terça-feira, 30 de agosto de 2011

Lembrete


Lembra aquele riso?
Relembrar, seria urgente,
que ele foi convite a ouvir-te,
a aprender-te e, depois,
querer-te
assim como quero ao sol em minhas manhãs,
assim como quero que o belo me assalte as retinas
e desrespeite a mesmice de dias sem cor, sem sal
e sem amor.

Lembra que beijamos, tantas vezes,
sentindo, antes, os dentes no riso aberto
e, então, abríamos os olhos para ver
a aproximação das bocas
e, nelas, das almas um pouco
porque o riso foi muito
do que nos fez nós...

Lembra?
Então, apenas sorri.
Sorri porque eu, poeta,
contadora de estrelas, histórias,
catadora de risos e mel,
sou mais gente,
sei mais a vida,
quando, em teus lábios,
o Amor me ri. 

Pois é...

 

Amor, de tarde (Mario Benedetti)

É uma lástima que não estejas comigo
quando olho o relógio e são quatro
e acabo a planilha e penso dez minutos
e estiro as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para afrouxar as costas
e dobro os dedos e lhes tiro mentiras.

É uma lástima que não estejas comigo
quando olho o relógio e são cinco
e sou um punho que calcula interesses
ou duas mãos que saltam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como late o telefone
ou um tipo que faz números e lhes tira verdades.

É uma lástima que não estejas comigo
quando olho o relógio e são seis
podias aproximar-te de surpresa
e dizer-me: Como vais? E ficaríamos
eu com a mancha vermelha de teus lábios
tu com a marca azul de meu carbono.

domingo, 28 de agosto de 2011

Cultivos...



Sabe? Este ofício de poeta? Descobrir nas sombras a possibilidade de trazer à luz um semeador de estrelas? Sabe este gesto, sempre inconcluso, sempre delicado apesar de visceral de sentir fundo? E, sobretudo, de sentir em tudo? Não é fácil lida. Como não é fácil a vida quando se a deseja Vida. Porque uma coisa é ter corpo vivo, ser vivente, outra coisa, delicadíssima coisa, é fazer-se gente.

Cultivos...




Delicadeza e profundidade dão um imenso trabalho.
Sabe? Cultivar sorrisos, cuidar de corações, abrir canto a canto a Vida para, depois, dividi-la, exige atenção de agricultor. Porque é preciso cuidar da alegria e do amor mesmo quando o tempo não é bom.

Entre aqui e lá. E ainda além...


Por cima do abismo
estende-se minha alma
tensa como um cabo
onde me equilibro,eu, malabarista de palavras.

(MAIAKÓVSKI)



Difícil contornar a memória poética a fim de livrar-se desta imagem, para construir uma outra, minha. Maiakóvski alcançou uma imagem forte, apaixonada, verdadeira... nos parece inútil buscar outra. Existir é como  lançar-se ao arriscado número do equilibrista. Mas não sobre o picadeiro, sobre colchão, cama ou tela de proteção... é o equilibrista no exercício da paixão de caminhar sobre um cabo como se chão firme fosse, sobre o abismo.
Há gente que se distrai com compromissos, aluguéis, retiros, teses, tédios, agendas... e se acredita equilibrado por cumprir tudo com compulsivo rigor. Eu, me esqueço de mim, e, crendo na vida que estou vivendo como a minha única chance, não a isento da paixão.
Gosto do cabo, meu chão firme e ponte, mas gosto imensamente do abismo. É ele quem me diz dos passos a calcular, da respiração, da concentração. O abismo me diz do esforço e me convida a ser eu e, ao mesmo tempo, me vencer. O abismo me derruba apenas quando tenho medo dele, ao contrário do cabo que pode trair meu treino, frieza e destreza ao deixar-se seduzir pela dança do vento.
Malabarista de palavras, invejo outros de seus convivas. Invejo almoxarifes de palavras, carimbadores de palavras, empacotadores, limpadores, fiscais de palavras e intelectuais. Toda esta gente que crê que palavra é coisa para dizer significado. E só. Acontece que a palavra pulsa. E teima. E viça. A palavra se bole... E você, ali, pateticamente cuidando em fazer arte com algo imprevisível. Palavra é amante que não se dá com facilidade. Cortejada, a palavra fica toda prosa... Mas gosto mesmo é quando a palavra, enlouquecida de Amor, quer ser só Poesia.
E, então, ainda é maior o desafio do equilibrista, com malabares de fogo-palavra por sobre o abismo... A Poesia é o atrevimento de uma acrobacia em pleno percurso, desdenhando do cabo, excitando o abismo. Eis-me aqui! A alma, insegura, não crê que o salto ajude... mas olho o cabo e ele se parece um pouco com minh'alma, enlaço os dois por sobre o abismo e me vou, certa de que a paixão deste encontro me faz ser quem sou.