quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Um Ano Novo amorosamente iluminado!

Desejos de Janeiro... 

[Luciana Cavalcanti]





Saiba um amor que te sinta,
mergulhe por sede da pele,
delire em canção que não minta...
E feche os olhos,
e abra o peito,
encontre o mar.

Encontre o caminho de casa,
da casa invisível,
onde morarão teus sonhos,
onde moras já (sem saber).
Queira o amor,
dilate o querer,
dilate os dias,
comendo as horas sem pressa,
como fruta boa em dia de mar.

Saiba saber do desejo,
não se esquive (nunca!) ao bom do beijo
- nem se furte ao beijo roubado!
Sinta o amor do cuidado,
saiba das harmonias do silêncio
e cante. E dance. E seja...

Feche bem os olhos, se veja.
Ajuda, no escuro, ao parto
da Luz. Ilumina o olho cego das ruas,
desengaveta os poemas,
mostra a cara,
assume o sonho,
desnuda a alma...

E o mais certo de ti,
desnuda também, com calma,
porque em cada pele dorme
um bocado atrevido de luz.

Guarda a lua que vês,
três pedaços de crepúsculo
e dois de aurora,
para trazer nos olhos
à emergência do amor amado.

Não peça nada dos dias,
antes, desperta em cada um
a vontade mais doida e boa
de te fazer sempre mais
feliz, feliz...

E seja
feliz com o que deseja
e desejante do que faz riso.
Criterioso sem ciso,
cuidadoso, sem medo...

Seja o mistério e seja claro,
seja aquele instante raro
em que se sabe beber o Eterno
nas bocas.

Seja uma verdade,
não última, nem primeira,
seja qualquer verdade verdadeira
de um amor que se quer para querer,
de um momento
que não te aceita sozinho,
de um viajante, embriagado de caminho,
que deseja parar e olhar o sol.

Veja a estrela que arde,
aprenda a ouvi-las,
aprenda a dividir com as estrelas
a força
de multiplicar teus desejos,
de trazer os desejos pela mão,
de trazer o desejo nas mãos,
e estender brilho,
transbordante,
dos olhos ao chão de casa.

Saiba, de cór,
saiba demais, de ouvido,
a canção que te traz sentido
a um novo amor...
Saiba por um cheiro,
imaginar cores e formas.
E saiba inventar melhor depois.
Ou saiba nada. Esqueça um pouco...
E – de sexto sentido e outros cinco -
intua, de intuição descarada,
boa vida
para dois.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Rascunhos de Ano Novo - Luciana Cavalcanti



Vou confiar menos nesta gente que não sabe, 
não tem, um avô de quem sentir saudade.
Vou me dar menos a quem não conhece a graça
de perder tempo com tudo e com absolutamente nada!
Vou levar mais chuva - e gripar menos.
Vou cortar mais o cabelo, fazendo experiências...
E vou penteá-lo menos com os pentes e mais com as mãos...
Vou passar mais as mãos nos cabelos - já raros - 
de minha mãe.
Vou assistir mais futebol com o meu pai...
e discutir menos futebol com meu vizinho.
Vou ser feliz a partir da segunda-feira
e aumentar a dose na sexta!
Vou quebrar regras!
E vou quebrar a cara outra vez!
Vou me sentir mais jovem...
Vou fazer exercícios...
Vou mudar de humor 
e não admitir tristeza absoluta
nem em caso de enterro de parente próximo.
Vou sacudir a poeira.
Vou dar a volta por cima.
Mas nem me fale em emagrecer...!
Ando querendo volume
em certas partes da geografia do corpo
que nos fazem sentir mais brasileiras
e - por que não?! - gostosas.
Não vou acender um só cigarro...
Mas isto nem é promessa,
de Ano Novo, menos ainda!
Vou encontrar um novo Amor...
Talvez, no mesmo e velho Amor!
E vou fazer melhor, depois.
Vou catar poesia no lixo!
O Consumismo anda desperdiçando corações
que é um absurdo!
Vou aprender a falar uma nova língua...
Talvez, uma língua que nunca se embarace 
pra dizer "te amo".
Vou tomar cuidado. E menos café.
Não vou comprar um carro.
E vou andar ainda mais a pé!
Vou brigar com o jornal
ao invés de tentar entendê-lo
- que esta mania anda me envelhecendo.
Vou dizer mais bobagens e mais coisas sérias.
Vou escrever mais poesia.
Vou re-ler Neruda. Vou ouvir mais Vinícius.
Vou beber menos. E poupar mais!
Vou renovar todas estas promessas
no ano seguinte...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Ao Mestre com Carinho - Elisa Lucinda

Ao Mestre com Carinho

Escrevo com o coração e a razão concentrados em duas datas que não por acaso são comemoradas quase juntas. Hoje é dia dos professores e dia 12, das crianças. Ora, ora, professores, que se revezam nos papéis de pais e mestres, têm em suas mãos o futuro da humanidade. Parece determinismo de meu pensamento e radicalismo de uma opinião, mas acho que pode não ser. Todas as pessoas que conheço que passaram por alguma escola têm um depoimento amoroso em relação ao professor inesquecível e um odioso daquele que deixou traumas. Há a performance do mestre e o livro vivo como elo entre o aluno e a vida.Por inúmeras vezes escutei, ao longo de minha carreira: “Eu detestava poesia porque minha professora me obrigava a declamar sem entender nada do que eu dizia”; “Eu não suporto Geografia, e Matemática, e Física e Biologia, porque eu nunca entendi porque isso serviria para a minha vida”; “Nem me fale em análise sintática, só maluco para gostar de uma parada daquela, aliás, detesto Português.” Por enquanto deixemos de lado as inclinações e vamos nos fixar, por exemplo, no Português. Talvez o que faça alguém não gostar da própria língua e da análise de sua sintaxe seja o fato de não se ver incluído na história. Ora, se o sujeito é o dono da oração e o verbo senhor da ação o menino tem que entender que esse sujeito é ele. Foi ele que há muitos anos atrás inventou a palavra para que pudesse traduzir as coisas na ausência delas (das coisas) e para que pudesse expressar-se tendo diante de si um repertório que possa lhe servir na hora de se fazer compreender. Então às vezes quando vemos um adolescente ou mesmo um adulto afirmando que a namorada, o irmão, o colégio, a festa, a roupa são bacanas, não é que esse indivíduo ache exatamente a mesma coisa de todos esses elementos. Não. Muitas vezes trata-se apenas de um cidadão sem repertório de adjetivos; logo os adjetivos, meu Deus, os que dão qualidade às coisas! Uma pessoa abastecida deles diria sem medo: minha namorada é inteligente e gostosa, meu irmão é companheiro, meu colégio é divertido, a festa foi animada, a roupa estava moderna. Uma análise sintática explica que “chove” é uma oração e uma oração sem sujeito, e nos explica também o que é uma oração principal e suas orações subordinadas que são as filhas dela. Ninguém pode fazer isso sem entender. Advérbios de modos, advérbios de intensidade, objetos diretos e indiretos são assuntos que não se entende sem se entender o homem. Eu só posso escrever isso que escrevo agora sobre o tema porque passei pelas mãos de ótimos professores de português, a começar pelo meu pai, cuja palavra criativa e bem humorada deu fundamento ao que chamam hoje de minha literatura. Além do mais, meu pai usava a graça e o bom humor para nos explicar as coisas mais simples: “Poxa papai, nesse verão eu sôo tanto!”, ao que ele respondia: “Realmente eu escutei. “Então, eu nunca mais esqueci que soar é para sino e para som, e suar é o verbo correspondente aos suores. Aprendi rindo. Outra mãe de meu português foi a literatura, e em especial a poesia, preciosa dama nas mãos de quem fui parar com apenas onze anos e por causa de quem o mundo é para mim a reserva da inspiração. Minha professora de declamação, Maria Filina, de quem já falei aqui, me ensinou a entender as estorinhas das poesias, os conteúdos das palavras e entendendo a poesia eu estava também muito cedo começando a aprender o ser humano. Mais que gramática, mais que palavras bonitas e diversificadas, a poesia me ensinou muito do mundo e seus sentimentos. Interdisciplinar, essa arte contêm Geografia, História, Direitos humanos, Filosofia Economia, Física, Química e etc e tal. Me lembro quando, já adulta, cheguei a Lisboa, pela primeira vez e convidava meus amigos: Vamos ao Chiado, à Baixa, ao Rossio? Então, espantados, me diziam: mas você não disse que nunca esteve aqui?! Era verdade, mas era também mentira, pois eu tinha ido lá, quando ainda morava no Espírito Santo, pelo olhar de Fernando Pessoa. A leitura é a passagem mais barata do mundo, creiam-me. Clamo aos professores tão sacrificados, tão desvalorizados e tão importantes para o processo da civilização do mundo, clamo que ao educar o pequeno homem usem como objeto de estudo e método o pensamento poético da humanidade. Atenção preciosos educadores do mundo, atenção condutores da esperança, o livro vivo pode ser sua aliança com qualquer criança.

Tempo Vivo - Luciana Cavalcanti



Isto que a fotografia faz,
papel, tantas vezes trai
a memória.
Parece que o vivido
não é lâmina, cristalina,
ardente, luz dentro do peito...
Desgastado, o papel,
parece que a lâmina, saudade,
perdeu seu fio
e já nem corte,
e já nem dói...
que tanto tempo faz.
Armadilha de também de carta
antiga (guardada) apaga-nos
palavra sem nada,
fogo, água, traça...
e a gente fica tentando adivinhar
o que se quis dizer.
O que se quis dizer é a carta, em si,
ato de juntar palavra por palavra,
para dizer "amor",
para dizer "saudade"...
Aquele papel amarelado...
Aquele sorriso em preto-e-branco...
No entanto, a saudade é menina
e, sempre, escapole dentre estes papéis,
desarruma a sala,
faz bagunça no peito e fala:
memória de amor de verdade
só cresce com o embotado, 
o tempo, a insensibilidade 
da cega traça. E o Tempo
não rói fotografia e carta
de dentro... aquela imagem,
translúcida, do que foi
com a força e o viço do que-será...
Meu avô no meu peito, menino,
tem a cara do meu filho.

(Tempo Vivo, 23 de Novembro de 2011)

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Mordaça - Paulo César Pinheiro e Eduardo Gudin

Sugestão - Cecília Meireles

SUGESTÃO




Sede assim — qualquer coisa 
serena, isenta, fiel. 

Flor que se cumpre, 
sem pergunta. 

Onda que se esforça, 
por exercício desinteressado. 

Lua que envolve igualmente 
os noivos abraçados 
e os soldados já frios. 

Também como este ar da noite: 
sussurrante de silêncios, 
cheio de nascimentos e pétalas. 

Igual à pedra detida, 
sustentando seu demorado destino. 
E à nuvem, leve e bela, 
vivendo de nunca chegar a ser. 

À cigarra, queimando-se em música, 
ao camelo que mastiga sua longa solidão, 
ao pássaro que procura o fim do mundo, 
ao boi que vai com inocência para a morte. 

Sede assim qualquer coisa 
serena, isenta, fiel. 

Não como o resto dos homens. 


(Cecília Meireles)

Reminiscências e outras Essências - Luciana Cavalcanti





Perdoando todas as formas de ignoranças...
Perdoando as ausências que me remetem a mim.
E, então, me vejo criança,
brincando descalça escondido,
subindo em árvores e inventando
que o quintal é mundo-inteiro.

Neste cansaço, só me sobra sonhar Janeiro:
novenas, quermesses, começos...
bacamarteiros, procissões e salves,
Hino à São Sebastião.

Eu poderia, hoje, tomar cachaça,
mas que graça
teria eu me encontrar
tonta e adulta?
Prefiro carrossel para girar o Mundo,
prefiro este "eu", apesar de tudo.
Prefiro ainda a saúde de gritar.

De tudo o que aprendi ser incorreto,
a infelicidade é o erro mais besta
e, sincera e honestamente,
em memória daquela criança
que fui (e estou nascendo...),
é a única coisa que não vou perdoar...



15-11-2011, Luciana Cavalcanti: "Reminiscências e outras Essências"

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Aqui - Luciana Cavalcanti

Foto: Thiago Alex



Contigo, para as pontes,

para as portas,
para os portos,
para os poros,
para os partos...

Contigo, quando for noite,
quando for tarde,
ou cedo, mas sempre
pra se inventar um tempo
de não ter medo
e seguir...

Contigo, por hoje, por hora,
e por cada sonho
(que não demora)
em inventar amanhãs...

Contigo, pelos meus versos,
pelos meus risos
e pelos teus risos, mais.

Contigo, sim, talvez e não.
Contudo, sempre ainda mais:
abertos, as portas e os poros,
atentos, às pontes e portos,
prontos para manhãs
e amanhãs...
apertados os nós.

Luciana Cavalcanti
(Recife, Várzea do Capibaribe, 07 de Novembro de 2011)

#SomDaTarde: Erasmo Carlos - Apaixocólico Anônimo



O álbum, 2011, Sexo.

1. Kamasutra
2. Roupa suja
3. Amorticídio
4. Apaixocólico anônimo
5. Sentimento exposto
6. Seu homem mulher
7. Santas mulheres santas
8. Vênus e Marte
9. O rosto do Rei
10. E nem me disse adeus
11. Sexo e humor
12. Sexo é vida

sábado, 15 de outubro de 2011

Tom Jobim - O Rio da Minha Aldeia [Alberto Caeiro]

#SomDoDia "Te Amo Brasília" (Alceu Valença)

Minha cidade me ensina a amar...





Recife, poesia

Amar mulheres, várias.
Amar cidades, só uma - Recife.
E assim mesmo com as suas pontes,
e os seus rios que cantam,
e seus jardins leves como sonâmbulos
e suas esquinas que desdobram os sonhos de Nassau.

Amar senhoras, muitas. Cidade,
só uma, e assim mesmo com o vento amplo do Atlântico
e o sol do Nordeste entre as mãos.

Felizes os jovens poetas que recebem em seus corações
antes do amor e depois da infância
a palavra, a cidade Recife.
Felizes os poetas que podem lembrar-se eternamente
das pontes que separavam: ia-se a noite
no Capibaribe, e as águas do Beberibe
te davam, ó Madalena
o meu primeiro verso.

Corola diante do mar,
bares da arte poética,
bondes, navios, aviões.
Cidade, meus pés transportam as tuas pontes
para margens versáteis.

Igrejas nos postais, namorados nos portais.
Recife de meu pai,
Recife que me deu a poesia sem que eu pedisse nada,
cidade onde se descobre Rimbaud,
a maresia de antigamente em meus olhos abertos.
Mulheres, inúmeras. Cidade, só uma
e assim mesmo diante do mar.

Lêdo Ivo

sábado, 8 de outubro de 2011

Deu pra ti (Kleiton & Kledir)

.nascimentos. Luciana Cavalcanti


Sempre que choro, nasço.
No curso de cada lágrima
traço
as rotas dum caminho
não anunciado.
Sem passagem,
os dias da viagem
me fazem estrada.
E sempre nasço quando caminho
em espaços sabidos
ou não...
Então, sei muitas coisas
novas
no abraço de ignorância sedenta
de andar
para olhar
e, outra vez, nascer pelos olhos
quando choro
e quando vejo,
quando os abro
ou quando os fecho,
por dentro ou por fora de mim.

Poema ao que não foi...

Frases feitas,
amores desfeitos...
Resta-me o silêncio
por este meu defeito
de ser
extremamente perfeccionista
quando escrevo,
com meus dias,
histórias de amor.


Luciana Cavalcanti

Recife, Várzea do Capibaribe, 17 de Abril de 2010.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Noturno (1) - Luciana Cavalcanti


Posso escrever-te um poema.
Posso esquecer-te um poema.
Posso um poema.
E posso esquecer-te.
Só não posso esquecer que,
sem ti e sem poemas,
parte dos sussuros
da madrugada, que declina,
serão incompreensíveis
a mim, 
como a qualquero outro
que calcula
as horas até a aurora
pelo testemunho do chão
dessilenciado pelo entregador de jornais...
E já antevejo as manchetes! Nada demais...!
Posso escrever-te um poema.
Posso esquecer-te um poema.
Posso esquecer-te
e me posso...
Mas, a estas horas,
a mim,
silenciar é delírio do sono,
ler é negar, ingenuamente, o que eu digo.
Recusarei os jornais
como quem recebe
e rasga sem ler
o telegrama de um distante amigo.

Certas Canções...

Noturno (2) - Luciana Cavalcanti


Inútil, como a quebra-de-braço
entre o si mesmo e o delírio,
este calar a paixão bem-vinda,
este negar o suor no rosto,
esta paz de quem já não foi...
Retarda
as horas que te separam do gozo,
os mundos que afastam tuas sombras
e recolhem, no passado, pedaços
e manchas indecifráveis de si.
Não sabe
do peso que assume quem
ousou ser leve
e que Ícaro, mais que alguém,
é um mundo interior,
equidistante entre o Foi e o Não-Foi.
Sonhar é coisa que se faz em voz alta,
de olhos abertos
e expressão pasmada...
Ser feliz, indiscutivelmente, é um espanto.

Fruição - Luciana Cavalcanti


Entrego-te algumas palavras nuas.
Estão aí para dizer o que são.
Não ensaiam,
não se aprumam,
nem passam por revisão.
Palavras soltas, que,
outrora cruéis,
não sabem senão desnudar-se
para dizer de sua vergonha.
Cada palavra é um espasmo,
um soluço,
um orgasmo.
Cada palavra é já
algo que eu não calculo.

Preces ao Futuro - Luciana Cavalcanti



Para o meu avô.

Nunca nos cansemos de dizer
das coisas mais belas e boas:
fruta colhida no quintal,
entardecer olhando o céu,
prosear de compadres na calçada,
novena e procissão
no interior. Gente simples
falando com Deus!

Nunca nos cansemos de dizer
dos amores mais fundos e certos:
cabelos brancos,
riso franco, voz cansada
carregando tanta ternura
que parece até que o tempo
multiplica a força do amor em mil,
cada dia...

Nunca nos cansemos de ser
como sonhamos ser quando crianças,
sábios e grandes
porque sabedores das coisas,
conhecedores do Mundo,
amigo das gentes, desde as influentes
às mais simples. E, todas, importantes!

Nunca nos cansemos de ter,
como mirante para olhar o Mundo,
uma despretensiosa cadeira na calçada
e a disposição de conversar e aprender.

Nunca nos cansemos de trabalho e riso,
de abençoar crianças,
de rir-se das brincadeiras desta meninada.

Nunca nos cansemos de sermos a força
do Amor com que asfaltamos nossa estrada...!

Dizeres - Luciana Cavalcanti



Despalavrear a emoção. 
De toque, silêncio, olhar e riso, 
dizer tudo o que há pra ser dito. 
E é grande a Vida. 
Grande, o Amor. 
E saber tudo isto, é paz também, 
e aquilo que o Mundo tem mais... 
de bonito!

Certas canções que ouço...

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

De Joelhos (Martha Medeiros)

Sentir-se amado.
O cara diz que te ama, então tá. Ele te ama. Sua mulher diz que te ama, então assunto encerrado. Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas. Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se. A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização, apesar de não sonharmos com outra coisa: se o cara beija, transa e diz que me ama, tenha a santa paciência, vou querer que ele faça pacto de sangue também? Pactos. Acho que é isso. Não de sangue nem de nada que se possa ver e tocar. É um pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois. Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você, caso você esteja delirando. "Não seja tão severa consigo mesma, relaxe um pouco. Vou te trazer um cálice de vinho". Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que você contou dois anos atrás, é vê-la tentar reconciliar você com seu pai, é ver como ela fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d´água. "Lembra que quando eu passei por isso você disse que eu estava dramatizando? Então, chegou sua vez de simplificar as coisas. Vem aqui, tira este sapato." Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido. Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta. Agora sente-se e escute: eu te amo não diz tudo.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Lembrete


Lembra aquele riso?
Relembrar, seria urgente,
que ele foi convite a ouvir-te,
a aprender-te e, depois,
querer-te
assim como quero ao sol em minhas manhãs,
assim como quero que o belo me assalte as retinas
e desrespeite a mesmice de dias sem cor, sem sal
e sem amor.

Lembra que beijamos, tantas vezes,
sentindo, antes, os dentes no riso aberto
e, então, abríamos os olhos para ver
a aproximação das bocas
e, nelas, das almas um pouco
porque o riso foi muito
do que nos fez nós...

Lembra?
Então, apenas sorri.
Sorri porque eu, poeta,
contadora de estrelas, histórias,
catadora de risos e mel,
sou mais gente,
sei mais a vida,
quando, em teus lábios,
o Amor me ri. 

Pois é...

 

Amor, de tarde (Mario Benedetti)

É uma lástima que não estejas comigo
quando olho o relógio e são quatro
e acabo a planilha e penso dez minutos
e estiro as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para afrouxar as costas
e dobro os dedos e lhes tiro mentiras.

É uma lástima que não estejas comigo
quando olho o relógio e são cinco
e sou um punho que calcula interesses
ou duas mãos que saltam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como late o telefone
ou um tipo que faz números e lhes tira verdades.

É uma lástima que não estejas comigo
quando olho o relógio e são seis
podias aproximar-te de surpresa
e dizer-me: Como vais? E ficaríamos
eu com a mancha vermelha de teus lábios
tu com a marca azul de meu carbono.

domingo, 28 de agosto de 2011

Cultivos...



Sabe? Este ofício de poeta? Descobrir nas sombras a possibilidade de trazer à luz um semeador de estrelas? Sabe este gesto, sempre inconcluso, sempre delicado apesar de visceral de sentir fundo? E, sobretudo, de sentir em tudo? Não é fácil lida. Como não é fácil a vida quando se a deseja Vida. Porque uma coisa é ter corpo vivo, ser vivente, outra coisa, delicadíssima coisa, é fazer-se gente.

Cultivos...




Delicadeza e profundidade dão um imenso trabalho.
Sabe? Cultivar sorrisos, cuidar de corações, abrir canto a canto a Vida para, depois, dividi-la, exige atenção de agricultor. Porque é preciso cuidar da alegria e do amor mesmo quando o tempo não é bom.

Entre aqui e lá. E ainda além...


Por cima do abismo
estende-se minha alma
tensa como um cabo
onde me equilibro,eu, malabarista de palavras.

(MAIAKÓVSKI)



Difícil contornar a memória poética a fim de livrar-se desta imagem, para construir uma outra, minha. Maiakóvski alcançou uma imagem forte, apaixonada, verdadeira... nos parece inútil buscar outra. Existir é como  lançar-se ao arriscado número do equilibrista. Mas não sobre o picadeiro, sobre colchão, cama ou tela de proteção... é o equilibrista no exercício da paixão de caminhar sobre um cabo como se chão firme fosse, sobre o abismo.
Há gente que se distrai com compromissos, aluguéis, retiros, teses, tédios, agendas... e se acredita equilibrado por cumprir tudo com compulsivo rigor. Eu, me esqueço de mim, e, crendo na vida que estou vivendo como a minha única chance, não a isento da paixão.
Gosto do cabo, meu chão firme e ponte, mas gosto imensamente do abismo. É ele quem me diz dos passos a calcular, da respiração, da concentração. O abismo me diz do esforço e me convida a ser eu e, ao mesmo tempo, me vencer. O abismo me derruba apenas quando tenho medo dele, ao contrário do cabo que pode trair meu treino, frieza e destreza ao deixar-se seduzir pela dança do vento.
Malabarista de palavras, invejo outros de seus convivas. Invejo almoxarifes de palavras, carimbadores de palavras, empacotadores, limpadores, fiscais de palavras e intelectuais. Toda esta gente que crê que palavra é coisa para dizer significado. E só. Acontece que a palavra pulsa. E teima. E viça. A palavra se bole... E você, ali, pateticamente cuidando em fazer arte com algo imprevisível. Palavra é amante que não se dá com facilidade. Cortejada, a palavra fica toda prosa... Mas gosto mesmo é quando a palavra, enlouquecida de Amor, quer ser só Poesia.
E, então, ainda é maior o desafio do equilibrista, com malabares de fogo-palavra por sobre o abismo... A Poesia é o atrevimento de uma acrobacia em pleno percurso, desdenhando do cabo, excitando o abismo. Eis-me aqui! A alma, insegura, não crê que o salto ajude... mas olho o cabo e ele se parece um pouco com minh'alma, enlaço os dois por sobre o abismo e me vou, certa de que a paixão deste encontro me faz ser quem sou.