terça-feira, 21 de junho de 2011

Oração - Miguel Torga

"Oração"


Anjo da guarda, corta as tuas asas,
Esses galões de pano,
Se queres, humano,
Ajudar-me.
Minha mãe a gerar-me

Nu,
E o céu a mandar-me
Um cisne falso como tu!

Nesta terrena dor,
Desesperado,
Pedi um braço quente e pecador.
Não quero cá ninguém santificado!

Limpa o verniz da cara, tira o lenço
E enxuga-me estas lágrimas de lama.
Deus é imenso,
Mas nem eu lhe pertenço,
Nem é por ele que a minha angústia chama.



Miguel Torga in "Poesia Completa", Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2000, p 309.

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segunda-feira, 20 de junho de 2011

Todas as cartas de amor são ridículas... - Fernando Pessoa

Todas as cartas de amor são

Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.


Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.


As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.


Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.


Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.


A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.



(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)




Álvaro de Campos, 21-10-1935

domingo, 12 de junho de 2011

Antes que o Dia termine...


Coisas de marketing. De Mercado. Uma criação publicitária, meramente, para aquecer o comércio em um período de baixas vendas... Por aí vão os argumentos...! Como no Natal. Como no Dia das Mães, Dia dos Pais... E a gente, se defende, diz que não vai submeter o Amor à Publicidade.
Acontece que tenho verificado a hipótese de que os publicitários não haveriam inventado coisa alguma e, apenas, passaram a utilizar, mediante seus objetivos, hábitos humanos tão velhos quanto a nossa percepção da irreversibilidade de nossa condição relacional: os ritos que, coletivizando, restauram, renovam e consolidam no indivíduo seus valores.
Ok, ok... tergivesso. Dei de intelectualizar a paixão. Dei de racionalizar até as vontades irresistíveis de comprar aquela "bolsa azul" que preciso muito...! Talvez...
Mas, vamos lá... Não é absolutamente maravilhoso que, pelo menos uma vez por ano, você possa sair por aí desejando felicidade a todo mundo sem que ninguém te ache doido?!? O Ano Novo serve pra isto...! Não é gostoso poder cantar na rua, vestir-se esquisito, brincar com quem você nunca viu na vida, como se a alegria se espalhasse por decreto quando é Carnaval?
Ademais, toda a sua vida está na agenda e nem vem me dizer que você lembra sozinha/o da consulta oftalmológica, ginecológica, do prazo de entrega dos relatórios, do aniversário de seus amigos, parentes...
Neste caso, até que serve pra alguma coisa que alguém tenha inventado que há um dia, somente um dia, para que você ceda àquela vontade de ser meloso, quase piegas, de pedir um mimo, de fazer mais mimo e de saber, sobretudo, que este teu amolecimento está sendo compartilhado...! O bom do rito é a partilha.
É bom quando uma cidade inteira para pra ver e torcer por um time (êita, Recife vermelho-e-preto da Copa do Brasil de 2008!), é bom quando um número significativo de pessoas reza, pensa, sente, na mesma vibração, na mesma hora... é bom que a Humanidade diga, nem que seja por meio de Propaganda, das coisas mais bonitas e mais fundas que nos fazem gente. E se isto vai render lucros ao comércio, que o seja! É o preço a pagar por sermos apressados, descuidados, pelo ano inteiro... É o preço a pagar por termos desaprendido cuidar do desejo, cuidar da manha, da preguiça, da risada, da cachaça... aí, a gente fica assim, carecendo que alguém invente data pra gente lembrar de ser feliz.
Ah, tá... mas eu não tenho esquecido. Hoje, foi só o reforço! E é impressionante como ser feliz, assim, não acostuma: é sempre novo, é sempre bom... e é tão simples! Simples como marcar qualquer coisa no calendário. 


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Em tempo: O Romantismo exacerbado da imagem foi proposital...! ¬¬

Todo Mundo de repente ficou lindo...

Aos Namorados do Brasil - Carlos Drummond de Andrade


Dai-me, Senhor, assistência técnica

para eu falar aos namorados do Brasil.

Será que namorado algum escuta alguém?

Adianta falar a namorados?

E será que tenho coisas a dizer-lhes

que eles não saibam, eles que transformam

a sabedoria universal em divino esquecimento?

Adianta-lhes, Senhor, saber alguma coisa,

quando perdem os olhos

para toda paisagem ,

perdem os ouvidos

para toda melodia

e só vêem, só escutam

melodia e paisagem de sua própria fabricação?



Cegos, surdos, mudos - felizes! - são os namorados

enquanto namorados. Antes, depois

são gente como a gente, no pedestre dia-a-dia.

Mas quem foi namorado sabe que outra vez

voltará à sublime invalidez

que é signo de perfeição interior.

Namorado é o ser fora do tempo,

fora de obrigação e CPF,

ISS, IFP, PASEP,INPS.



Os códigos, desarmados, retrocedem

de sua porta, as multas envergonham-se

de alvejá-lo, as guerras, os tratados

internacionais encolhem o rabo

diante dele, em volta dele. O tempo,

afiando sem pausa a sua foice,

espera que o namorado desnamore

para sempre.

Mas nascem todo dia namorados

novos, renovados, inovantes,

e ninguém ganha ou perde essa batalha.



Pois namorar é destino dos humanos,

destino que regula

nossa dor, nossa doação, nosso inferno gozoso.

E quem vive, atenção:

cumpra sua obrigação de namorar,

sob pena de viver apenas na aparência.

De ser o seu cadáver itinerante.

De não ser. De estar, e nem estar.



O problema, Senhor, é como aprender, como exercer

a arte de namorar, que audiovisual nenhum ensina,

e vai além de toda universidade.

Quem aprendeu não ensina. Quem ensina não sabe.

E o namorado só aprende, sem sentir que aprendeu,

por obra e graça de sua namorada.



A mulher antes e depois da Bíblia

é pois enciclopédia natural

ciência infusa, inconciente, infensa a testes,

fulgurante no simples manifestar-se, chegado o momento.

Há que aprender com as mulheres

as finezas finíssimas do namoro.

O homem nasce ignorante, vive ignorante, às vezes morre

três vezes ignorante de seu coração

e da maneira de usá-lo.



Só a mulher (como explicar?)

entende certas coisas

que não são para entender. São para aspirar

como essência, ou nem assim. Elas aspiram

o segredo do mundo.



Há homens que se cansam depressa de namorar,

outros que são infiéis à namorada.

Pobre de quem não aprendeu direito,

ai de quem nunca estará maduro para aprender,

triste de quem não merecia, não merece namorar.



Pois namorar não é só juntar duas atrações

no velho estilo ou no moderno estilo,

com arrepios, murmúrios, silêncios,

caminhadas, jantares, gravações,

fins-de-semana, o carro à toda ou a 80,

lancha, piscina, dia-dos-namorados,

foto colorida, filme adoidado,

rápido motel onde os espelhos

não guardam beijo e alma de ninguém.



Namorar é o sentido absoluto

que se esconde no gesto muito simples,

não intencional, nunca previsto,

e dá ao gesto a cor do amanhecer,

para ficar durando, perdurando,

som de cristal na concha

ou no infinito.



Namorar é além do beijo e da sintaxe,

não depende de estado ou condição.

Ser duplicado, ser complexo,

que em si mesmo se mira e se desdobra,

o namorado, a namorada

não são aquelas mesmas criaturas

que cruzamos na rua.

São outras, são estrelas remotíssimas,

fora de qualquer sistema ou situação.

A limitação terrestre, que os persegue,

tenta cobrar (inveja)

o terrível imposto de passagem:

"Depressa! Corre! Vai acabar! Vai fenecer!

Vai corromper-se tudo em flor esmigalhada

na sola dos sapatos..."

Ou senão:

"Desiste! Foge! Esquece!"

E os fracos esquecem. Os tímidos desistem.

Fogem os covardes.

Que importa? A cada hora nascem

outros namorados para a novidade

da antiga experiência.

E inauguram cada manhã

(namoramor)

o velho, velho mundo renovado.




























































































































































































































terça-feira, 7 de junho de 2011

Este é o Tempo da Delicadeza...

Utilidade decrescente (?)

Uso e desuso.
O Amor sem Lei
nem rei.
O Amor por hábito
e obrigação.
Multiplicar/dividir...
(sub)trair x somar.
O Amor?
De Lei,
uso e desuso.

#TodoAmorQueHouverNessaVida

Renovação - Luciana Cavalcanti


Renovação




Quanto amor
esparramado no sofá,
espalhado nas gavetas,
solto entre os discos,
acumulado na pia
e misturado à louça suja...


Quanto amor
impresso em camiseta,
sorrindo nos outdoors,
anunciado nos classificados
sem preço de venda – é uma troca.


Quanto amor nas esquinas,
na padaria, na praça,
no ponto de ônibus,
na vídeo-locadora...


Tanto amor que até cansa.
E, então, cansada, adormeço.
Adormecida, te sonho...
Sonhando-te, amo de jeito novo,
Sem ensaio nem rito,
De um jeito natural e bonito,
Assim como viemos ao Mundo!

 
#TodoAmorQueHouverNessaVida