sábado, 23 de julho de 2011

Por aí... - Tadeu Rocha

O COLECIONADOR DO IMPOSSÍVEL



Para os amigos Abimael Lages e Carlos Maia










A vegetação não era rica, devastada pelas queimadas por parte de uns pequenos agricultores de subsistência e, também, pelo desmatamento clandestino – bastante comum naquela região.


A estrada não pavimentada, há pouco coberta pela noite, recebia agora toda a luminosidade daquele sol nordestino. Felipe, dirigindo a caminhonete, pensava agora no Ancião. Estaria ele vivo? Esperava que sim. Aquele velho de estranhas manias, significava muito para ele.


Os pensamentos de Felipe desviaram-se para o motivo que o trazia mais uma vez a sua cidade natal. Seus pais morreram há vinte anos, em uma data não muito comum em nossos calendários: 29 de fevereiro. E era somente no ano bissexto, precisamente nesta data, que ele regressava para subir o cruzeiro, e viver um momento de dor, reflexão e flores.


Os pneus da caminhonete tocavam finalmente o asfalto da cidade. Seus olhos já deveriam ter contemplado alguém. Em vez disso, surgiam a sua frente ruas vazias; casas desprovidas de qualquer sinal de vida. Não pôde evitar o pensamento: “ Será que todos subiram pela última vez o cruzeiro; corpos adormecidos sob a terra, porém ao mesmo tempo tão próximos do céu”?


Mal acabara de concluir seu devaneio, seus olhos vislumbraram uma figura conhecida. Expeliu toda tensão em um imenso sorriso, ao mesmo tempo em que acionou a buzinado carro. O vulto a sua frente dirigiu-lhe o olhar. O mesmo olhar de uma força que chegava a incomodar; a mesma força que, somada a de seu avô, ajudou a construir aquela cidade. Homem de grande sabedoria, velho de estranhas manias. A mais conhecida era a de distribuir apelidos. Todos na cidade foram batizados pelo velho, que nem a si próprio deixou escapar, denominando-se Ancião. E era por este nome, que Felipe o trataria:


- Onde está todo mundo? O que aconteceu Ancião?


- Eu estava esperando por você Bissexto. Quanto aos outros, estão logo adiante, despedindo-se do Colecionador.


Naquele instante Felipe revirou os arquivos de sua memória. Não conhecia ninguém daquele lugar que houvesse sido batizado pelo Ancião com aquele nome. Sabia que o homem a sua frente se divertia com sua surpresa e curiosidade. Também sabia que o mesmo só revelaria alguma coisa se fosse indagado. Estranho toda a cidade se reunir para despedir-se de uma única pessoa.


-Esta bem! Está bem!! Quem é esse Colecionador?


-Trata-se de um missionário. Chegou logo após a sua última visita. Ele coleciona o impossível.


- O senhor poderia ser mais claro?


- Em um de seus sermões, o missionário afirmou que para Deus nada é impossível. E para o homem? Bem sabemos que o ser humano possui suas limitações. Há pessoas que você não precisa conhecer por muito tempo para saber que elas jamais conseguiriam ser de outra maneira. Para elas a mudança é impossível. Assim como as folhas secas deitadas sobre a margem não acompanham o ciclo das águas, muitas dessas pessoas não acompanham o desenvolvimento da sociedade.


Contudo nem todo aquele que precisa mudar e não muda é filho do desequilíbrio social. Lembra-se do Dr. Ateu? Claro que se lembra! Agora ele não merece mais esse vulgo. Preciso arrumar outro. Tarefa extremamente difícil para mim. A velhice possui essa desvantagem: afeta nosso poder criativo. Do que eu estava falando? Sim...o Dr. Ex Ateu ou ex Dr. Ateu, não importa, agora faz parte da nova igreja. Todos fazem! Quantos nomes a serem mudados!! Imagine, logo o Dr...


Como vê o missionário têm predileção por casos perdidos. O Dr liderou a oposição ao trabalho do Colecionador. Eu próprio, contribui com várias sugestões. Hoje ele faz parte de uma coleção. Uma verdadeira galeria de casos impossíveis. Lembro-me da última conversa que tive com o ex Ateu. Não esqueço suas palavras:


- “Jesus Cristo substituiu a chama das minhas angústias pelo sol da salvação, cujos raios de felicidade atravessaram as barreiras da minha epiderme, invadindo veias... sangue novo a correr, desaguando vida em um coração, agora, rejuvenescido”.


Poético sem dúvida. Também profundo. Não nego. Quanto a mim, estou me dirigindo ao último sermão. Felipe boquiaberto escutara atento o relato do Ancião. Misturavam-se agora a grande multidão. As prostitutas de outrora, pareciam verdadeiras damas. Barril estava esquisito sem a garrafa de pinga; barba feita ; vestido de terno e gravata. E o responsável por tudo aquilo, seguia firme em sua pregação. Um simples amém deu por encerrada a oratória.


E Felipe não acreditou quando a mão do velho Bartolomeu atendeu ao convite do missionário, que imediatamente dirigiu-se ao seu encontro. Lágrimas! Sorrisos! Um grande sorriso. Sorriso infantil. O Colecionador pareceu, aos olhos de Felipe, um menino ao conseguir a peça mais valiosa de sua coleção. Não pôde deixar de compartilhar do seu sorriso. Havia no ar muitas emoções que precisavam ser destiladas. Felipe consultou o relógio, ciente de que o cruzeiro haveria de esperar mais um pouco.






Tadeu Rocha



PS1: O que mais me preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem-caráter, nem dos sem-ética. O que mais me preocupa é o silêncio dos bons. (Martin Luther King)


PS2: Martin Luther King era um Colecionador do Impossível.

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