quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Noturno (1) - Luciana Cavalcanti


Posso escrever-te um poema.
Posso esquecer-te um poema.
Posso um poema.
E posso esquecer-te.
Só não posso esquecer que,
sem ti e sem poemas,
parte dos sussuros
da madrugada, que declina,
serão incompreensíveis
a mim, 
como a qualquero outro
que calcula
as horas até a aurora
pelo testemunho do chão
dessilenciado pelo entregador de jornais...
E já antevejo as manchetes! Nada demais...!
Posso escrever-te um poema.
Posso esquecer-te um poema.
Posso esquecer-te
e me posso...
Mas, a estas horas,
a mim,
silenciar é delírio do sono,
ler é negar, ingenuamente, o que eu digo.
Recusarei os jornais
como quem recebe
e rasga sem ler
o telegrama de um distante amigo.

Certas Canções...

Noturno (2) - Luciana Cavalcanti


Inútil, como a quebra-de-braço
entre o si mesmo e o delírio,
este calar a paixão bem-vinda,
este negar o suor no rosto,
esta paz de quem já não foi...
Retarda
as horas que te separam do gozo,
os mundos que afastam tuas sombras
e recolhem, no passado, pedaços
e manchas indecifráveis de si.
Não sabe
do peso que assume quem
ousou ser leve
e que Ícaro, mais que alguém,
é um mundo interior,
equidistante entre o Foi e o Não-Foi.
Sonhar é coisa que se faz em voz alta,
de olhos abertos
e expressão pasmada...
Ser feliz, indiscutivelmente, é um espanto.

Fruição - Luciana Cavalcanti


Entrego-te algumas palavras nuas.
Estão aí para dizer o que são.
Não ensaiam,
não se aprumam,
nem passam por revisão.
Palavras soltas, que,
outrora cruéis,
não sabem senão desnudar-se
para dizer de sua vergonha.
Cada palavra é um espasmo,
um soluço,
um orgasmo.
Cada palavra é já
algo que eu não calculo.

Preces ao Futuro - Luciana Cavalcanti



Para o meu avô.

Nunca nos cansemos de dizer
das coisas mais belas e boas:
fruta colhida no quintal,
entardecer olhando o céu,
prosear de compadres na calçada,
novena e procissão
no interior. Gente simples
falando com Deus!

Nunca nos cansemos de dizer
dos amores mais fundos e certos:
cabelos brancos,
riso franco, voz cansada
carregando tanta ternura
que parece até que o tempo
multiplica a força do amor em mil,
cada dia...

Nunca nos cansemos de ser
como sonhamos ser quando crianças,
sábios e grandes
porque sabedores das coisas,
conhecedores do Mundo,
amigo das gentes, desde as influentes
às mais simples. E, todas, importantes!

Nunca nos cansemos de ter,
como mirante para olhar o Mundo,
uma despretensiosa cadeira na calçada
e a disposição de conversar e aprender.

Nunca nos cansemos de trabalho e riso,
de abençoar crianças,
de rir-se das brincadeiras desta meninada.

Nunca nos cansemos de sermos a força
do Amor com que asfaltamos nossa estrada...!

Dizeres - Luciana Cavalcanti



Despalavrear a emoção. 
De toque, silêncio, olhar e riso, 
dizer tudo o que há pra ser dito. 
E é grande a Vida. 
Grande, o Amor. 
E saber tudo isto, é paz também, 
e aquilo que o Mundo tem mais... 
de bonito!

Certas canções que ouço...

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

De Joelhos (Martha Medeiros)

Sentir-se amado.
O cara diz que te ama, então tá. Ele te ama. Sua mulher diz que te ama, então assunto encerrado. Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas. Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se. A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização, apesar de não sonharmos com outra coisa: se o cara beija, transa e diz que me ama, tenha a santa paciência, vou querer que ele faça pacto de sangue também? Pactos. Acho que é isso. Não de sangue nem de nada que se possa ver e tocar. É um pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois. Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você, caso você esteja delirando. "Não seja tão severa consigo mesma, relaxe um pouco. Vou te trazer um cálice de vinho". Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que você contou dois anos atrás, é vê-la tentar reconciliar você com seu pai, é ver como ela fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d´água. "Lembra que quando eu passei por isso você disse que eu estava dramatizando? Então, chegou sua vez de simplificar as coisas. Vem aqui, tira este sapato." Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido. Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta. Agora sente-se e escute: eu te amo não diz tudo.