domingo, 28 de agosto de 2011

Entre aqui e lá. E ainda além...


Por cima do abismo
estende-se minha alma
tensa como um cabo
onde me equilibro,eu, malabarista de palavras.

(MAIAKÓVSKI)



Difícil contornar a memória poética a fim de livrar-se desta imagem, para construir uma outra, minha. Maiakóvski alcançou uma imagem forte, apaixonada, verdadeira... nos parece inútil buscar outra. Existir é como  lançar-se ao arriscado número do equilibrista. Mas não sobre o picadeiro, sobre colchão, cama ou tela de proteção... é o equilibrista no exercício da paixão de caminhar sobre um cabo como se chão firme fosse, sobre o abismo.
Há gente que se distrai com compromissos, aluguéis, retiros, teses, tédios, agendas... e se acredita equilibrado por cumprir tudo com compulsivo rigor. Eu, me esqueço de mim, e, crendo na vida que estou vivendo como a minha única chance, não a isento da paixão.
Gosto do cabo, meu chão firme e ponte, mas gosto imensamente do abismo. É ele quem me diz dos passos a calcular, da respiração, da concentração. O abismo me diz do esforço e me convida a ser eu e, ao mesmo tempo, me vencer. O abismo me derruba apenas quando tenho medo dele, ao contrário do cabo que pode trair meu treino, frieza e destreza ao deixar-se seduzir pela dança do vento.
Malabarista de palavras, invejo outros de seus convivas. Invejo almoxarifes de palavras, carimbadores de palavras, empacotadores, limpadores, fiscais de palavras e intelectuais. Toda esta gente que crê que palavra é coisa para dizer significado. E só. Acontece que a palavra pulsa. E teima. E viça. A palavra se bole... E você, ali, pateticamente cuidando em fazer arte com algo imprevisível. Palavra é amante que não se dá com facilidade. Cortejada, a palavra fica toda prosa... Mas gosto mesmo é quando a palavra, enlouquecida de Amor, quer ser só Poesia.
E, então, ainda é maior o desafio do equilibrista, com malabares de fogo-palavra por sobre o abismo... A Poesia é o atrevimento de uma acrobacia em pleno percurso, desdenhando do cabo, excitando o abismo. Eis-me aqui! A alma, insegura, não crê que o salto ajude... mas olho o cabo e ele se parece um pouco com minh'alma, enlaço os dois por sobre o abismo e me vou, certa de que a paixão deste encontro me faz ser quem sou.

2 comentários:

Poeta Carlos Maia disse...

O seu texto me prendeu do princípio ao fim. E ao final dele eu fiquei me perguntando: "O que é que eu vou dizer a Luciana?" Se vc já disse tudo? Parabéns minha linda!!!

Beijos!!!

Luciana Araújo Cavalcanti disse...

Carlinhos... aprendi com vocês! o/

#AmoMuito