sábado, 31 de julho de 2010

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Commonwealth: amor e pós-capitalismo

Por Bruno Cava 

Déjeme decirle, a riesgo de parecer ridículo,
que el revolucionário verdadero está guiado
por grandes sentimientos de amor
Ernesto Guevara

Antônio Negri esteve no Brasil em 2003, na sua primeira viagem internacional depois de ser libertado da prisão, após cumprir pena na Itália por sua militância nos anos 1970. Durante a década, fez outras viagens à América do Sul, para conhecer de perto os movimentos de transformação catalisados pelos governos de esquerda no Brasil, na Argentina e na Bolívia. Nessas ocasiões, ofereceu palestras, participou de congressos, foi entrevistado pelo programa Roda Viva, dividiu mesa de debates com Gilberto Gil, defendeu sem papas na língua o governo Lula e lançou um livro em que discute diretamente a realidade social latino-americana (“Global: biopoder e lutas em uma América Latina globalizada”, 2005, em co-autoria com Giuseppe Cocco).
Não me esqueço de uma passagem marcante de uma dessas vindas. À noite, no bairro de Santa Teresa (Rio de Janeiro), fora do circuito oficial de eventos acadêmicos, Negri prelecionava para um círculo de conhecidos sobre as nuances políticas de seu sistema-mundo. Lá pelas tantas, um artista performático presente interrompeu-o com impaciência: “Tá bom, Toni, mas agora fala um pouco do amor! Do amor!”. Tinha tudo pra resultar em saia-justa, mas o filósofo italiano prontamente passou a discorrer sobre o conceito de amor e sua importância capital dentro do pensamento de esquerda. Impressionou os presentes.
Tomando a sua obra, chega-se à conclusão de que não poderia ser diferente, pois o amor atravessa-a de ponta a ponta. Bebendo da inesgotável filosofia de Spinoza, em “Anomalia Selvagem” (1981) o amor já aparece como constituinte da potência revolucionária, a partir da multiplicação do desejo (cupiditas) e da força em desenvolvê-lo (vis). Tema desenvolvido posteriormente em dezenas de livros, muitos dos quais traduzidos para o português, como O Poder Constituinte, De volta, Kairós, Alma Vênus, Multitudo, O Trabalho de Dioniso, Adeus Sr. Socialismo, entre outros.
Nesse projeto, Commonwealth se propõe a inventar um novo amor.
Último livro da trilogia escrita a quatro mãos com Michael Hardt, – seqüenciando Império (2000) e Multidão (2004), – o livro saiu pela Harvard University Press no ano passado e ainda aguarda versão em português. O título não deve ser traduzido por Comunidade, mas por Comum– mas bem poderia ficar Amor e Comum. De fato, os autores declaram que o amor é essencial para a filosofia e a política. Sem ele, e sem a arte dos bons encontros que o favorece, não se pode falar em libertação e democracia. Constituir um novo homem e uma nova sociedade implica radicalizar o amor – no comum de formas de vida, bens, afetos, imagens e conhecimentos. “O amor é uma força econômica.” O amor não tem medida, é só excesso, vence a morte e opera a revolução, como princípio da organização (política) da produção. Eis aí síntese cúpida do livro de 433 páginas.
Para fazer bom proveito de Commonwealth, não é preciso recorrer à obra pregressa da parceria Negri e Hardt. O livro arremata os dois anteriores e amadurece as suas questões, problemas e conceitos. Se o robusto estofo filosófico é assegurado pelo intelectual padovano de 76 anos, a prosa fluida, simples e atlética é tributária de Michael Hardt – professor de literatura de língua inglesa. Indicado, portanto, para quem desgosta de penosos e herméticos livros de filosofia e concorda com Ortega y Gasset: “a clareza é a cortesia do filósofo.” Hardt, por sinal, é autor de uma das mais límpidas introduções ao pós-estruturalismo francês (Gilles Deleuze: um aprendizado em filosofia, 1993).

Um amor que mobiliza a cidade dos homens,
é combinação produtiva de desejos e afetos,
passa longe da família, carreira profissional e nação

Voltando ao texto, Commonwealth resgata Dante e sua noção de vita nuova. Esta se realiza na comunhão de amor que mobiliza a cidade dos homens em busca da autonomia, da riqueza e da igualdade. Amor nada sentimental, que se desdobra ética, estética e politicamente. Cupidez que é causa e consequência, em ciclo virtuoso, da liberdade e potência de cada um, na sua combinação produtiva de desejos e afetos. Portanto, amor que passa longe da família, da carreira profissional e da nação – três vilões a bloquear o comum e expropriá-lo em nome de felicidades atrofiadas, impotentes e socialmente desiguais. A família corrompe-o pela exclusividade afetiva, hierarquia paternal, narcisismo filial e mecanismos de transferência de propriedade. A carreira profissional compromete-o pela alienação do trabalho, o individualismo, o controle patronal e a concepção unidimensional de tempo. E a nação pela homogeneização das diferenças, a imposição das maiorias, a xenofobia intrínseca e os ideais abstratos de glória, sacrifício e destino coletivo.
Com efeito, todo o último livro da trilogia pode ser lido como uma sinfonia, pautada pela repetição de motivos rítmicos e melódicos, ao redor do tema do amor revolucionário. Isto é, do comum. Commonwealth consiste assim num tratado de democracia radical, numa reedição contemporânea da Política arquetípica, dividida em seis partes densamente discursivas, entremeadas por seis ensaios mais leves e de imaginação livre (De Corpore, De Homine e De Singularitate, cada qual subdividido em dois capítulos). A orquestração retorna muitas vezes às mesmas cadeias argumentativas, porém sobre territórios discursivos diferentes, que vão da ontologia à antropologia, da filosofia da história à geopolítica, da ética à economia política. Logo, corta em diagonal os campos do conhecimento, em total transdisciplinariedade.
É impróprio falar em influências teóricas do livro, uma vez que não há compromisso com rigor exegético. Deliberadamente. Na realidade, perspectivista, o texto mobiliza autores amiúde contra eles mesmos. Trata-se de achar o devir minoritário do pensador que serve de referência. Esse conceito de Gilles Deleuze designa o procedimento de seleção de linhas conceituais periféricas, ocultas, menores no sistema de outro autor – o ponto de fuga é então, por assim dizer, repatriado em nova perspectiva.
Por isso, comparece em Commonwealth um Karl Marx minoritário, extraído não da vasta ortodoxia socialista, mas dos marxianos Grundrisse – cadernos manuscritos, volumosos e não-publicados em vida, onde o autor aponta outras direções a seu pensamento. Daí a sintonia da obra com o materialismo transformador, a análise fina do estatuto do trabalho (atualmente pós-industrial) e a recusa à república da propriedade e aos direitos burgueses. Mas, ao mesmo tempo, a dissintonia com a dialética histórica, a teleologia da ditadura do proletariado e teorias do colapso do capitalismo como evento transcendente, que vem de fora para abolir as classes por decreto.
Estas teorias, aliás, são enfrentadas logo na primeira parte, sob a legenda discurso apocalíptico. Os autores têm como alvo principal o filósofo Giorgio Agamben – autor dos hits acadêmicos Homo sacer: o poder soberano e a vida nua (1995) e Estado de exceção (2003), – para quem somente uma ruptura radical, ontológica e messiânica poderia salvar a civilização ocidental de sua falência política. Negri e Hardt chegam a convocar o mitólogo Evêmero (IV a.C). No evemerismo, o foco em teorias escatológicas “eclipsa e mistifica as formas dominantes de poder que continuam a reinar hoje – poder da propriedade e do capital, poder respaldado pela lei”.
Também onipresente no texto negri-hardtiano um Michel Foucault minoritário, abduzido de seus livros e cursos do final da década de 1970. Neles, o professor do Colégio da França discorre sobre a matriz biopolítica do poder (ou biopoder). Ou seja, um governo instaurado sobre os viventes e as populações, com base em saberes biológicos, médicos, psicológicos, estatísticos. Na esteira de outro intelectual, Gilles Deleuze, Commonwealth insiste no duplo sentido do poder na filosofia de Foucault. Se por um lado, a partir do vivente, o biopoder expõe, esquadrinha, controla e assim constitui o sujeito; por outro lado, a vida possui um rendimento positivo que independe daquele. Em síntese, a resistência biopolítica não aparece a posteriori do exercício do poder e não está enclausurada irremediavelmente em sua operação de captura. A resistência precede o poder, como a sua condição. Logo, o biopoder (opressão) não se confunde com a biopolítica (resistência). A resistência é primeira. Ontologicamente.

Para produzir, o capitalismo precisa agora
conceder liberdade. Mas ela, potencializada pelo desejo,
pode dispensar o sistema – violentamente, se preciso

Em termos práticos: pode existir enfim uma saída, para contornar e subverter as malhas cada vez mais cerradas e abrangentes das sociedades de controle. Existe uma escapatória para o pensamento e a ação de esquerda, que não finde recodificada e domesticada pelo capitalismo. Existe uma alternativa para a modernidade capitalista – a altermodernidade analisada ao longo do livro. E essa saída não é ex machina, como o deus de mentira que irrompia no palco para salvar o dia, ao final das peças gregas. Para Negri e Hardt, não adianta reinventar a roda. Os movimentos de libertação já trabalham na construção do comum, num fazer multidão baseado em redes colaborativas, no trabalho imaterial, na militância glocal (global + local), na produção de renda por fora dos circuitos capitalistas de fixação/exploração do trabalho. A análise de Negri e Hardt não opera pelo lado do poder, mas sob a espécie da resistência: “As lutas pela liberdade determinam todo o desenvolvimento das estruturas de poder”.
Se para os apocalípticos e pessimistas de esquerda, há um buraco negro no horizonte, uma sociedade inteiramente submetida a dispositivos difusos e perversos de controle, para os autores de Commonwealth a sociedade contemporânea vaza por todos os lados e é o poder capitalista quem padece de um impasse. Para produzir numa sociedade pós-industrial, o capitalismo precisa conceder liberdade e promover a produtividade imanente à vida. Mas essa mesma liberdade, potencializada pelo desejo, constituída no comum, articulada em multidão, inebriada de amor, pode dispensá-lo – violentamente, se preciso. É o drama de conter um lobo pelas orelhas: se soltá-lo, ele foge; mas se continuar segurando-o, ele morde.
O novo amor de que fala Commonwealth não se traduz por otimismos poliânicos ou entusiasmos ingênuos. Não é tampouco uma nova aposta pascalina: como se fosse preciso resistir porque não teríamos outra opção. Para os autores, o amor revolucionário significa que é preciso resistir porque é desejável. Porque queremos. E se não há garantias de que, resistindo, o amanhã será melhor, podemos “reconhecer que essa contingência não deve levar a conclusões cínicas, a ignorar o fato que sim, é possível mudar a sociedade e a nós mesmos”. Afinal, a grande felicidade, fazer tudo aquilo que somos capazes em comum, a beatitude de Spinoza, conquista-se politicamente na multiplicação de vida que é a própria revolução democrática.

Poema de Chão - Luciana Cavalcanti


Para entender o chão há que se ter cuidado.
Caminhante que sabe o quanto, ao fazer caminhos,
o caminho lhe re-faz, pisa delicado,
não vai com pressa,
aprende a olhar...
Para entender o chão é preciso entender os cheiros,
esperar chuvas, atentar-se aos ventos.
Não é questão de Geografia ou Geologia...
O chão é sempre isto, mas é sempre mais.
Nunca vi chão alheio à sua gente!
O chão sabe sangrar, se maltratado,
sabe gritar, gemer, revidar.
No entanto, há gente alheia ao seu chão.
Ou não sabe aonde pisa
ou endoideceu de achar que nuvem é estrada...
Mas nuvem também respeita o chão,
por isso chove
ou se move pra enxarcar o chão d'outro lugar.

Sinos - Luciana Cavalcanti

Cantam os ventos
mais que seus sinos
e meus pensamentos,
meninos,
nada anseiam
senão correr...

Natal, Rio Grande do Norte, 27/07/2010.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Entre outras coisas...


Voltei a viajar. Nada mais esperado após o inesperado encontro com a minha vida numa curva, em colisão. O impacto sentido (e, sobretudo, o vivido) não foi simplesmente o do choque contra um poste da iluminação pública... O impacto foi o de uma colisão entre o "eu" e o "eu mesmo". Talvez, seja irônica a fala do destino ao iluminar a partir dali: postes servem para espalhar luz. Enxerguei muito.
Os olhos se abriram.
A partir de um momento único e imprevísivel, os olhos banhados em sangue veem a vida de outro jeito...
Outro jeito de viajar agora também.
Não é pelo medo (irracional e subterrâneo ainda) dos automóveis em movimento. Nem pelo corpo que reclama esforços e adianta cansaços. Mas pelos olhos, os mesmos olhos que olharam o céu a partir de uma calçada, com o corpo estendido ao chão, em avenida, no meio de um carnaval...
Aquilo tudo, não peçam que eu esqueça. Nao vou esquecer!
Soube da minha vida. Recebi-a. Era presente. Era futuro. E passado... Meu tempo. Minha história. Permaneceria. Permaneci. Era presente. Soube da dádiva.
E não fiquei ali. Continuei...
Viagem.
Aqui estou. Entre outras coisas, fazendo as malas e percorrendo estradas. Conhecendo as gentes como sempre apreciei fazer.
Olhando tudo. Percebendo a mim. Sem cerveja. Sem remorsos. Sem vaidade. Sem certeza absoluta. Talvez, amanhã: uma cerveja, um remorso, uma vaidade... Talvez. Mas não sei. E me entrego. Deliro no curso de um rio que continua.
Por esta via, não sei onde chegarei, mas tenho chegado a cada instante e isto importa. Por estas veias, corre um sague forte. Cuidou-me o corpo cicatrizar, se não tudo, muito. E cicatrizes são sinais. Aquilo que foi até chegarmos onde estamos, um lugar do Ser.
A viagem é recomeço - toda viagem o é.
Retomo minha vida na estrada. Cuido do Mundo e do meu aprendizado. Meu aprender em prol do aprendizado das gentes: como poderemos viver juntos?

domingo, 11 de julho de 2010

Para perdoar a loucura...

Uma do Torquato!


O Poeta é a Mãe das Armas


O Poeta é a mãe das armas
& das Artes em geral —
alô, poetas: poesia
no país do carnaval;
Alô, malucos: poesia
não tem nada a ver com os versos
dessa estação muito fria.

O Poeta é a mãe das Artes
& das armas em geral:
quem não inventa as maneiras
do corte no carnaval
(alô, malucos), é traidor
da poesia: não vale nada, lodal.

A poesia é o pai da ar-
timanha de sempre: quent
ura no forno quente
do lado de cá, no lar
das coisas malditíssimas;
alô poetas: poesia!
poesia poesia poesia poesia!
O poeta não se cuida ao ponto
de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo
já sabe: não está cortando nada
além da MINHA bandeira ////////// =
sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar.
Isso: ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. a
r: em primeiríssimo, o lugar.


poetemos pois

torquato neto /8/11/71 & sempre.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Um poema de Maia...


Antes fostes
Do que não
Para onde
Já voltou
Antes fostes
Não sendo
Do que não
Para o porque
Aonde agora a hora
Vais Maria?
(Carlos Maia)
Abril/83

Saída de emergência - Sérgio Leandro

Meu coração tem uma porta lateral
por onde entram e saem a todo instante
o homem que perdeu a direção,
o cão de olhos tristes,
a criança sem pai,
o poema que não foi passado a limpo...
o que sei da vida é muito pouco
para calar meus medos infantis
e acalentar o homem apavorado.
Meu coração tem uma porta lateral
por onde arrasto um punhado de canções
para alegrar o cão de olhos tristes,
a criança sem pai,
e o homem apavorado.


13/02/2009
 
 
 
 
EM TEMPO: Carlos Maia publicou em seu Blog essa maravilha de poema. Sua seleção é farta, sortida e certeira! Para visitar o Blog do poeta Carlos Maia é só clicar Aqui!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

DA INAUGURAÇÃO DO POEMA - Ângelo Monteiro



DA INAUGURAÇÃO DO POEMA


Falar não basta a quem nasceu com o fado
de espalhar a beleza e o dom de amar.
A palavra só vale, se gerar
alguma coisa além do formulado.


De harmônica leveza no traçado,
que seja a frase aérea e linear.
Sem que se deixe nunca de lembrar
que a ordenação não peque pelo enfado.


Lúcido, quanto à forma; e quanto à essência,
que determina a forma do poema,
é mister se elabore em chão de ausência.


Colhendo o inesperado e o pressentido:
pois foi sempre no verso lei suprema
de que só no mistério tem sentido.

sábado, 3 de julho de 2010

promessa. luciana cavalcanti

Um dia me desfaço
desse jeito sério, eu juro.
E vou pichar, por você,
poemas no muro.

Luciana Cavalcanti



Imagem: São poemas, do Leminski, com que alguém presenteou a rua...