terça-feira, 30 de agosto de 2011

Pois é...

 

Amor, de tarde (Mario Benedetti)

É uma lástima que não estejas comigo
quando olho o relógio e são quatro
e acabo a planilha e penso dez minutos
e estiro as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para afrouxar as costas
e dobro os dedos e lhes tiro mentiras.

É uma lástima que não estejas comigo
quando olho o relógio e são cinco
e sou um punho que calcula interesses
ou duas mãos que saltam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como late o telefone
ou um tipo que faz números e lhes tira verdades.

É uma lástima que não estejas comigo
quando olho o relógio e são seis
podias aproximar-te de surpresa
e dizer-me: Como vais? E ficaríamos
eu com a mancha vermelha de teus lábios
tu com a marca azul de meu carbono.

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