terça-feira, 26 de julho de 2011

O Amor, em seus encontros, intraduzível.

Intradução

por Luciana Cavalcanti 


Porque a cada instante
eu te amo,
E a cada afago, a cada riso teu
Com um amor impreciso, relutante,
Amor intraduzível,
impossível de medir-se.
E porque amo com medo do que me trazes
E necessito do medo de perder-te,
E te procuro como quem foge,
E te aguardo como quem dorme...
Até mesmo por rir do absurdo
Encontro de vidas-sonhos em nada (nada?) iguais,
Sei que jamais o poema falará de algum amor
Com fidelidade e exatidão,
como se fosse tradução.


Em 2009, encontrei-o, catando coisas num Cd antigo de Backup, daquilo que eu havia escrito num Pentiun II que foi meu primeiro PC (acho que era um Pentiun II...). O poema deve ter uns 12 ou 13 anos de idade. Mas cabe... E o Tempo segue rindo de nós! 

sábado, 23 de julho de 2011

A visão de um anjo de costas - Ângelo Monteiro


Não é por mero protesto



nossos cabelos nos ombros:


somos bem pouco terrestres,


somos mais venusianos.

Escondem asas secretas


estes cabelos que usamos:


como todos os estetas


as coisas prefiguramos.


De modo que as imagens


das vossas alegorias


são bem pouco, comparadas


com a nossa telepatia


e o nosso poder de usar


só as palavras supremas:


não somente as necessárias,


mas aquelas que o homem teme.


O resto comunicamos


por meio dos nossos olhos:


em nós, poços de energia,


em vós, poças de silêncio.


Nem contempleis nossos ombros:


cabelos vertiginosos


e tênues, como os abismos,


perturbarão vosso sono.

Por aí... - Tadeu Rocha

O COLECIONADOR DO IMPOSSÍVEL



Para os amigos Abimael Lages e Carlos Maia










A vegetação não era rica, devastada pelas queimadas por parte de uns pequenos agricultores de subsistência e, também, pelo desmatamento clandestino – bastante comum naquela região.


A estrada não pavimentada, há pouco coberta pela noite, recebia agora toda a luminosidade daquele sol nordestino. Felipe, dirigindo a caminhonete, pensava agora no Ancião. Estaria ele vivo? Esperava que sim. Aquele velho de estranhas manias, significava muito para ele.


Os pensamentos de Felipe desviaram-se para o motivo que o trazia mais uma vez a sua cidade natal. Seus pais morreram há vinte anos, em uma data não muito comum em nossos calendários: 29 de fevereiro. E era somente no ano bissexto, precisamente nesta data, que ele regressava para subir o cruzeiro, e viver um momento de dor, reflexão e flores.


Os pneus da caminhonete tocavam finalmente o asfalto da cidade. Seus olhos já deveriam ter contemplado alguém. Em vez disso, surgiam a sua frente ruas vazias; casas desprovidas de qualquer sinal de vida. Não pôde evitar o pensamento: “ Será que todos subiram pela última vez o cruzeiro; corpos adormecidos sob a terra, porém ao mesmo tempo tão próximos do céu”?


Mal acabara de concluir seu devaneio, seus olhos vislumbraram uma figura conhecida. Expeliu toda tensão em um imenso sorriso, ao mesmo tempo em que acionou a buzinado carro. O vulto a sua frente dirigiu-lhe o olhar. O mesmo olhar de uma força que chegava a incomodar; a mesma força que, somada a de seu avô, ajudou a construir aquela cidade. Homem de grande sabedoria, velho de estranhas manias. A mais conhecida era a de distribuir apelidos. Todos na cidade foram batizados pelo velho, que nem a si próprio deixou escapar, denominando-se Ancião. E era por este nome, que Felipe o trataria:


- Onde está todo mundo? O que aconteceu Ancião?


- Eu estava esperando por você Bissexto. Quanto aos outros, estão logo adiante, despedindo-se do Colecionador.


Naquele instante Felipe revirou os arquivos de sua memória. Não conhecia ninguém daquele lugar que houvesse sido batizado pelo Ancião com aquele nome. Sabia que o homem a sua frente se divertia com sua surpresa e curiosidade. Também sabia que o mesmo só revelaria alguma coisa se fosse indagado. Estranho toda a cidade se reunir para despedir-se de uma única pessoa.


-Esta bem! Está bem!! Quem é esse Colecionador?


-Trata-se de um missionário. Chegou logo após a sua última visita. Ele coleciona o impossível.


- O senhor poderia ser mais claro?


- Em um de seus sermões, o missionário afirmou que para Deus nada é impossível. E para o homem? Bem sabemos que o ser humano possui suas limitações. Há pessoas que você não precisa conhecer por muito tempo para saber que elas jamais conseguiriam ser de outra maneira. Para elas a mudança é impossível. Assim como as folhas secas deitadas sobre a margem não acompanham o ciclo das águas, muitas dessas pessoas não acompanham o desenvolvimento da sociedade.


Contudo nem todo aquele que precisa mudar e não muda é filho do desequilíbrio social. Lembra-se do Dr. Ateu? Claro que se lembra! Agora ele não merece mais esse vulgo. Preciso arrumar outro. Tarefa extremamente difícil para mim. A velhice possui essa desvantagem: afeta nosso poder criativo. Do que eu estava falando? Sim...o Dr. Ex Ateu ou ex Dr. Ateu, não importa, agora faz parte da nova igreja. Todos fazem! Quantos nomes a serem mudados!! Imagine, logo o Dr...


Como vê o missionário têm predileção por casos perdidos. O Dr liderou a oposição ao trabalho do Colecionador. Eu próprio, contribui com várias sugestões. Hoje ele faz parte de uma coleção. Uma verdadeira galeria de casos impossíveis. Lembro-me da última conversa que tive com o ex Ateu. Não esqueço suas palavras:


- “Jesus Cristo substituiu a chama das minhas angústias pelo sol da salvação, cujos raios de felicidade atravessaram as barreiras da minha epiderme, invadindo veias... sangue novo a correr, desaguando vida em um coração, agora, rejuvenescido”.


Poético sem dúvida. Também profundo. Não nego. Quanto a mim, estou me dirigindo ao último sermão. Felipe boquiaberto escutara atento o relato do Ancião. Misturavam-se agora a grande multidão. As prostitutas de outrora, pareciam verdadeiras damas. Barril estava esquisito sem a garrafa de pinga; barba feita ; vestido de terno e gravata. E o responsável por tudo aquilo, seguia firme em sua pregação. Um simples amém deu por encerrada a oratória.


E Felipe não acreditou quando a mão do velho Bartolomeu atendeu ao convite do missionário, que imediatamente dirigiu-se ao seu encontro. Lágrimas! Sorrisos! Um grande sorriso. Sorriso infantil. O Colecionador pareceu, aos olhos de Felipe, um menino ao conseguir a peça mais valiosa de sua coleção. Não pôde deixar de compartilhar do seu sorriso. Havia no ar muitas emoções que precisavam ser destiladas. Felipe consultou o relógio, ciente de que o cruzeiro haveria de esperar mais um pouco.






Tadeu Rocha



PS1: O que mais me preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem-caráter, nem dos sem-ética. O que mais me preocupa é o silêncio dos bons. (Martin Luther King)


PS2: Martin Luther King era um Colecionador do Impossível.

Nas estantes. Nos botecos...

Canto

Mesmo sabendo que existem

Rimas passando fome

E versos sem casa para morar

Ainda assim eu canto

E canto como o solitário condor

Porque sei que um dia

Haverei de ver demolido o muro

Que se ergueu com a minha dor



Canto

Mesmo vendo um quadro negro no espelho

E um coração desenhado no peito

Com uma porta aberta para a saudade



Canto

Mesmo sentindo na boca

O gosto amargo que trago

Porque é neste canto

Que crio e formo

Este mundo louco, consciente

De poeta, de maluco impertinente

Que tanto canto sozinho

Como na multidão, no entanto encanto

Que no brilho ou no opaco deixo semente



Canto

E este canto alegre

Esconde este trapo

Porque é neste canto

Que eu sei que há em algum lugar

Num solitário canto

Um sabiá, um rouxinol

A murmurar também seu pranto



Canto

E este canto de guerra

Me ensina a viver em paz

Porque é neste canto

Que disfarço e encanto

E fujo do pranto

Por este ser acalanto


Para ler mais, visite o Blog de Aldo Lins

domingo, 10 de julho de 2011

Casa aberta, alma...

Resposta-pronta - Luciana Cavalcanti


Me pergunte o que é o amor
e o que tenho a mostrar é um sorriso
de um canto a outro da boca,
esta completa ignorância da tristeza,
essa familiaridade com a beleza,
esta espera que se sabe esperança,
esta vontade que se sabe semente.
Me pergunte o que é o amor
e eu te digo: o amor é isto tudo
o que aconteceu conosco e a gente sente,
este estar longe, mas presente,
esta esperança que encanta as manhãs,
este cheiro de vida invadindo as narinas,
esta luz multicor tocando as retinas,
este passo dado, à frente, rumo ao infinito.
Me pergunte como é o amor, eu digo:
é bonito, bonito, bonito...
E se confunde com a vida.
E cabe bem em nós dois...



 

Intuição - Oswaldo Montenegro

utilidade marginal decrescente - Luciana Cavalcanti

[utilidade marginal decrescente]



Há nas Ciências Econômicas uma lei,
de oferta e de procura,
segundo a qual
aquilo que não é escasso
é desprovido
gradualmente
de valor...

Talvez, por isso, tão facilmente,eu sempre encontre gentepronta
a fazer sem valor
a largueza de sentidos que se ofertamprodiga e profundamentecomo se os recursos(de mim)desconhecessem a escassez...