso me faz falta quando
não me falta nada
além da luz de seres,
natural e límpido,
plenamente amigo:
mão estendida,
abraço apertado,
afeto cuidado
para não te causar espanto!
Por tanto encanto que a falta,
nem lacunar, nem carente,
mas falta amorosa e urgente
que teu riso me faz
quando me sorris
na fotografia
e eu penso em causar
eu mesma teu riso,
todo dia,
com meus mais grandiosos
e os mais banais gestos.
E deliro a sonhar
que me sorris adentrando esta casa,
mais que a porta, o coração se abre,
e, então, desperta, me rio
a olhar ainda tua fotografia!
E, movimento,
meu coração se agita...
Direi-te, um dia, ao menos,
que esta foto onde me ris...
ah! ela está tão bonita!

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Cartas...


Existem várias modalidades de Cartas de Amor. A maior parte delas, quase a totalidade, ridículas, nos advertiu o Poeta. 
No entanto, no patético, no poético, da Vida se entranha tanto encanto que nos seria ingênuo, senão mesmo criminoso, furtarmo-nos à tarefa de expor a alma sem truques, sem maquiagens, em cartas, abertas, infantis, inúteis, de Amor e de Sonho.

Assim, te escrevo: como quem se ri no espelho, diante da própria imagem; como quem lava o rosto demoradamente para mais sentir o frescor da água; como quem se sacia em dia quente.

Escrevo cartas de Amor e de Mundo, atrevida que sou, ousando sonhar, depois dos trinta, que tudo pode ser mais leve e azul, qualquer dia desses, pela decisão soberana do Povo.

Escrevo sem tramas nem pautas, a certeza de uma luz que me percorre as veias ou brota da pele junto ao suor cada vez que, nas ruas, nas praças, ouso pensar Outra Humanidade, outras verdades, não-exclusivistas, não-excludentes, não-únicas...

Escrevo. Certa de que, no rosto cansado de meu Amor ao Mundo, enxergas traços de teu rosto, tua História. E te reconheces em algo meu. Preocupo-me, misteriosamente, em trazer-te perto; tu, que estás, há tanto tempo, dentro... No fundo estrelado de meu peito que sonha, no gesto teimoso de minhas mãos que repartem, no brilho inquieto de meu olhar que faz perguntas.

E começo a me responder, com as palavras que não disse, sobre as procuras inúteis, as batalhas inúteis, anos a fio... quando estava tão claro: o que pulsa e impulsiona é um afeto tão antigo e verdadeiro que, de repente, me vejo criança. E, me vendo criança, sei tão meu o Mundo que já nem pergunto... Suavemente, tocarei teu ombro para o convite: vamos pintá-lo em outra cor, vamos mudá-lo, para mais justo e belo. Vamos tocar o Céu sempre que possível! Vamos impossivelmente, nós dois, reinventar-nos...


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Vida: estrada mais comprida...!


Vida: estrada mais comprida...!

Eu sabia o Amor de um jeito só meu... E nunca quis explicar pra você com clareza. Pus seis ou centenas de versos (não lembro...) aos seus pés e, assim, queria que entendesse, verso após verso, que neles eu dialogava com você.
Não te culpo por haver fugido - de susto ou de raiva, e pouco importa! - ao descobrir que eras meu cúmplice na arquitetura de um amor-crime-perfeito e, ao mesmo tempo, o alvo de tudo, o centro de tudo, a meta...
Deste modo, a palavra ausente era minha. A omissão, minha. E mais: o medo! Feito criança que esconde o óbvio, de minha palavra se fez um brincar de esconder tão mal-arranjado que o evidente tornou-se improvável.
Era de rir, se não fosse de chorar! Cabra-cega, esconde-esconde... a gente se perdeu. E eu fico, de cá, pensando que invencionice (infantil ou adulta) poderíamos inventar para re-compor o tempo e começar (de novo!) a contar aquela história que findou sem pé nem cabeça.
Contar de novo histórias e, desta vez, estrelas também...! João e Maria. Se você deixasse... Se você soubesse o quanto o tempo conta... Conta! E eu conto também: estradas, e sonhos, e luas, e lutas... mas nenhuma certeza mais certa, nem mais grande do que você.
Agora, me diga (verdade ou conseqüência?!?): você conheceu um jeito melhor de viver?
...Nem eu! Mas não me avexo... O tempo conta! Vai te contar...


(Novembro de 2006)

domingo, 28 de outubro de 2012

Não fosse a Luta, Companheiro...



Não fosse a Luta já
motivo o bastante
para que eu te acompanhasse...

Não fosse o Sonho
vivo o suficiente
para insistirem nossos passos
quando exaustos...

Não fosse o Povo
uma multidão onde,
rosto a rosto, nos reconhecemos
sedentos de Justiça...

Não fosse este pulsar
mais que a impressão ligeira
de paixões entontecidas,
feitas de procura e pó...

Não fosse a Vida
auto-explicativa no tudo
vivido e suado
de nossas cotidianas utopias...

Não fosse, então, a Utopia
justa medida
para fazer-nos grandes
ante nós mesmos e o Mundo...

Não fosse o Mundo
este convite infinito
à descoberta, à mudança,
ao Movimento incessante...

Não fosse a grandeza
segura e humilde
para permitir-nos a meninice
da teimosia e da emoção...

Não fosse a teimosia
de sermos e estarmos 
em marcha,
na História...

Não fosse a História
algo a ser mudado,
colorido com as cores
de nossas bandeiras...

Não fossem meninas as nossas mãos
a agitar tantas bandeiras
e a inspirar-nos o riso,
e a apontar-nos o que é preciso,
e o que é urgente...

Não fosse incontornável 
o desejo de fazer mais gente,
cada homem e cada mulher,
em cada canto e chão...

Não fosse o nosso chão
adorada morada,
não fosse o caminho em si
razão de seguir...

Não fosse...
Ah, não fosse o riso, meu e teu, 
alívio e alento na Luta
e a Justiça, companheiro,
ideia e ideal 
que nos move e comove...

Não fosse isto tudo já
motivo o suficiente,
para perder e encontrar a Vida,
para aprender e construir os sonhos...

Ainda assim, eu te sonharia!
Justo, como nossas causas;
forte, qual a convocação da Utopia;
íntegro, como a Manhã 
que (ainda) será,
mas já nos irradia!


Luciana Cavalcanti - Vitória de Santo Antão, Setembro de 2012: Primavera.

"Companheiro", Luciana Cavalcanti



Numa dessas manhãs,
a Revolução chegou mais cedo...
Eu abri a janela
e tive medo de não encontrar você.
Em que esquina haveria se perdido
meu sonho?
Em quantos desencontros,
desencantos,
se ofuscara a Utopia?
Mas eu olhava em teus olhos
e via Zapata, eu via Guevara,
Marcos, del Pueblo,
e via Sandino...
Olhava em teus olhos
e via um menino
re-inventando revoluções.
Em tuas (nossas!) bandeiras,
um Novo Mundo, eu via!
E invadia-nos os ouvidos
sirenes de alerta,
hinos de nova guerra,
mas como se fossem canções de Amor!


"Companheiro", Luciana Cavalcanti
Várzea do Capibaribe, Junho de 2003.

domingo, 21 de outubro de 2012

Utilidade Decrescente (?)


Uso e desuso.
O Amor sem Lei
nem rei.
O Amor por hábito
e obrigação.
Multiplicar/dividir...
(sub)trair x somar.
O Amor?
De Lei,
uso e desuso.


Imagem: Frase de Nelson Rodrigues.

Assim seja!


Rascunhos...



Abri o coração. Em tempos onde o desamor faz das injustiças o cotidiano e dos gestos generosos uma ingenuidade perigosa, é preciso se guardar!
Abri o coração, pois não saberia não fazê-lo...
Abri o coração porque sei, do amor, a gratuidade e não me atreveria a omitir a alegria de estar aqui... "continuando a viver o que me cabe".
Abri o coração com choro de alegria, riso incontido, palavras soltas e uma imensa vontade de dizer "eu te amo" porque aprendi que em cada momento de amor e de emoção verdadeiros confirmamos a força da Vida.
Abri o coração sem vaidades, nem peso, nem exigências... simplesmente por querer confessar que acredito em milagres.
Abri o coração para mostrar o amor, pulsante, impulsionando os meus novos passos de quem, conhecendo a dor, reconhece algo maior que torna a dor pequena - por imensa que seja...
Abri o coração para dizer da certeza de que a Vida não se fecha jamais... Nem mesmo na morte! A morte, talvez, seja uma porta constantemente aberta que adentramos tranquilos se tivermos experimentado que a força e a luz da Vida são tão grandes que é impossível que não atravesse conosco para o "lado de lá"!
Abri o coração! A força transformadora deste gesto, grandioso ante um Mundo frio, nos faz pequenos, simples, infantis...
Eis-me aprendendo tudo novamente!
Eis-me sabendo que não sei, e sem tentar esconder minha fragilidade nas assembléias de sábios...
Assim sou: pequena e aprendente.
Aqui estou: comovidamente me reencontrando nas coisas simples...


Luciana Cavalcanti: 06 de Abril de 2010

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

"Janelas" - Luciana Cavalcanti


Abri a janela, para que a luz entrasse...

Algo em mim disse ainda
que a luz era pouca.

Sai para as ruas, abrindo sorrisos
a quem quer que fosse...
e a luz, em mim, dizia que ainda
mais poderia mostrar-se.

Abri, para tanto, livros:
poesia, contos, rotas
de quem quer saber.

Soube. E abri caminhos.

Deixei que entrassem sonhos, ventos,
flores, dores, dúvidas...

Abri a janela. E é manhã!

Que com ela, eu me abra ao hoje
e ao que sou!

"Ninguém suporta o amor alheio"


NELSON RODRIGUES...

Re-leituras.


É bonito.


....Como diria Caymmi!

sábado, 15 de setembro de 2012

Seja como for...

E seja lá 
o que for
felicidade a gente encontre
sem precisar de ajuda.
E seja lá
onde for
o lugar exato a gente saiba
para ficar sem dor...
Porque, eu confesso,
mais de uma vez,
quase acreditei 
no amor.
Quase me fiei na sorte
e muito ri,
levando a sério 
aquela luz...
Mas já não me esconda nada,
não se esconda em nada
que eu parei comigo
e parei contigo,
eu calei meu peito
para dizer
que não há nada,
não será nada...
E, então, é tudo.
Sendo assim, vai bem:
Eu tomo outro café,
acendo (e esqueço) o cigarro
e já nem acredito
que eu te acreditei...

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Recife, 25 de Dezembro de 2006.