terça-feira, 22 de março de 2011

Noturno (1) - Luciana Cavalcanti

Posso escrever-te um poema.
Posso esquecer-te um poema.
Posso um poema.
E posso esquecer-te.
Só não posso esquecer que,
sem ti e sem poemas,
parte dos sussuros
da madrugada, que declina,
serão incompreensíveis
a mim, 
como a qualquero outro
que calcula
as horas até a aurora
pelo testemunho do chão
dessilenciado pelo entregador de jornais...
E já antevejo as manchetes! Nada demais...!
Posso escrever-te um poema.
Posso esquecer-te um poema.
Posso esquecer-te
e me posso...
Mas, a estas horas,
a mim,
silenciar é delírio do sono,
ler é negar, ingenuamente, o que eu digo.
Recusarei os jornais
como quem recebe
e rasga sem ler
o telegrama de um distante amigo.

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