segunda-feira, 30 de maio de 2011

O sentido - Luciana Cavalcanti



E todo amor precisa ser sabido,
precisa ser vivido,
precisa ser lido
nas entrelinhas de nossas histórias,
nas lições aprendidas das páginas viradas,
nos suspiros dialogantes das madrugadas,
nos versos de cada poema.


Para que valha a pena,
cada amor precisa ser mantido,
precisa ser querido,
precisa, realmente, haver nascido
para reescrever boas histórias,
para preencher páginas com poesia,
para acender, com calor, cada dia
para os versos de um poema-vida!


Recife, Várzea do Capibaribe. 
Poema-de-Hora, agora, madrugada de 30 de Maio de 2011.

domingo, 29 de maio de 2011

No "Bolero de Jessier", encontro as palavras que nem sei...


É um nó dado por são pedro
E arrochado por são cosme e damião
É uma paixão, é tentação, é um repente
Igual ao quente do miolo do vulcão
Quer ver o bom?
É o aguado quando leva açúcar
É ter a cuca, açucarado num beijo roubado
É um pecado confessado, compadre sereno
Levar sereno no terreiro bem enluarado
É pinicado do chuvisco no chão, pinicando
Ficar bestando com o inverno bem arrelampado
É o recado do cabocla num beijo mandando
"tá namorando a cabocla do recado"
Quer ver desejo?
É o desejo tando desejando
A lua olhando esse amor na brecha do telhado
É rodeado do peru peruando a perua
É canarim, é galeguim, é cantando o canário
Zé do rosário bolerando com dona isabel
Dona isabel embolerando com zé do rosário
Imaginário de paixão voraz e proibida
Escapulida, proibida pro imaginário
Quer ver cenário?
É o vermelho da aurodidade
É a claridade amarelada do amanhecer
É ver correr um aguaceiro pelo rio abaixo
É ver um cacho de banana amadurecer
Anoitecer vendo o gelo do branco da lua
A pele nua com a lua a resplandecer
É ver nascer um desejo com a invernia
É a harmonia que o inverno faz nascer

["Bolero de Isabel", Jessier Quirino]

Canção pra dizer do Amor...

Quando o Amor não é quebra galho...

terça-feira, 24 de maio de 2011

E o mundo não se acabou [Carmen Miranda]

Dizem que a dor ensina...

LIÇÕES DE PORRADA
(11.03.2010)
por causa de um certo domingo de Carnaval e a partir dele...

I - O Amor é uma opção sua. Ninguém (nem mesmo a pessoa amada) tem necessário comprometimento com isto!
II - Se você não se queixar dos seus sofrimentos certamente não sofrerá menos, mas diminuirá as queixas em relação a você de quem estiver por perto, aumentando as chances de não ficar só...
III - Rir pode até não ser o melhor remédio... mas nada comprova que choro ou resmungos potencialize os efeitos de analgésicos e anti-inflamatórios.
IV - Não fazer absolutamente nada é o tipo de decisão que só quem sempre esteve com o corpo são tomaria por mais que três dias seguidos.
V - Dormir dá um imenso sono.
VI - Dor de dente até que é administrável... 
VII - Nunca mais reclamo de dor de cotovelo. Seu tratamento me permite ir ao bar - ou até o exige!
VIII - Seus risos são caros a qualquer um que não esteja de mal com a Vida, mas seu choro (definitivamente) só é encarado por seus amigos.
IX - Felicidade e satisfação são coisas absolutamente diferentes.
X - Prazer não necessariamente gera alegria.
XI - Para infelicidade da cerveja e do uísque, descobri que o melhor dos bares são os meus amigos.
XII - Um estranho ou mesmo um desafeto dividirá a conta do bar contigo, mas somente amigos dividem a conta da farmácia.
XIII - O medo do sofrimento talvez seja o maior e mais desumanizante sofrimento.
XIV - Não pode criticar o padrão Globo de existência quem se furta a visitar amigos doentes, foge aos deprimidos e só frequentará o próprio enterro... este também tem vida de plástico e, por mais verniz filosófico que gaste, vive a estética de shopping center.
XV - A morte de um ateu ser-lhe-á menos dramática do que uma longa e desgastante enfermidade.
XVI - Transcendência é o que lhe resta quando você não pode decidir levantar para beber um copo d'água...
XVII - Se a fé não salva pelo menos o humor e a serenidade que ela traz não precisam de química externa.
XVIII - Confesso uma imensa vaidade em relação ao meu corpo: ele possui uma admirável capacidade de regeneração!
XIX - O desespero, de fato, piora qualquer situação. Ter esperança é um ato de Razão.
XX - O Amor estende sua existência conectando-a a outras. Amar é o começo da infinitude...

domingo, 22 de maio de 2011

Dual - Alberto da Cunha Mello




Epígrafe um

portanto meus irmãos, temos uma obrigação, que é a de não viver de acordo com a nossa natureza humana”. (Romanos, 8.12).

Epígrafe dois

“O homem que quisesse viver em sabedoria e paz deveria adaptar-se à augusta ordem dos fenômenos da natureza e viver na natureza com a natureza”.  (Lao-Tsé)


MORTO PELA SEGURANÇA

a hemorragia interna,
que enverniza por dentro,
inferniza por dentro
a palavra estado;
e pela insegurança
de comprar na esquina,
a estas horas da noite,
uma ampola de coramina;


MORTO POR ESPARTA

enquanto os negócios prosperam
e a terra enche-se de estranhos;
e por Atenas
a cometer o engano
de cantar tão longe
de seus arsenais;


MORTO PELO OCIDENTE

onde pôneis e jatos
só nos tomos da lei
conseguem chegar juntos
ao Banco Mundial;
e, pelo Oriente,
onde os bancos já chegaram;


MORTO PELO MUITO

o mais, o mosto,
o gás de uma montanha
de laranjas apodrecidas;
e pelo pouco,
o bago disputado
em soluços nos calabouços;
        

MORTO PELA PAZ

um branca de merda
com seus sete canhões
apontando meus laranjais;
e pela guerra que,
para destruir-nos,
não precisa estourar mais;


MORTO PELA TRISTEZA

esse modo de as margaridas
me pedirem socorro;
e pela alegria,
tão fora-da-lei:
camponesa na sala
do General-Comandante;


MORTO PELO TEMPORAL

ou seja:  o “se Deus quiser”,
o “volto amanhã”,
o “cuide dos meninos”;
e pelo eterno,
que não data as cartas,
atravessa ileso as eleições de
                                           novembro
e não toma conhaques contra o
                                             inverno;


MORTO PELA UNIDADE

que reúne
todos os alvos em um céu
e dá precisão ao meu tiro;
e pela multiplicidade,
que me parte em pedaços
fáceis de controlar
pelos deuses descalços;


MORTO PELO ESPÍRITO

mero gás que retorna
à garrafa de coca
e procura explodi-la;
e, pela matéria,
tão órfã de síntese
quanto as moças de vinte
depilando seus pêlos
nos subúrbios da ordem;


MORTO PELO RACIONAL

sob as medalhas dos técnicos
e as migalhas do povo;
e pelo intuitivo,
o imediato
e ingente sentir
não digital;


MORTO PELO SONHO

essa floresta afogada
nas folhas caídas;
e pela realidade,
onde os enfermos estouram
os tumores do visitantes;


MORTO PELO NECESSÁRIO

a condenação à luz
que enlouquece uma estrela;
e pelo acaso,
o tropeçar nos alarmes
e o esmagar as rãs
que circundam o cárcere;

       
MORTO PELO MAL

algo parecido
com carne liberada
ou Santa Tereza anunciando
maiôs Poésie na TV;
e, pelo bem,
algo mais metafísico,
mais Jesus de prata
escondido na blusa.


MORTO PELO LAR

que desaba todo dia
sem ninguém escutar;
e pelo bar,
onde o heroísmo se condensa
num laudo rotineiro
da polícia, ao passar;


MORTO PELA FÊMEA

que me pede um jantar
e uma boa lembrança
e talvez peça muito;
e, pela outra
que me pede a eternidade
e talvez peça nada;


MORTO PELA HONRA

quando as fezes dos pobres
ameaçam o fulgor
do brasão tumular;
e pela desonra
dos que mudam tarde,
quando os linchadores
ávidos não sabem
por onde começar;


MORTO PELA SOBRIEDADE

este assistir a seco
à própria extinção;
e pela embriaguez,
este banhar-se à noite
em doce uréia
ou receber sob o lençol
o coice de medeia;


MORTO PELA FALA

escada que sai da boca
e deixa subir os demônios;
e pelo silêncio,
inseticida queimando
no fundo do quarto
para afastar um remorso;

        
MORTO PELA NORMA

abutre que aqueço
à temperatura do corpo;
e pelo instinto,
bomba de efeito retardado
sob o monte antigo
de brinquedos de barro;


MORTO PELA VIRTUDE

essa tanga de velha
e desgastada platina;
e pelo pecado,
a notícia da única
e inexplicável
humildade de Deus;


MORTO PELO ÉTICO

mais Ártico pelos ursos
mais Antárticos
e pelo estético dos cursos
majestáticos;

                

MORTO PELOS MORTOS. 
Entrei na revoada dos poetas por uma espécie de determinismo cultural. Meu pai, Benedito Cunha Melo, era algo como um decano dos poetas de Jaboatão-PE. Corriam para ele os candidatos a poeta, com seus sonetos imberbes. Ouvia, sem querer - e às vezes querendo - o velho a ler para os amigos na sala a obra de Cruz e Souza, sua maior admiração brasileira. Ouvia-o declamando sozinho, em voz alta, o "Navio Negreiro" de Castro Alves. Depois, no colégio, lá estava eu enturmado com colegas que gostavam de literatura. Fui, de certa forma, amamentado pela poesia, sugando esse leite envenenado pela angústia do infinito.

Alberto da Cunha Melo 
(em entrevista ao jornal O Galo - Natal - RN - Janeiro/2000)

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Hai-quases... - por Luciana Cavalcanti


desequilíbrio

tanto e tão pouco.
a vida, sem medida,
deixa a gente louco...


paradoxo

este jeito de viver sempre
com pressa (inevitavelmente)
torna a vida breve-breve...

Mordaça - Paulo César Pinheiro e Eduardo Gudin

Se não te cuidares... Cuidado!!


CAUTELA (Paulo César Pinheiro)


Se não te cuidares o corpo
Cuida teu espírito torto
Que teu corpo jaz perfeito

Se não te cuidares o peito
Cuida teu olho absurdo
Que teu peito tomba morto
Diante de tudo

Se não te cuidares, cuidado
Com as armadilhas do ar
Qualquer solto som pode dar tudo errado

sábado, 14 de maio de 2011

Dá-lhe, Leminski!!

[É tudo o que sinto] (Paulo Leminski)



Inverno

É tudo o que sinto

Viver

É sucinto

Eu, por mim.

  Auto-retrato (?)

Crédito no Banco
e vergonha na cara
são, nesta ordem,
as duas coisas que menos tenho...
O resto, de tudo,
eu invento:
pego arrêgo,
furto,
tomo de empréstimo,
finjo bem,
faço a pala...
Minhas mentiras, às vezes, me dizem.
No espelho, nenhuma delas se cala.


Luciana Cavalcanti - Janeiro de 2007.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Só eu sei...

 
 
Um amor que me foge
ao habitual repertório.
Amor, dia-a-dia,
que se ri e faz crescer
sem ceder
à mesmice,
às exigências
de nossas carências
e contingências...
Este amor, livre,
entende-se sendo
ele mesmo o amor,
amor, sim, em que a gente crê,
como diria o poeta:
o que chegou para dar
o que ninguém deu pra você...

"Amor-livre - I": um poema de hora.
 

Juntos...


Nenhum homem entende a mulher, nenhuma mulher entende o homem, e essa é a beleza de estarem juntos. 
(Osho)