quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Ao Mestre com Carinho - Elisa Lucinda

Ao Mestre com Carinho

Escrevo com o coração e a razão concentrados em duas datas que não por acaso são comemoradas quase juntas. Hoje é dia dos professores e dia 12, das crianças. Ora, ora, professores, que se revezam nos papéis de pais e mestres, têm em suas mãos o futuro da humanidade. Parece determinismo de meu pensamento e radicalismo de uma opinião, mas acho que pode não ser. Todas as pessoas que conheço que passaram por alguma escola têm um depoimento amoroso em relação ao professor inesquecível e um odioso daquele que deixou traumas. Há a performance do mestre e o livro vivo como elo entre o aluno e a vida.Por inúmeras vezes escutei, ao longo de minha carreira: “Eu detestava poesia porque minha professora me obrigava a declamar sem entender nada do que eu dizia”; “Eu não suporto Geografia, e Matemática, e Física e Biologia, porque eu nunca entendi porque isso serviria para a minha vida”; “Nem me fale em análise sintática, só maluco para gostar de uma parada daquela, aliás, detesto Português.” Por enquanto deixemos de lado as inclinações e vamos nos fixar, por exemplo, no Português. Talvez o que faça alguém não gostar da própria língua e da análise de sua sintaxe seja o fato de não se ver incluído na história. Ora, se o sujeito é o dono da oração e o verbo senhor da ação o menino tem que entender que esse sujeito é ele. Foi ele que há muitos anos atrás inventou a palavra para que pudesse traduzir as coisas na ausência delas (das coisas) e para que pudesse expressar-se tendo diante de si um repertório que possa lhe servir na hora de se fazer compreender. Então às vezes quando vemos um adolescente ou mesmo um adulto afirmando que a namorada, o irmão, o colégio, a festa, a roupa são bacanas, não é que esse indivíduo ache exatamente a mesma coisa de todos esses elementos. Não. Muitas vezes trata-se apenas de um cidadão sem repertório de adjetivos; logo os adjetivos, meu Deus, os que dão qualidade às coisas! Uma pessoa abastecida deles diria sem medo: minha namorada é inteligente e gostosa, meu irmão é companheiro, meu colégio é divertido, a festa foi animada, a roupa estava moderna. Uma análise sintática explica que “chove” é uma oração e uma oração sem sujeito, e nos explica também o que é uma oração principal e suas orações subordinadas que são as filhas dela. Ninguém pode fazer isso sem entender. Advérbios de modos, advérbios de intensidade, objetos diretos e indiretos são assuntos que não se entende sem se entender o homem. Eu só posso escrever isso que escrevo agora sobre o tema porque passei pelas mãos de ótimos professores de português, a começar pelo meu pai, cuja palavra criativa e bem humorada deu fundamento ao que chamam hoje de minha literatura. Além do mais, meu pai usava a graça e o bom humor para nos explicar as coisas mais simples: “Poxa papai, nesse verão eu sôo tanto!”, ao que ele respondia: “Realmente eu escutei. “Então, eu nunca mais esqueci que soar é para sino e para som, e suar é o verbo correspondente aos suores. Aprendi rindo. Outra mãe de meu português foi a literatura, e em especial a poesia, preciosa dama nas mãos de quem fui parar com apenas onze anos e por causa de quem o mundo é para mim a reserva da inspiração. Minha professora de declamação, Maria Filina, de quem já falei aqui, me ensinou a entender as estorinhas das poesias, os conteúdos das palavras e entendendo a poesia eu estava também muito cedo começando a aprender o ser humano. Mais que gramática, mais que palavras bonitas e diversificadas, a poesia me ensinou muito do mundo e seus sentimentos. Interdisciplinar, essa arte contêm Geografia, História, Direitos humanos, Filosofia Economia, Física, Química e etc e tal. Me lembro quando, já adulta, cheguei a Lisboa, pela primeira vez e convidava meus amigos: Vamos ao Chiado, à Baixa, ao Rossio? Então, espantados, me diziam: mas você não disse que nunca esteve aqui?! Era verdade, mas era também mentira, pois eu tinha ido lá, quando ainda morava no Espírito Santo, pelo olhar de Fernando Pessoa. A leitura é a passagem mais barata do mundo, creiam-me. Clamo aos professores tão sacrificados, tão desvalorizados e tão importantes para o processo da civilização do mundo, clamo que ao educar o pequeno homem usem como objeto de estudo e método o pensamento poético da humanidade. Atenção preciosos educadores do mundo, atenção condutores da esperança, o livro vivo pode ser sua aliança com qualquer criança.

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