sábado, 23 de julho de 2011

A visão de um anjo de costas - Ângelo Monteiro


Não é por mero protesto



nossos cabelos nos ombros:


somos bem pouco terrestres,


somos mais venusianos.

Escondem asas secretas


estes cabelos que usamos:


como todos os estetas


as coisas prefiguramos.


De modo que as imagens


das vossas alegorias


são bem pouco, comparadas


com a nossa telepatia


e o nosso poder de usar


só as palavras supremas:


não somente as necessárias,


mas aquelas que o homem teme.


O resto comunicamos


por meio dos nossos olhos:


em nós, poços de energia,


em vós, poças de silêncio.


Nem contempleis nossos ombros:


cabelos vertiginosos


e tênues, como os abismos,


perturbarão vosso sono.

Nenhum comentário: