quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Rascunhos de Ano Novo - Luciana Cavalcanti



Vou confiar menos nesta gente que não sabe, 
não tem, um avô de quem sentir saudade.
Vou me dar menos a quem não conhece a graça
de perder tempo com tudo e com absolutamente nada!
Vou levar mais chuva - e gripar menos.
Vou cortar mais o cabelo, fazendo experiências...
E vou penteá-lo menos com os pentes e mais com as mãos...
Vou passar mais as mãos nos cabelos - já raros - 
de minha mãe.
Vou assistir mais futebol com o meu pai...
e discutir menos futebol com meu vizinho.
Vou ser feliz a partir da segunda-feira
e aumentar a dose na sexta!
Vou quebrar regras!
E vou quebrar a cara outra vez!
Vou me sentir mais jovem...
Vou fazer exercícios...
Vou mudar de humor 
e não admitir tristeza absoluta
nem em caso de enterro de parente próximo.
Vou sacudir a poeira.
Vou dar a volta por cima.
Mas nem me fale em emagrecer...!
Ando querendo volume
em certas partes da geografia do corpo
que nos fazem sentir mais brasileiras
e - por que não?! - gostosas.
Não vou acender um só cigarro...
Mas isto nem é promessa,
de Ano Novo, menos ainda!
Vou encontrar um novo Amor...
Talvez, no mesmo e velho Amor!
E vou fazer melhor, depois.
Vou catar poesia no lixo!
O Consumismo anda desperdiçando corações
que é um absurdo!
Vou aprender a falar uma nova língua...
Talvez, uma língua que nunca se embarace 
pra dizer "te amo".
Vou tomar cuidado. E menos café.
Não vou comprar um carro.
E vou andar ainda mais a pé!
Vou brigar com o jornal
ao invés de tentar entendê-lo
- que esta mania anda me envelhecendo.
Vou dizer mais bobagens e mais coisas sérias.
Vou escrever mais poesia.
Vou re-ler Neruda. Vou ouvir mais Vinícius.
Vou beber menos. E poupar mais!
Vou renovar todas estas promessas
no ano seguinte...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Ao Mestre com Carinho - Elisa Lucinda

Ao Mestre com Carinho

Escrevo com o coração e a razão concentrados em duas datas que não por acaso são comemoradas quase juntas. Hoje é dia dos professores e dia 12, das crianças. Ora, ora, professores, que se revezam nos papéis de pais e mestres, têm em suas mãos o futuro da humanidade. Parece determinismo de meu pensamento e radicalismo de uma opinião, mas acho que pode não ser. Todas as pessoas que conheço que passaram por alguma escola têm um depoimento amoroso em relação ao professor inesquecível e um odioso daquele que deixou traumas. Há a performance do mestre e o livro vivo como elo entre o aluno e a vida.Por inúmeras vezes escutei, ao longo de minha carreira: “Eu detestava poesia porque minha professora me obrigava a declamar sem entender nada do que eu dizia”; “Eu não suporto Geografia, e Matemática, e Física e Biologia, porque eu nunca entendi porque isso serviria para a minha vida”; “Nem me fale em análise sintática, só maluco para gostar de uma parada daquela, aliás, detesto Português.” Por enquanto deixemos de lado as inclinações e vamos nos fixar, por exemplo, no Português. Talvez o que faça alguém não gostar da própria língua e da análise de sua sintaxe seja o fato de não se ver incluído na história. Ora, se o sujeito é o dono da oração e o verbo senhor da ação o menino tem que entender que esse sujeito é ele. Foi ele que há muitos anos atrás inventou a palavra para que pudesse traduzir as coisas na ausência delas (das coisas) e para que pudesse expressar-se tendo diante de si um repertório que possa lhe servir na hora de se fazer compreender. Então às vezes quando vemos um adolescente ou mesmo um adulto afirmando que a namorada, o irmão, o colégio, a festa, a roupa são bacanas, não é que esse indivíduo ache exatamente a mesma coisa de todos esses elementos. Não. Muitas vezes trata-se apenas de um cidadão sem repertório de adjetivos; logo os adjetivos, meu Deus, os que dão qualidade às coisas! Uma pessoa abastecida deles diria sem medo: minha namorada é inteligente e gostosa, meu irmão é companheiro, meu colégio é divertido, a festa foi animada, a roupa estava moderna. Uma análise sintática explica que “chove” é uma oração e uma oração sem sujeito, e nos explica também o que é uma oração principal e suas orações subordinadas que são as filhas dela. Ninguém pode fazer isso sem entender. Advérbios de modos, advérbios de intensidade, objetos diretos e indiretos são assuntos que não se entende sem se entender o homem. Eu só posso escrever isso que escrevo agora sobre o tema porque passei pelas mãos de ótimos professores de português, a começar pelo meu pai, cuja palavra criativa e bem humorada deu fundamento ao que chamam hoje de minha literatura. Além do mais, meu pai usava a graça e o bom humor para nos explicar as coisas mais simples: “Poxa papai, nesse verão eu sôo tanto!”, ao que ele respondia: “Realmente eu escutei. “Então, eu nunca mais esqueci que soar é para sino e para som, e suar é o verbo correspondente aos suores. Aprendi rindo. Outra mãe de meu português foi a literatura, e em especial a poesia, preciosa dama nas mãos de quem fui parar com apenas onze anos e por causa de quem o mundo é para mim a reserva da inspiração. Minha professora de declamação, Maria Filina, de quem já falei aqui, me ensinou a entender as estorinhas das poesias, os conteúdos das palavras e entendendo a poesia eu estava também muito cedo começando a aprender o ser humano. Mais que gramática, mais que palavras bonitas e diversificadas, a poesia me ensinou muito do mundo e seus sentimentos. Interdisciplinar, essa arte contêm Geografia, História, Direitos humanos, Filosofia Economia, Física, Química e etc e tal. Me lembro quando, já adulta, cheguei a Lisboa, pela primeira vez e convidava meus amigos: Vamos ao Chiado, à Baixa, ao Rossio? Então, espantados, me diziam: mas você não disse que nunca esteve aqui?! Era verdade, mas era também mentira, pois eu tinha ido lá, quando ainda morava no Espírito Santo, pelo olhar de Fernando Pessoa. A leitura é a passagem mais barata do mundo, creiam-me. Clamo aos professores tão sacrificados, tão desvalorizados e tão importantes para o processo da civilização do mundo, clamo que ao educar o pequeno homem usem como objeto de estudo e método o pensamento poético da humanidade. Atenção preciosos educadores do mundo, atenção condutores da esperança, o livro vivo pode ser sua aliança com qualquer criança.

Tempo Vivo - Luciana Cavalcanti



Isto que a fotografia faz,
papel, tantas vezes trai
a memória.
Parece que o vivido
não é lâmina, cristalina,
ardente, luz dentro do peito...
Desgastado, o papel,
parece que a lâmina, saudade,
perdeu seu fio
e já nem corte,
e já nem dói...
que tanto tempo faz.
Armadilha de também de carta
antiga (guardada) apaga-nos
palavra sem nada,
fogo, água, traça...
e a gente fica tentando adivinhar
o que se quis dizer.
O que se quis dizer é a carta, em si,
ato de juntar palavra por palavra,
para dizer "amor",
para dizer "saudade"...
Aquele papel amarelado...
Aquele sorriso em preto-e-branco...
No entanto, a saudade é menina
e, sempre, escapole dentre estes papéis,
desarruma a sala,
faz bagunça no peito e fala:
memória de amor de verdade
só cresce com o embotado, 
o tempo, a insensibilidade 
da cega traça. E o Tempo
não rói fotografia e carta
de dentro... aquela imagem,
translúcida, do que foi
com a força e o viço do que-será...
Meu avô no meu peito, menino,
tem a cara do meu filho.

(Tempo Vivo, 23 de Novembro de 2011)

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Mordaça - Paulo César Pinheiro e Eduardo Gudin

Sugestão - Cecília Meireles

SUGESTÃO




Sede assim — qualquer coisa 
serena, isenta, fiel. 

Flor que se cumpre, 
sem pergunta. 

Onda que se esforça, 
por exercício desinteressado. 

Lua que envolve igualmente 
os noivos abraçados 
e os soldados já frios. 

Também como este ar da noite: 
sussurrante de silêncios, 
cheio de nascimentos e pétalas. 

Igual à pedra detida, 
sustentando seu demorado destino. 
E à nuvem, leve e bela, 
vivendo de nunca chegar a ser. 

À cigarra, queimando-se em música, 
ao camelo que mastiga sua longa solidão, 
ao pássaro que procura o fim do mundo, 
ao boi que vai com inocência para a morte. 

Sede assim qualquer coisa 
serena, isenta, fiel. 

Não como o resto dos homens. 


(Cecília Meireles)

Reminiscências e outras Essências - Luciana Cavalcanti





Perdoando todas as formas de ignoranças...
Perdoando as ausências que me remetem a mim.
E, então, me vejo criança,
brincando descalça escondido,
subindo em árvores e inventando
que o quintal é mundo-inteiro.

Neste cansaço, só me sobra sonhar Janeiro:
novenas, quermesses, começos...
bacamarteiros, procissões e salves,
Hino à São Sebastião.

Eu poderia, hoje, tomar cachaça,
mas que graça
teria eu me encontrar
tonta e adulta?
Prefiro carrossel para girar o Mundo,
prefiro este "eu", apesar de tudo.
Prefiro ainda a saúde de gritar.

De tudo o que aprendi ser incorreto,
a infelicidade é o erro mais besta
e, sincera e honestamente,
em memória daquela criança
que fui (e estou nascendo...),
é a única coisa que não vou perdoar...



15-11-2011, Luciana Cavalcanti: "Reminiscências e outras Essências"

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Aqui - Luciana Cavalcanti

Foto: Thiago Alex



Contigo, para as pontes,

para as portas,
para os portos,
para os poros,
para os partos...

Contigo, quando for noite,
quando for tarde,
ou cedo, mas sempre
pra se inventar um tempo
de não ter medo
e seguir...

Contigo, por hoje, por hora,
e por cada sonho
(que não demora)
em inventar amanhãs...

Contigo, pelos meus versos,
pelos meus risos
e pelos teus risos, mais.

Contigo, sim, talvez e não.
Contudo, sempre ainda mais:
abertos, as portas e os poros,
atentos, às pontes e portos,
prontos para manhãs
e amanhãs...
apertados os nós.

Luciana Cavalcanti
(Recife, Várzea do Capibaribe, 07 de Novembro de 2011)

#SomDaTarde: Erasmo Carlos - Apaixocólico Anônimo



O álbum, 2011, Sexo.

1. Kamasutra
2. Roupa suja
3. Amorticídio
4. Apaixocólico anônimo
5. Sentimento exposto
6. Seu homem mulher
7. Santas mulheres santas
8. Vênus e Marte
9. O rosto do Rei
10. E nem me disse adeus
11. Sexo e humor
12. Sexo é vida