sábado, 11 de setembro de 2010

Meio-dia - Luciana Cavalcanti


O vento assobiando
cantigas que eu não sei.
Eu esperava, em minha boca,
o teu nome
com a graça de quem te vê.
Soube, num instante,
que saudade é isto:
este compromisso
de fazer presente
o que não está...


Natal, 27/07/2010

A primeira vez que entendi - Affonso Romano de Sant'Anna


A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou se mexendo.


De lá pra cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.


A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.

De lá pra cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.

<< telegrama >>


repeti o poema
com a voz por dentro do peito,
por ruas inteiras, quadra
após quadra,
até chegar em casa.
perdesse eu o poema,
morria de remorsos...!

Imagine! Não te trazer,
em versos,
cada palavra, atenta,
desafiando a língua,
palavra e não-palavra,
aconchego do beijo
que eu quero te dar...


Luciana Cavalcanti: Natal, Rio Grande do Norte, Julho de 2010.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

E esquecer tudo...

 
O verbo no infinito


Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar

Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.

E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito

E esquecer de tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...

 
Vinícius de Moraes
 
 
IMAGEM: Fotografia de Marcelo Zenaide.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Vida é Oferenda de Amor...


Amar E Rezar
(Pe. Zezinho)

Se eu soubesse achar um tempo a cada hora
um minuto, dois ou três pro meu Senhor
se eu gostasse de ouvir-te e falar-te ó meu Deus
eu seria melhor do que sou!

Pedir como quem sabe que tu podes!
orar como quem sabe que tu ouves nossa voz!
que alguém se interessa por nós
este alguém tem poder
quem te ama te arranja um momento. 




IMAGEM: Trabalho e labuta como quase-oferenda, sagrado suor, vida brotada do trabalho nosso. E com Fé! Fotografia de Marcelo Zenaide.

Poemas Sobre Educação - Carlos Rodrigues Brandão





I


avós e netos no meio da noite

Como teria sido a noite talvez esquecida de todas as memórias?
Uma noite primitiva e ancestral na aurora da história,
quando um pequeno ser vivo, um milhão de anos depois chamado: “homem”,
Chamou para um lugar mais perto da fogueira acesa o seu neto
e então, apontando com dois dedos da mão direita uma estrela.
entre as muitas do céu de julho, pronunciou pela primeira vez
o seu primeiro nome. Como terá sido aquela noite?
Com que gestos de um afeto rude, no entanto cheios de uma estranha luz,
mais do que a fogueira, mais do que a das estrelas do inverno
teria acontecido aquilo um dia ... no meio da noite?
Como teria sido, anterior de mil milênios
uma outra noite, mais esquecida ainda no silêncio do tempo
quando um ancestral mais antigo ainda daqueles primeiros homens
descansou sobre os ombros de um menino o peso do braço
e entre movimentos das mãos apenas, e do olhar
ensinou a ele pela primeira vez um pequeno segredo
num tempo em que debaixo das árvores e das estrelas não existiam ainda
nem mesmo as palavras, nem mesmo os nomes do mundo?
 
Como teria sido o desenho daqueles gestos sem voz
e tão humanamente simples que sob a proteção dos astros
o homem e o menino adormeceram sem de longe imaginar
que haviam feito ali o milagre de aprender-e-ensinar
para que o saber não morra, e nem as pessoas, e nem as estrelas?
Que pássaros acordados na noite e que outros seres dos céus
é que flores noturnas dessas onde só o perfume
já torna tão cheio de mistérios o mundo e a vida
terão assistido, uma vez e outra, separadas de um milhão de anos
aqueles instantes fugazes da história quando, primeiro o gesto
e, depois, a palavra, teriam criado a façanha de inventar a troca
entre os símbolos, entre os sentidos e entre os sentimentos do mundo através dos gestos da vida em consciência e em saber?
transformados naquilo a que outros, tanto tempo depois,
deram o nome de educação, entre os homens e os filhos dos homens.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Fica mal com Deus...


Fica mal com Deus, quem não sabe dar
Fica mal comigo quem não sabe amar
Fica mal com Deus, quem não sabe dar
Fica mal comigo quem não sabe amar
Pelo teu caminho vou
Vou como quem vai chegar
Quem quiser comigo ir
Tem que vir do amor tem que ter pra dar
Diga que não tem valor
Homem que não sabe dar
Deus que se descuide dele
E o jeito a gente ajeita tende a se acabar

cousas & causos...

"Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: Proibido cantar. Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem. Ou seja: Ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca".  [  Eduardo Galeano ]

domingo, 5 de setembro de 2010

Teimosamente a Vida! Força, Seu Zé!!!

Em 21 de Março deste ano, seu Zé Amâncio foi me visitar. Anunciada a visita, me veio a ansiedade... Uma vontade imensa de que chegasse logo, de vê-lo, bonito, elegante, como gosta de estar. Imaginei as conversas, o carinho, seus olhos que ou se fizeram calmos ou aprendi ler assim, sua serenidade forte. O homem bonito, trabalhador, que me fez admirar as boas artes da política... O homem que me faz olhar como é belo o trabalho. O homem que me faz apostar na dignidade, na generosidade, na amizade, como patrimônios... Meu avô. 
Espero amanhecer para devolver-lhe a visita. Aqui, estão chorando... Eu não. Acredito na força da Vida. E de Vida, aprendo muito com Seu Zé Pretinho. Minha esperança é que ele seja o velhinho mais bonito e mais sereno que abençoará meu filho.


 
Quando eu concluí o Mestrado, em momento singularmente difícil da minha vida, em meio às dúvidas e dores de uma enfermidade de mamãe e a uma depressão que me abateu, tinha algumas consciências: de que o aprendizado construído é sempre maior do que o que pode ser contido em um texto acadêmico, de que um orientador não é somente um cientista mais experiente que você a te dar dicas, é uma pessoa caminhando ao lado de outra, na construção do conhecimnto, e isto eu  devo à humanidade do professor José Batista, de que a aventura (epistemológica) da pesquisa em Educação é, sobretudo, um mergulho nos significados que  podem ter a Vida, a Humanidade e nossa (con)vivência em comum-unidade... Por isso, a dedicatória daquele esforço de trabalho (que continua...!) era a meus alunos e alunas, testemunhos vivos desta vinculação entre a Educação e a Vida (em seus sentidos), e a Seu Zé Pretinho, meu avô, um homem que me faz, enquanto educadora, apostar na riqueza do saber experiencial. O que a Vida nos diz e pede é a fonte maior das trans-formações necessárias para a humanização do Ser Humano e de seu Mundo...

'À “Seu Zé Pretinho”, José Amâncio (meu avô), porque pela Vida e pelo trabalho, ele me ensinou três grandes lições: que a generosidade e o desprendimento são caminhos seguros de se construir riquezas imperecíveis, que os acontecimentos mais simples são oportunidades de se fazer novas amizades e que o trabalho, honesto e insistente, pode não ser um fardo, mas ser permeado (também) de generosidades, desprendimentos e possibilidades abertas e certas de se consolidar afetos.'

Hoje, este "velho bonito" veio me visitar...
Sempre disse que aprendi a diferença entre política e politicagem com ele, através de seu exemplo. Agora, posso dizer também que, com ele, sigo aprendendo que a Educação na qual aposto tem mais a ver com sabedoria do  que com erudição.

- Obrigada, seu Zé!
 
Recife, 21 de Março de 2010.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Amar-Amar...


AMOR DO AMOR


por Fabrício Carpinejar


 
O que é o amor do amor?
Essa intriga ficou como uma úlcera me gastando em segredo.
Estava lustrando meus sapatos de manhã. Não renovava esse gesto artesanal desde adolescente. Retomei com gosto a importância de me agachar para as miudezas.

Despir os cadarços. Alternar a escova, a cera, e o pano. Descobrir as frestas e as ranhuras. Ocultar as pedradas da superfície, limpar os peixes de couro, reconhecer a sola e sua gula pelas profundidades pedregosas. Herdar unhas encardidas e o brilho dos pares ao final.

Os sapatos envelhecem juntos. Eles se igualam com o uso. Não há maior, nem menor. Adquirem a bondade da experiência. A generosidade da estrada.

E cheguei à conclusão de que o amor do amor é estar junto em qualquer região da linguagem.

Linguagem é mais do que lugar. Linguagem cria o lugar.

É a capacidade de dizer qualquer coisa para sua companhia e não ser classificado de grosseiro, deslocado, ridículo.

Não enfrentar uma revista ao embarcar para a viagem pelas vogais. Não ser indiciado. Desfrutar da confiança da observação e da amizade espirituosa.

Ser compreendido no ato. Ou antes mesmo.

Levar alguém para todo o país de sua imaginação.

Intimidade de olhar para a boca mais do que para os olhos, como dois apaixonados aguardando o beijo.
Quando posso ser sarcástico, debochado, pornográfico, poético, ingênuo, idiota, cínico, crédulo com uma mulher e não preciso me explicar, traduzir e pedir desculpa. E ainda parecer genuíno. E ainda parecer engraçado. E ainda parecer justo. E ainda parecer ousado.

Ser estimulado a não mentir.

Ser vários, e não perder a unidade. Ser muitos, e não perder o endereço.

Há algo mais vexatório do que brincar e outra pessoa permanecer séria? Estar se divertindo e ser julgado? Propor relações inesperadas e ser encaminhado para o chat de tortura?

Amor do amor é quando deixamos a expectativa pela esperança. Deixamos de repetir o que ela ou ele deseja ouvir, para se contentar com o que ouvimos. É uma imensa falta dentro da presença, uma imensa concordância dentro da discordância.

O amor é o contexto para aquilo que não tem explicação. O amor é sempre contexto para pensamentos desconexos, palavras excitadas.

Amor do amor é quando não nos envergonhamos de nada. Não há medo de dizer, pensar, errar. Quando o nosso pior continua sendo o melhor para quem nos acompanha.