terça-feira, 23 de novembro de 2010

Preces ao Futuro

Para o meu avô.

Nunca nos cansemos de dizer
das coisas mais belas e boas:
fruta colhida no quintal,
entardecer olhando o céu,
prosear de compadres na calçada,
novena e procissão
no interior. Gente simples
falando com Deus!

Nunca nos cansemos de dizer
dos amores mais fundos e certos:
cabelos brancos,
riso franco, voz cansada
carregando tanta ternura
que parece até que o tempo
multiplica a força do amor em mil,
cada dia...

Nunca nos cansemos de ser
como sonhamos ser quando crianças,
sábios e grandes
porque sabedores das coisas,
conhecedores do Mundo,
amigo das gentes, desde as influentes
às mais simples. E, todas, importantes!

Nunca nos cansemos de ter,
como mirante para olhar o Mundo,
uma despretensiosa cadeira na calçada
e a disposição de conversar e aprender.

Nunca nos cansemos de trabalho e riso,
de abençoar crianças,
de rir-se das brincadeiras desta meninada.

Nunca nos cansemos de sermos a força
do Amor com que asfaltamos nossa estrada...!


Luciana Cavalcanti, Recife - Em 23 de Novembro de 2010.
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E porque por ti, hoje e sempre, muito importa tudo o que serei, fique dito, mais uma vez:

'À “Seu Zé Pretinho”, José Amâncio (meu avô), porque pela Vida e pelo trabalho, ele me ensinou três grandes lições: que a generosidade e o desprendimento são caminhos seguros de se construir riquezas imperecíveis, que os acontecimentos mais simples são oportunidades de se fazer novas amizades e que o trabalho, honesto e insistente, pode não ser um fardo, mas ser permeado (também) de generosidades, desprendimentos e possibilidades abertas e certas de se consolidar afetos.'


#zepretinhoday

Pra esquentar a chegada da 9ª Década do Cara!!!



- A Banda do Zé Pretinho é nóissss!!!

#zepretinhoday

Coisas que aprendi com meu avô

Lembro as coisas que aprendi com meu avô. Como as mais belas e justas coisas aprendidas porque vividas, essas lições não se apagam... Como sinais na pele, são marcas que mudam, de tamanho ou um pouco de lugar, mas permanecem, sinalizando nos corpos a diferença que somos.

O que aprendi de meu avô, eu não perco.

Aprendi que há políticos honestos, por exemplo. Então, tarefa de cidadania é buscar estes lutadores entre os tantos demagogos e aproveitadores da boa fé do povo.

Aprendi que trabalho é um jeito de marcarmos com nossa existência e singularidade o Mundo, portanto, existimos enquanto trabalhamos! Trabalhar não é um fardo, é gesto concreto de aposta na Vida, insistência em fazê-la aquilo que sonhamos. Quem só trabalha por dinheiro perde a chance de conquistar maiores riquezas, perde tempo ganhando dinheiro.
Meu avô construiu Vida trabalhando, a sua e as nossas. Há gente que produz miséria e morte... Este trabalho destrói a Criação, nega Deus. Meu avô me ensinou fazer de meu trabalho uma expressão da minha fé.

Mas a lição primeira, mais difícil e mais justa, talvez, seja a de ser família...

O quanto é difícil, em nossas diferenças, com tantos interesses, gostos, maneiras, sermos uma coisa só que se reconheça e cresça sabendo de onde e a que veio!

Temos uma família. Grande é a mesa que nos uniu e tem unido para a refeição e o sonho. E grandes, as estradas por onde tanto viajastes, meu velho, a semear amigos em cada canto como tento fazer eu.

Olho tantos rostos, uns mais e outros menos parecidos com o meu. Olho pra você, meu avô, e busco traços dessa semelhança com um homem tão bonito! 

Me pareço contigo, eu sei!
Gosto da mesa farta, de alimentos e de gentes para a partilha. Gosto de amigos e do que a amizade nos acrescenta em Vida. Gosto de Política e mais da gente à qual a boa Política deve servir. Gosto do trabalho, insistente e cuidadoso.
Gosto da Vida... e queria vê-la multiplicada! Ainda não te dei um bisneto... Não sei se exijo muito do outro ou de mim. Não sei se o Amor mais se esconde de quem o busca desperto e sempre... Mas sei que preparo a casa, arrumo o mundo, pra quando ele chegar. Será parecido comigo e contigo, o menino. Vai fazer muita bagunça, a começar por nossos corações! Agitando a certeza de que a Vida, multiplicada, é milagre do Amor.

89 anos é só o começo! Você é grande, você é muitos! Você é cada um de nós. Está em nós, no nosso Amor. Em cada filho, neto, bisneto e amigo, você vive, Seu Zé. E faz a vida bendita por tanta luz brotada do trabalho firme, honesto e humilde, de tuas mãos.

Feliz Aniversário, Zé Pretinho!

Deus me dê a Graça de ter a sua benção a cada dia de minha Vida, entre os meus amigos, com a família que tenho e terei!
Deus me dê a Graça de saber de teus traços em meu rosto e em minha História, na pessoa que sou e serei!

 Seu Zé, celebrando 87 anos-Luz
 Duas filhas e uma neta
 A família que adotei: minha afilhada e minha comadre
 Velho, meu querido velho
 Minha irmã e outra irmã: a Família Paulina na nossa família
 Abraço mais bonito!!!
 Ana Karla e Dom Erwin: aprendemos a admirar homens dignos e bonitos

 Mais de família escolhida! Amigas pra Vida inteira...
 Trablho e amor combinam: ex-aluna e sempre amiga!
 Já disse que amo a Política?!? rsrsrs
E esta família nova e renovada 'inda vai crescer!!!


#zepretinhoday


Para nascer. Para viver.

Nascer da água.
Nascer do Espírito.
E seguir re-nascendo do Amor!

Da luz do Cristo, buscar a guia
para mover-se no Mundo a mudá-lo.
E fazê-lo terno,
semeando o Eterno
em cada gesto concreto de Amor.

Nascer da água.
Nascer do Espírito.
E fazer com que vença o Amor.

Ante as opressões, ante o medo,
ante o que descolora a Vida
e torna a Terra menos verde
e azul. Erguer-se
e fazer da Justiça a bandeira.

Bandeira definitiva,
a Justiça nos conceda a Paz.
O Amor vivido,
o Amor lutado,
o Amor semeado
e multiplicado mais!

Seja tal batismo,
o nosso batismo,
meu e teu,
hoje e sempre:
nascidas da água,
nascidas do Espírito,
para viver de Amor...


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Luciana Cavalcanti: Batismo é festa de Vida, quando semeamos a certeza do Eterno!
Em Novembro de 2010, pelo Batismo de Ana Luiza, luz pequenina, amor meu, amor de Cecília e Breno, de Marcella e Amilson, Mellina e René... e da Vovó!


Bolo gostosooo!!!

 Tio René tirando fotos de mamãe, papai e AnaLú...

 Padre João, vovó e AnaLú...

Mesmo doentinha, ela estava um charme. Não é verdade?!?!


#AnaLuFofa

Cartinha para minha mãe...


Conta as histórias das crianças, brincando, aprendendo, descobrindo mundos... Conta das travessuras todas, das manhas, dos dengos, das birras.

Fala por horas, morrendo de rir, dos meninos e meninas e nem sente que em cada riso, em cada percepção cheia de ternura, o seu peito maturado de tanta vida pede um neto. Seus braços cansados pedem uma criança, seu afeto guardou-se para o futuro com as reservas multiplicáveis de amor-de-mãe... Quer ser avó!

E eu estremeço diante da beleza infinita de teu desejo...

- Ooooô, mãe, como seria ter um filho?!?

Como seria ser engravidada pelo amor, deixar semente de esperança firmar-se no ventre pra depois explodir? Como seria cantar cantigas? Acordar com sono e ninar neném? Como seria irmanar-me à bondade das fêmeas todas que amamentam? Ser bicho que acolhe um bichinho? Mas com carinho, com razão, com sabedoria... porque aquele bichinho seria gente, teria que aprender a difícil lição de Ser. E ser humano!

Como seria eu crescer (por dentro) pra ver subir as marcas de lápis na parede...? "Olha, o menino já tem quase um metro e vinte!"... Como seria perder a paciência e dizer "não porque não!"?
Tua ansiedade se es
conde, em respeito a mim. Teu amor guardado, desde o parto pra dali a uns vinte e poucos anos, se avexa por dentro. Mas você sussurra pra que teu afeto se ajeite e você não incomode meu sono com barulhos, nem queixas...
Meus amores se demoram em chegar. Minhas dores se demoram em passar. Minhas queixas...
Já engravidei de tanta coisa - até de raiva! Já engravidei de vontades de puxar do Futuro o meu filho na marra... somente pra testemunhar no teu rosto e no dele, meu pai, a transfiguração do amor-milagre: painho e mainha, cada vez mais, vovô e vovó.
Meu amor dorme, preguiçoso... mas, talvez, nem seja boa hora pra acordar!
Meu amor dorme, sonhando com o meu filho que é quase tão bonito quanto a ternura de cabelos brancos que tu e meu velho maturaram pra dar.


Recife, Várzea do Capibaribe, manhã de Agosto... A vontade de Vida sabe esperar a primavera. Espero!


#meuafilhadovictor
#sofiaclara




segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Receita de (e)ternidades... - Luciana Cavalcanti


Trago no pulso um relógio que teve o ponteiro de segundos solto de seu motor... Meu relógio já não conta segundos. Mais: o ponteiro, solto, sob o vidro do visor ilude-me ante a estagnação dos dois outros companheiros, os ponteiros de minutos e de horas, lerdos em dizer-me do tempo passado; ao mesmo tempo, este mesmo ponteiro, solto, tem agora uma mobilidade imprevisível. Parado ou movendo-se sem tempo, o ponteiro de segundos torna flagrante a relação entre o tempo e o caos. O ponteiro não conta segundos ao mover-se e, no entanto, redesenha sob o vidro o movimento de minhas mãos. Torna-se rápido ou se espreguiça sempre que as mãos se alvoroçam ou dormem.
Meu ponteiro de segundos reinventa o tempo.
O tempo do ponteiro de segundos é meu... Seus companheiros, de horas, de minutos, não sabem do meu tempo. O tempo em horas e minutos me escapa. Mas como não há segundos a me tomarem pelo pulso, já não me importo com os segundos. Perco-os. Prendo-os. Solto-os. Esqueço-os!
Sem me dar conta, passei a rabiscar eternidades na tela do tempo, re-feito de meu relógio quebrado.

Cuidar de amor exige mestria...




 - Como se faz com todo o cuidado, a pipa que precisa voar...


"No centro de um planalto vazio
Como se fosse em qualquer lugar
Como se a vida fosse um perigo
Como se houvesse faca no ar
Como se fosse urgente e preciso
Como é preciso desabafar
Qualquer maneira de amar varia
E Léo e Bia souberam amar
Como se não fosse tão longe
Brasília de Belém do Pará
Como castelos nascem dos sonhos
Pra no real, achar seu lugar
Como se faz com todo cuidado
A pipa que precisa voar
Cuidar de amor exige mestria
E Léo e Bia souberam amar"


[ por Oswaldo, "Léo e Bia"]

domingo, 21 de novembro de 2010

Diga: qual a palavra que nunca foi dita?




Esta dose é para os 2 homens bonitos [por humanos e sinceros que são, um e outro...] com quem eu "teclei" - olha o termo!!! - esta noite de domingo, ao MSN, e tematizamos, por acaso ou por vontade, o Amor. Este, ou o relacionamento humano. Enfim...
E o Amor, à vera, sempre valerá...!

Paz e Bem! Axé!

Meninos, boa semana para nós tod@s!!!

É dose, seu moço!!!




Um amor que me foge
ao habitual repertório.
Amor, dia-a-dia,
que se ri e faz crescer
sem ceder
à mesmice,
às exigências
de nossas carências
e contingências...
Este amor, livre,
entende-se sendo
ele mesmo o amor,
amor, sim, em que a gente crê,
como diria o poeta:
o que chegou para dar
o que ninguém deu pra você...


"Amor-livre - I": poema de hora;
hoje, novembro de 2010 - Luciana.

O Coração a 80!!! - Biafra: "Te amo"

sábado, 20 de novembro de 2010

Cada ser tem sonhos à sua maneira...

Pequenas considerações para um repertório amoroso...


***

O amor nunca finda. O que tem fim, em nós, é a disposição de manter alguns laços.

***

O convívio desgasta apenas aquilo que não é amor...

***

Se a afinidade e o respeito não vem antes do desejo, esqueça! Não é amor.

***

Vontade de amar não é já amor. A sinceridade diante de si mesmo e do outro nos mantém distantes da fraude.

***

Talvez, não exista amor à primeira vista. Mas, certamente, depois da décima quinta vista se pode presumir que o amor não virá...

***

Amei algumas vezes na vida, antes de chegar aqui. E isto tem a máxima importância... Amor é aprendizado vivencial.

***

Seria capaz de enamorar-me de uma estrela qualquer ou outro luzeiro. Mas preferi teus olhos...

***

Mais difícil que bem posicionar os braços para uma fotografia: cuidar dos mesmos braços antes que o amor nos permita o esperado abraço.

***

Exímio orador perdeu-se entre palavras tolas e se riu! Estava amando...

***

O amor que, irredutíveis, esperamos, passou faz tempo!

***

Apesar de podermos conjugar o verbo em tempos futuros e pretéritos, amar é sempre presente.

***

Acreditei que nunca se perde tempo amando... De fato, amando não perdemos nada, nem tempo. Mas perdemos muito buscando doar amor a quem não se dispôs a recebê-lo.

***

Realismo amoroso não é a negação do sonho. É bom sonhar amando! Sobretudo, quando se dorme abraçado...


Luciana Cavalcanti


Chão e pele - Luciana Cavalcanti

A carne negra,
meu coração vermelho,
tanta diferença nas horas
e no espelho
não me leva pra longe de ti.

Sei das intermintências da pele,
sei do desejo que sabe,
tantas vezes, as revoluções
mais precisas, necessárias,
à alma.

Sei renunciar a minha calma
e gritar a urgência de um amor
não-indiferente, se próximo
ou distante, o que se sente
é medo e espera de se envolver...

Eu quebraria espelhos,
zombando de pragas de sete mil
tempos de azar.
O testemunham estes olhos vermelhos,
por choro e espera,
sem você chegar...

Sim, esta pele negra,
esta utopia que se agita,
as mãos que carregam bandeiras,
já recusaram tantas cercas,
já denunciaram tantas opressões...

Entre os tantos lados,
o meu e o teu,
talvez, nada impossível,
a História, teimosa,
trazendo-me ao lado teu,
dissolva o que anda segregado,
una de novo, como se faz à massa
para o pão. E o dividido, seja sagrado
gesto de partirlhar, eucarístia!

Amor insubmisso, insistente,
tinge novas cores para os dias,
as peles de nossos filhos
e a carne do sonho...
Tudo é bendito!
Este amor, bonito,
reinventou meu Ser.


Luciana, em 20 de Novembro de 2010.

Apesar das Acontecências do Banzo - Conceição Evaristo


Apesar das acontecências do banzo

há de nos restar a crença
na precisão de viver
e a sapiente leitura
das entre-falhas da linha-vida.


Apesar de ...
uma fé há de nos afiançar
de que, mesmo estando nós
entre rochas, não haverá pedra
a nos entupir o caminho.

Das acontecências do banzo
a pesar sobre nós,
há de nos aprumar a coragem.
Murros em ponta de faca (valem)
afiam os nossos desejos
neutralizando o corte da lâmina.




Das acontecências do banzo
brotará em nós o abraço a vida
e seguiremos nossas rotas
de sal e mel
por entre salmos, Axés e aleluias.




Conceição Evaristo

Poesia Negra - Nicomedes santa Cruz

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Últimos pecados


Indisfarçavel, a ansiedade
que te roubou as unhas,
feriu teus dedos e denunciou
a falha da cautela: trazer as mãos
cheias de dedos
e se omitir. E não arder,
não gritar "agora"...

E eis que a dor, então, vem
fora de hora. Doesse antes,
houvera lógica.

Ouvisse um "não"... Mas, agora?

Ante o teu silêncio o amor se afasta
e os braços que querias vão aninhar
outros corpos...

E o corpo, que quiseste,
vai despertar outro sono, e as madrugadas
serão sempre mais sozinhas
enquanto souberes daquelas mãos
unindo-se a outras mãos...
Entrelaçados dedos.

E tu, em teus medos,
lavaste as mãos,
o amor sucumbiu em omissão.
Nada resta, além de mãos frias
e estes dedos doídos de tanta mágoa
que tens ao roé-los...


[ luciana cavalcanti - poema-de-agora ]


quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Vale a pena, à vera... Valerá!


Embaraçosamente comovida por uma canção açucarada - que minha memória atribui à trilha de alguma novela -, creio que de Victor e Léo, vem a constatação: já não apenas a minha bibliografia é insuficiente para me explicar, minha pequena biblioteca incapaz de me deter. Meus trabalhos, todos, resultam inúteis na tarefa de me prender a atenção, fixar meu foco.
A mente, esteja eu na BR 101, rumo a João Pessoa, ou na BR 232, rumo à Vitória, vai sempre ao mesmo lugar. E este endereço é ainda mais forte se o percurso é o da volta. Voltar é o verbo e o gesto que queria, em cada uma dessas viagens, direcionar para você, para sua casa... Mas como voltar a algo onde não se foi? Como voltar para tua casa cujo endereço não sei? Como voltar ao teu abraço do qual sou a essas horas, a esta altura de nosso convívio, absolutamente ignorante?
Voltar parece a chance de ir pela primeira vez... E me vem sempre o medo de que seja tarde. E de que tanta epera, tanta estrada, tanto coração mergulhado em tanto amor, seja excessivo, seja inútil... Ou como se a alma que tenho pra te dar fosse predestinada a tornar-se bagagem estraviada. Como se os versos de tantas idas e vindas fossem a carta que não chegará ao seu destino, como se eu mesma chegasse sempre depois à rodoviária - ou ao aeroporto...
E já era assim, um pouco desta bagagem, e muito do sentido desta viagem, quando, entre as nuvens, pensara no meu lugar como algo sinalizado, em geografias e existências, pelo traço de teu sorriso.
Pensei te re-ver.
Nas estradas e paisagens surpreendentes do Piauí ou em chãos de Sertão, visitando o São Francisco com olhos francamente eternecidos e molhados de saudade. Saudade que me parece ridícula a cada momento que não digo de sua existência. Saudade prima-irmã de um sentimento que, de tão sem lógica, só pode ser sincero e imenso, mas eu não digo...
E viajo cada vez mais densa. E por mais que o cansaço me exija liberar a coluna, viajar livre... É sempre muito o que carrego: levo meus sentidos e sentimentos, tanto medo e pressa de voltar, levo tua ternura, impressa na pele (que te aguarda em silêncio infantil...), levo pudores que eu pensava perdidos há tempos, levo a esperança de que, ao voltar, a cidade seja outra, e cada esquina, cada praça e mesmo os engarrafamentos, testemunhem o amor que levo e trago comigo, te convençam a me acolher, dando sentido a todas as voltas. E nunca mais me deixando ir só.
E se os livros não dizem, nada sabem, e eu, muito menos sei dizer com acerto o que acontece, não há porque surpreender-me de que meus discos, minhas canções, já soem cansadas, confusas... não sei cantar, em melodia que eu conheça, porque um novo amor  me veio assim: surpreendente e belo.
Se não cabe em meus livros, ultrapassa meus discos, surpreende e embobece as minhas palavras, talvez, sejam estes, o sentimento e o momento, em que tudo o que sou me exige a Vida expressa e vivida em plena liberdade...


Luciana.
Quarta-feira, 18 de Novembro de 2010.

(...) é que gosto tanto...





Música: "Primavera", Vinícius e Carlinhos Lyra 

domingo, 14 de novembro de 2010

Hoje é 14 de Novembro, Gracias a la vida!!



Em 14 de março deste ano, eu postava neste Blog e no Youtube o vídeo que fiz como Agradecimento e prece por Comunhão a tod@s os amigos e amigas presentes durante o duro período de lutas que tivemos pós-acidente (em 14 de fevereiro). Não se esquece a Vida que se renova... Não se esquece o Amor.
 Há marcas profundíssimas de Amor e Fé, firmadas a ferro e fogo no coração de meu sonho. Sei que a Vida espera ainda algo de mim... E o farei!


Não é sempre que a gente renasce...


- Gracias a la Vida!
Hoje é 14 de novembro...

A omissão é um mal que se faz não fazendo nada...


No pé, ainda dói o corte adquirido num metal solto dentro da viatura policial. A coluna incomoda um pouco por conta do fim de noite e início de madrugada desconfortáveis... na rua, depois, numa delegacia.
Mas incômodo mesmo é viver em uma sociedade onde, além dos preconceitos, impera a omissão e a lógica do "pra quê isto".
Reunimo-nos ontem, eu e amigos, para uma discussão inicial sobre a formação de um Grupo de Estudos Transdisciplinar de Educação, Política e Movimentos Sociais, um grupo que agregue e permita a troca de saberes e experiências entre jovens pesquisadores-militantes. Foi uma tarde agradável, com direito a pausa para ver a vitória do Náutico (ontem, confesso, torci pelo time de painho-e-mainha!). Recebi o projeto de pesquisa de Pedro com as reflexões necessárias sobre interfaces entre a Educação Ambiental e a Educação Popular, conheci um pouco mais a trajetória do Teatro do Oprimido com Thiago Paraíba, discutimos bastante marxismo, movimentos sociais, Educação Popular. Refletimos. Decidimos próximos passos...
No retorno pra casa, perguntava a Michel sobre algo que me incomoda: a sensação de que os intelectuais engajados, os militantes, setores da Classe Média, enfim, nós, nos preocupávamos mais com as questões dos oprimidos do que os oprimidos em si. Claro, havia a questão da alienação, o pouco acesso a informação, a própria opressão reproduz ignorâncias... A conversa foi interrompida por uma confusão na rua, em plena Conde da Boa Vista: um homem agredia um casal homossexual.
Logo que percebemos de que se tratava, eu e Michel nos aproximamos, fomos dar assistência ao casal, enquanto um outro cidadão fora chamar a polícia.
Foi uma demora, um sofrimento, até o 190 nos atender e chegar ao local. 
Conduzimos vítimas, agressor e testemunhas à delegacia da Rio Branco (Bairro do Recife); lá, o delegado mostrou-se compreensivo, atensioso, e, sobretudo, indignado com atos de violência contra a mulher. Tratava-se de homofobia, claro, mas o delegado compreendia a covardia de um homem corpulento agredir duas jovens.
Tudo, desde o fim da noite me parecia surreal: o preconceito, a omissão de muitos, o inicial espanto da polícia com nossa intenção de registro do TCO... 
Temos os contatos do casal, de outra testemunha. Entramos em contato com os movimentos de Direitos Humanos. Ao que parece, elas intencionam levar adiante as denúncias. Concordo! Garantir os direitos passa por sua exigibilidade. Homofobia é inaceitável, sobretudo quando expresso em violências (simbólicas ou física).
Mas esta manhã, o que me dói mesmo é a recordação da emoção de Tati: "Obrigada a vocês, vocês são hetero, não tem nada a ver com isso... e foram sensíveis! 100%...". Não, Tati... A gente tem tudo a ver! Eu quero um mundo sem preconceito. Michel também. Thaís também. Faremos um Mundo Melhor, acreditando no sonho, nas lutas e na possibilidade de seres humanos de todos os quadrantes da Terra, diferentes, viverem juntos.
O nome da utopia na qual a gente aposta quando decide ir em frente e denunciar a agressão é Justiça. E o livro sagrado nos faz ver a Justiça como um nome da Paz. É isto.

sábado, 13 de novembro de 2010

Um poema. Da gaveta de Guardados...

Entendi te querer
somente quando
percebi que te quis
em euforia de festa,
cantando alto sem seresta,
dançando na rua sem carnavais...

E somente
quando considerei a tua felicidade
em autonomia, o teu sono (sozinho)
em tua cama e o teu riso
sem as minhas brincadeiras ...

Entendi, então,
que eu te queria de qualquer maneira:
queria te ver sorrindo
(ou não te ver e saber que sorrias...),
queria te escutar resmungando,
queria te escutar ressonando,
queria acordar com o teu virar na cama...

Queria te ver em paz,
queria te ter em casa,
guardado para as noites frias...
Queria, ainda, te deixar sozinho
e jurar para mim mesma, no espelho,
que não pediria nunca para voltares
(até porque bem saberias o caminho...).

E eu te queria de cabeça-quente,
ou frio, quase gelado,
ameaçando acabar com tudo
e eu a te demover da (in)decisão com choro...

Eu te quereria também com pressa
e te quereria com calma,
porque te quero com alma
como te quero na carne
com as mil partes de mim
que pulsam
à recitação de um poema,
que estremecem
ante a visão de tua boca
e com a parte de mim
que te escolhe no jogo,
que te chama à dança,
que se queixa, mas não cansa
de te buscar...

E buscar, de ti, a voz.
Buscar, de ti, a língua.
Buscar, de ti, os dentes
e a mordida
e morder, em ti, a Vida.
Eu, que te busco como à comida
para não morrer de fome,
para não morrer de raiva,
nem de espera
ou frio...
Eu, que não guardo na boca
o teu nome
para encantar com tua luz
as noites sem graça,
para justificar incomposturas
no meio da praça
e para ousar dizer de ti
o que nem sabes...

Tudo, porque eu te quero assim:
ouvindo-me atento,
e espantado,
e sorrindo,
e sabendo...
Eu te quero pela insistência cega do querer!
Eu te quero cuidado.
Eu te quero remanso.
Eu te quero guerra,
alcançando todos os territórios de mim,
conquistando,
explodindo,
sem pausas, sem tréguas.

Eu te quero chão,
minha terra e leito,
lavoura e rio...
Quero-te ali, onde eu me deito.
Quero-te em chão macio
ou em terra molhada,
ceifarmos quando ainda é madrugada...
Quero este querer fértil...

Eu te quero sem mudança de endereço,
sem virar para o avesso,
sem virada de mesa...
Eu te quero sem mudança de hábito,
sem contrato
e sem consórcio...
Quero-te sem mudar nada de ti
ou de mim.
Eu te quero em tua casa
e te quero na minha.
Quero... Quero...
Quando estou contigo
ou sozinha,
quando me falta o que fazer
ou quando me foge o tempo.

Quero-te, portanto, para me envolver
em lugar da roupa,
para despir-te sem usar as mãos,
para dizer-te "amor" sem a boca,
para minha boca trazer-te mais que palavras.

Eu te quero em corpo
e quero alma - dilatada e pura -
para querer-te bem.
Eu te quero, enfim, poema de minha lavra,
coisa que me veio de dentro...

Eu te quero, profundamente,
no centro,
insabido,
desconhecido,
de mim.



Recife, Várzea do Capibaribe, 14 de Fevereiro de 2007. 

[Chamei-o, depois, "Explicação de Ansiedade", por um tempo apenas. Mas nem considero este um "título"... Este, virá!]

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Ao que não foi...


Frases feitas,
amores desfeitos...

Resta-me silêncio
-  em quuase resignação -
por este meu defeito
de atingir
extremos de perfeccionismo
quando escrevo,
com o tinteiro dos dias,
histórias de amor.


Luciana Cavalcanti
17 de Abril de 2010.