quarta-feira, 30 de junho de 2010

Time Out



Para ganhar conhecimento, adicione coisas todos os dias. Para ganhar sabedoria, elimine coisas todos os dias.

                                                               Lao-Tsé 




Sobre o amor
Gibran Khalil Gibran

" O amor não tem outro desejo além de satisfazer a si mesmo.
Mas se vós amais e precisais ter desejos, que sejam estes os vossos desejos:
Derreter e ser como um riacho que corre e canta sua melodia para a noite.
Conhecer a dor do carinho demasiado.
Ser ferido pela vossa própria compreensão do amor, e sangrar por vossa
própria vontade e com alegria.
Acordar ao amanhecer com o coração leve
e agradecer por mais um dia de amor;
Descansar ao meio dia e meditar sobre o êxtase do amor;
Voltar para casa ao entardecer com gratidão;
E então dormir com uma prece ao bem-amado em vossos corações
e uma canção de louvor em vossos lábios."

[Do livro "O Profeta"]

terça-feira, 29 de junho de 2010

Poema da inteireza





O Ser, parte à parte,
é sempre inteiro.
Alma, que é luzeiro,
sem o corpo não se acende.

Ninguém de nós se entende
em partes ou parcialmente,
dor e graça que se sente
é sempre verdade inteira.

A Vida, verdade verdadeira,
sempre ensina e não se repete.
Ninguém a gigante se mete
quando experimenta sua fundura.

Nisto, o segredo da cura
do Ser, em espírito e matéria,
nossa realidade etérea
revela-se em carne e osso...

Por isso, cada esforço,
deve servir ao não ser parte,
encontrar-se com riso e arte,
em tudo, sempre inteiro.




luciana cavalcanti..................... 20 de maio de 2010

[aprendente do cuidado de mim para comigo e a Vida, rabisquei um poema pra não reclamar da dor sentida. o poema é parte das lições, aprendidas e vividas cotidianamente, no processo de recuperação, na Fisioterapia. não é de verso largo, como seria justo, mediante minha gratidão, mas é honesto e límpido. nele, reverberem o respeito e o carinho por Augusta, Felipe e Kátia. não há bem maior que sentir-se bem...!]

À tona dos olhos... o Infinito.


"Mundo, mundo, vasto mundo!"
E o Universo, então?!?
Infinitas são as coisas belas. Infinita a vida.

Vale um passeio, recomendado por meu amigo Alex, para conferir as imagens de dez nebulosas no espaço infinito... São fotografias impressionantes. Belo! Belo! Clica aqui e Vai lá...!

Escreva livros. Plante árvores. Gere filhos...

A internet viabiliza muitas coisas. Este blog é um exemplo... Antes da liberdade dos navegantes comuns como nós podermos "criar conteúdo" na web, essas palavras, aqui soltas, estariam numa gaveta. E olhe que gavetas neste apartamento são o caos!!!! Acalento meu sonho e cuidado de, um dia, ter esses poemas impressos em livros neste espaço. Deixo minha poesia, acidental e pouca, ir-se derramando enquanto espero a paciência e a coragem de gerar um livro.
Também na internet, diariamente, planto árvores...  No Site da SOS Mata Atlântica, organização à qual sou associada, e que criou um programa chamado Click Árvore, onde os clicks dos internautas convertem-se em mudas para doação e consequente reflorestamento. Você também pode fazê-lo! Basta cadastrar-se e clicar!
Livros e árvores. Resolvido...
Mas... e quanto ao filho?!? Beeeeeem, aí a internet não pode fazer absolutamente nada! E nem quero que o faça. Quero meus filhos feitos de carne e sonhos. 

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Renovação - Luciana Cavalcanti

Renovação

Quanto amor
esparramado no sofá,
espalhado nas gavetas,
solto entre os discos,
acumulado na pia
e misturado à louça suja...
Quanto amor
impresso em camiseta,
sorrindo nos outdoors,
anunciado nos classificados
sem preço de venda – é uma troca.
Quanto amor nas esquinas,
na padaria, na praça,
no ponto de ônibus,
na vídeo-locadora...
Tanto amor que até cansa.
E, então, cansada, adormeço.
Adormecida, te sonho...
Sonhando-te, amo de jeito novo,
Sem ensaio nem rito,
De um jeito natural e bonito,
Assim como viemos ao Mundo!

.......................... Luciana Cavalcanti

Do Paulinho e do Elton - Verso bom. Samba maior!


... "Canto
Pra dizer que no meu coração
Já não mais se agitam as ondas de uma paixão
Ele não é mais abrigo de amores perdidos
É um lago mais tranqüilo
Onde a dor não tem razão
Nele a semente de um novo amor nasceu
Livre de todo rancor, em flor se abriu
Venho reabrir as janelas da vida
E cantar como jamais cantei
Esta felicidade ainda

Quem esperou, como eu, por um novo carinho
E viveu tão sozinho
Tem que agradecer
Quando consegue do peito tirar um espinho
É que a velha esperança
Já não pode morrer..."

...vou deixar a casa aberta!

ai! ardido peito
quem irá entender o teu segredo?
quem ira pousar em teu destino?
e depois morrer do teu amor?

ai! mas quem virá?
me pergunto a toda hora
e a resposta é o silêncio
que atravessa a madrugada

vem meu novo amor
vou deixar a casa aberta
já escuto os teus passos
procurando meu abrigo

vem, que o sol raiou
os jardins estão florindo
tudo faz pressentimento
que este é o tempo ansiado
de se ter felicidade.


 
       ["pressentimento", de Elton Medeiros e Herminio Bello De Carvalho]

Um poema russo - do Blog do Dodô

"Recordo o luminoso instante
quando eu, tomado de surpresa,
te vi: súbita imagem, diante
de mim, da essência da beleza.

Desenganado e triste, a sós
no caos do mundo, ouvi durante
anos, em mim, a tua voz
vi, no meu sonho, teu semblante.

Passou o tempo; um vento atroz
varreu meu sonho ao seu talante,
e não ouvi mais tua voz,
deixei de ver o teu semblante.

Minha existência se esvaía
no exílio inóspito e incolor,
sem vida, lágrimas, poesia,
sem divindade nem amor.

Reapareceste e nesse instante
minha alma despertou surpresa;
revi, súbita imagem diante
de mim, a essência da beleza.

Meu peito, cheio de alegria,
bate de novo; há no interior
dele outra vez vida, poesia,
lágrimas, divindade, amor." 
 

Alexandr Sergueievitch Púchkin, poeta russo.

tradução de Bóris Schnaiderman e Nelson Ascher.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

De voôs e poemas...

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso,
nem porto,
alimentam-se um instante em cada
par de mãos
e partem.
E olhas, então, estas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

(Mário Quintana)

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O cara do sonho de ontem...



E ele me apareceu de novo esta noite. E sorriu...

"E assim como sei que toda a minha vida foi uma luta para que ninguém tivesse mais que lutar..."

Pedro, meu filho...

Vinicius de Moraes


Como eu nunca lutei para deixar-te nada além do amanhã indispensável: um quintal de terra verde onde corra, quem sabe, um córrego pensativo; e nessa terra, um teto simples onde possas ocultar a terrível herança que te deixou teu pai apaixonado - a insensatez de um coração constantemente apaixonado.
E porque te fiz com o meu sêmen homem entre os homens, e te quisera para sempre escravo do dever de zelar por esse alqueire, não porque seja meu, mas porque foi plantado com os frutos da minha mais dolorosa poesia.
Da mesma forma que eu, muitas noite, me debrucei sobre o teu berço e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua.
E porque vivemos tanto tempo juntos e tanto tempo separados, e o que o convívio criou nunca a ausência pôde destruir.
Assim como eu creio em ti porque nasceste do amor e cresceste no âmago de mim como uma árvore dentro de outra, e te alimentaste de minhas vísceras, e ao te fazeres homem rompeste meu alburno e estiraste os braços para um futuro em que acreditei acima de tudo.
E sendo que reconheço nos teus pés os pés do menino que eu fui um dia, em frente ao mar; e na aspereza de tuas plantas as grandes pedras que grimpei e os altos troncos que subi; em tuas palmas as queimaduras do Infinito que procurei como um louco tocar.
Porque tua barba vem da minha barba, e o teu sexo do meu sexo, e há em ti a semente da morte criada por minha vida.
E minha vida, mais que ser um templo, é uma caverna interminável, em cujo recesso esconde-se um tesouro que me foi legado por meu pai, mas cujo esconderijo eu nunca encontrei, e cuja descoberta ora te peço.
Como as amplas estradas da mocidade se transformaram nestas estreitas veredas da madureza, e o Sol que se põe atrás de mim alonga a minha sombra como uma seta em direção ao tenebroso Norte.
E a Morte me espera em algum lugar oculta, e eu não quero ter medo de ir ao seu inesperado encontro.
Por isso que eu chorei tantas lágrimas para que não precisasse chorar, sem saber que criava um mar de pranto em cujos vórtices te haverias também de perder.
E amordacei minha boca para que não gritasses e ceguei meus olhos para que não visses; e quanto mais amordaçado, mais gritavas; e quanto mais cego, mais vias.
Porque a poesia foi para mim uma mulher cruel em cujos braços me abandonei sem remissão, sem sequer pedir perdão a todas as mulheres que por ela abandonei.
E assim como sei que toda a minha vida foi uma luta para que ninguém tivesse mais que lutar:
Assim é o canto que te quero cantar, Pedro meu filho...

"Eu tenho vergonha de mim" - Rolando Boldrin

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Tempo demais...



um pouco mais de tempo
e será incontável a espera
por luzes sobre as flores,
por musgo e relva
a insistir vivamente
nos caminhos...
um pouco mais de tempo
e parecerão ínfimos
esses poucos anos
entre o riso e o assombro.
hoje, no entanto,
amanheci
e isto basta para que eu veja
todas as flores, todas as cores,
aqui presentes.
tudo pulsa. E aí é quando
um pouco mais de tempo
é sempre infinito.

Diálogos...

Recebi, por e-mail, questões levantadas pelo pedagogo (e amigo) Edelson Albuquerque Júnior sobre as recentes tragédias ocorridas no Estado de Pernambuco. São questões que merecem reflexão nossa. São também questões que carecem de respostas em mobilização política e, para além da solidariedade, de indignação. É preciso transformar o que já ninguém mais quer engolir...! Assim escreve o amigo Edelson:
 
Prezados/as,

Quem vai se responsabilizar pelo estado no qual encontram-se várias cidades do Estado de Pernambuco, assim como algumas regiões na cidade do Recife?

Até quando as fortes/longas chuvas vão ser impostas como culpadas dessas tragédias que se repetem a cada ano em nosso Estado?

Quem são as pessoas que estão sofrendo diretamente com essa situação e quem deveria evitá-la?

Até quando vamos ter que manter uma estrutura mafiosa de sociedade que sobrevive de nosso sangue, e que faz das tragédias apenas mais um fato?
--
Um forte braço!
Viva a PRÁXIS!
Edelson.

Notícias: o Drama de Barreiros...

Clicando no título, temos um link, e você será redirecionando às fotos do município de Barreiros/PE divulgadas no Blog do Jamildo.

Certas canções que ouço...


letras de músicas no letras.com.br

domingo, 20 de junho de 2010

Pernambuco e as últimas chuvas...

Apenas uma recomendação: olhar o álbum de fotos da Equipe do JC On Line em Palmares Hoje, 2o de Junho de 2010, domingo.

Basta clicar no título desta postagem.


De "onde o chão se acaba" - Maria José Quintela



cedo aprendemos a reconstruir a partir do caos. em forma de remendo ou de remédio. conserto tantas vezes da índole do definitivo. e se a vida nos balança de um extremo para o outro não será por contradição ou desordem de pensamento e sim por absoluto imperativo de um choque frontal que nos obrigue a distinguir e a apartar o fogo do gelo para escapar ao território morno onde se cozinha o desencanto.
a ruptura é uma variedade de bálsamo que primeiro arde e depois cura.

sábado, 19 de junho de 2010

Poesia reunida - Luciana Cavalcanti




1. Diagnóstico

Sofro quando amo.
Sofro quando não amo.
Sofro pelo simples ato
de pensar o que seja o amor.

Sofro o passado morto.
Sofro o presente insípido.
Sofro o futuro incerto
e a agonia de sentir o tempo.

Sofro gastrite crônica
e detesto tomar remédios.
Sofro desgaste de ser
alguém que ama
e desama,
alguém que pensa
e reclama,
alguém que passa,
como tudo,
mas recusa-se a morrer!

2. Apontamentos (II)

Desisti dos discursos longos,
dos argumentos todos
que se pretendem irrefutáveis;
das noites irresponsáveis também
– contraditoriamente.
E desisti de jogar o tempo fora,
de jogar “porrinha” na mesa dum bar...

Da ciência estéril,
da vã teologia,
dos risos facílimos,
das leituras densas,
do medo de morrer e,
ainda, da vontade do mesmo,
pois ficar é,
por hora,
um protesto silencioso,
uma vontade de rir incontrolável
– ou paixão contida?!?

Desisti de conter,
de contar,
de concluir.
E de protestar,
de adiar,
de resistir...

Quero sorver à Vida
como ao suco,
abraçar ao Mundo
como a teu corpo
com tudo o que sirva
ao gesto de estreitar objeto e desejo.

E quero, ainda, correr
ao mar como à poesia – com sede, calor, ânsia.
Fazer versos como quem se molha de chuva
antes do trabalho
(e perde a pompa toda, a elegância)...
Dispensar palavras na boca
que deseja traduzir-te a poesia
e sorrir
(precisamente como fazes)
ao perceber que entendestes
o recado, sem sombras
de dúvidas.




3. Erro
(Setembro de 1996, Recife)

Folhas secas. Galhos secos.
Apenas o resto de um verde que já não há,
Do verde-esperança,
Do verde-bandeira,
Verde-paisagem.

Rouca voz. Grito vão.
Apenas tentativa de pedir socorro,
De pedir sossego,
De pedir esmola,
Pedir atenção.

Olhos embaçados. Visão turva.
E a última tentativa de fugir da sombra,
De fugir do caos,
De fugir do medo,
Fugir do nada.

Recriar. Reacender a chama.
O último desafio que valerá a pena,
Que valerá a chaga,
Que valerá o pranto,
E faz valer o erro.


4. Sinopse

Eu não
acredito no Amor,
meu amor.
Não me faça promessas,
não me acredite feliz,
nem vá convencer-se
por qualquer sorriso meu...

Eu não vou
procurá-lo se, acaso,
em meio às minhas palavras,
você se perder.

Eu tenho tantos
silêncios, amor, escute.
Você ainda não sabe,
nunca me viu chorar.
Eu vivo por você...
E morro por você. Mais nada.

5. Arquivo

Não sei se corre
ou se morre,
o tempo que visita meu quarto.

É esquivo ou solícito?

Não sei se o procuro,
ou se aguardo...

E se o tempo telefonar?
O que digo?
Direi (talvez) que sinto sua falta.

Ou lembrarei que está em dívida comigo
- um favor ainda não atendido...

Não sei se me leva
ou me esquecerá,
diante de tantos detalhes ao fazer as malas...

Quando partir o tempo,
terei partido?
Ou ficarei no quarto
a olhar as fotos
de Amor Antigo?

6. Passos

Caminha.
Até te sentires, na busca, ridículo.
Até sentires como patético o insistir.
Até que te vejas malvisto.
Até que te digas maldito.
Até que te queiras malquisto.

Então, te sentirás distante,
Ou sentirás que és disperso?

Em êxtases de crença ou dúvida,
Caminha...
E sorve essências de absoluto, ínfimo
Ou nada
Até sentires o não-sentir.

7. Investimento

Volto do mar
cheia
de futuros.
Escondo horizontes
por baixo das mangas
e não acredito
em má-sorte:
aposto alto,
especulando amores,
para ser feliz, depois,
e com juro.

8. Descuido

Traduzia o tempo em pressa
para matar a fome
e saciar a sede,
para revelar-se inteiro
e já não fingir a ausência
do amor estampado no rosto
diante do espelho.

Chegada a hora de esgotar
os argumentos todos
dos ponteiros do relógio
para sentir-se, enfim, liberto,
solto, todo o desejo.

Agora, o sonho danou-se no Mundo,
matou aula
e foi ver o mar...
exilou-se na rua. Fez-se boêmio:
embriagou-se
cantou
fez poesia
olhou a lua...e julgou-a bem vadia,mas deixou-se enamorar.

9. Pontualmente
aprendi a espera,
mas isto não é, de modo algum,
um mérito,
tampouco acrescenta-me crédito,
aprendi a mentir, em verdade.

retiro um sorriso
esquecido nos bolsos e o gasto
sem pensar
nos encontros de amanhã...
reinvento-me nas horas.

já não tenho pressa alguma.
amanhã será (um pouco) o que eu pedi.
amanhã serei o que me fizer. eu sei
que não preciso me gastar em vão
e, então, me dou inteira em tudo...


EM TEMPO: Logo os poemas aqui escolhidos estarão na Toca da Serpente, no Site Garganta da Serpente. Vale conferir!


Poemas. Poemas.

 
 
Classificados
 
 
procura-se
alguma poesia que se solidarize
com minha paixão sem nome,
meus mil naufrágios sem barco.

ainda ontem imaginei ter cruzado
com a solidão na esquina.
senhora magra, altiva
e bem arrumada,olhou-me de revés
e não mo respondeu o "boa noite"...
pensei que isto fosse o fim do Mundo!

qual nada! o Mundo continua...
e eu, cá, sem poesias que me falem...
porque ontem, senhores, a solidão
me negou sua palavra.

[ luciana cavalcanti ]

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Minutos, dias - José Saramago

Minutos, dias

Por Fundação José Saramago
 
Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais.

In Levantado do Chão, Ed. Caminho, 14.ª ed., p. 59
(Selecção de Diego Mesa)

Andar. Andar. Voar. Voar...!



Voar voar, subir subir ir por onde for
Descer até o céu cair ou mudar de cor
Anjos de gás, asas de ilusão
E um sonho audaz feito um balão
No ar no ar eu sou assim brilho do farol
Além do mais amar no fim simplesmente sol
Rock do bom ou quem sabe jazz
Som sobre som bem mais bem mais
O que sai de mim vem do prazer
De querer sentir o que eu não posso ter
O que faz de mim ser o que sou
É gostar de ir por onde ninguém for
Do alto coração mais alto coração
Viver viver e não fingir esconder no olhar
Pedir não mais que permitir jogos de azar
Fauno lunar sombras no porão
E um show vulgar todo verão
Fugir meu bem é ser feliz só no pólo sul
Não vou mudar do meu país nem vestir azul
Faça o sinal cante uma canção
Sentimental em qualquer tom
Repetir o amor ja satisfaz
Dentro do bombom há um licor a mais
E até que um dia chegue em fim
Em que o sol derreta a cera até o fim
Do alto coração mais alto coração
Do alto coração mais alto coração



["sonho de Ícaro", de Piska e Cláudio Rabello]






Estava escolhendo fotos de viagens e escutando "Sonho de Ícaro" quando li a notícia da morte de Saramago. Havia lido a sua última postagem no blog antes do meu acidente (um dia antes), verifiquei, depois, que não era ele próprio a postar... Este post não seria sobre ele. Mas, agora, pouco importa sobre o que seria este post. Pertinentes a canção, as imagens e, sobretudo, a grandeza do gesto aprendiz de viajar! 
Saudações, Saramago!

Sonho de Ícaro...


"Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar" (José Saramago)

Saramago morreu. E tenho pouco mais que um silêncio contrito...


Tive febre novamente. Algumas dores que me impediram de fazer qualquer coisa... dormi ao chegar em casa, depois da Fisioterapia. Faz pouco tempo, liguei o computador e descubro que José Saramago morreu. A mesma sensação, entre o inconformar-se e o esperançar, de que estes seres imensos, os grandes pensadores, os grandes escritores, grandes poetas, deveriam experimentar na carne a eternidade de suas palavras.
O mundo, apequenado pelos seres humanos, carece de gente grande, ciente de sua humanidade.
Saramago, homem lúcido, entendeu tantas coisas e partilhou-as, para o nosso entendimento, em uma humanidade cada vez mais incompreensível...

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Hai-quase... - o amor em pedaços

Por que é que a gente sente,
quando o amor vem chegando,
uma ansiedade adolescente?

Pequenas considerações para um repertório amoroso...


***
O amor nunca finda. O que tem fim, em nós, é a disposição de manter alguns laços.

***
O convívio  desgasta apenas aquilo que não é amor...

***
Se a afinidade e o respeito não vem antes do desejo, esqueça! Não é amor.

***
Vontade de amar não é já amor. A sinceridade diante de si mesmo e do outro nos mantém distantes da fraude.

***
Talvez, não exista amor à primeira vista. Mas, certamente, depois da décima quinta vista se pode presumir que o amor não virá...

***
Amei algumas vezes na vida, antes de chegar aqui. E isto tem a máxima importância... Amor é aprendizado vivencial.

***
Seria capaz de enamorar-me de uma estrela qualquer ou outro luzeiro. Mas preferi teus olhos...

***
Mais difícil que bem posicionar os braços para uma fotografia: cuidar dos mesmos braços antes que o amor nos permita o esperado abraço.

***
Exímio orador perdeu-se entre palavras tolas e se riu! Estava amando...

***
O amor que, irredutíveis, esperamos, passou faz tempo!

***
Apesar de podermos conjugar o verbo em tempos futuros e pretéritos, amar é sempre presente.

***
Acreditei que nunca se perde tempo amando... De fato, amando não perdemos nada, nem tempo. Mas perdemos muito buscando doar amor a quem não se dispôs a recebê-lo.

***
Realismo amoroso não é a negação do sonho. É bom sonhar amando! Sobretudo, quando se dorme abraçado...

terça-feira, 15 de junho de 2010

Boa noite, Thiago de Mello!

A fruta aberta
Thiago de Mello


Agora sei quem sou.
Sou pouco, mas sei muito,
porque sei o poder imenso
que morava comigo,
mas adormecido como um peixe grande
no fundo escuro e silencioso do rio
e que hoje é como uma árvore
plantada bem alta no meio da minha vida.


Agora sei as coisa como são.
Sei porque a água escorre meiga
e porque acalanto é o seu ruído
na noite estrelada
que se deita no chão da nova casa.
Agora sei as coisas poderosas
que valem dentro de um homem.


Aprendi contigo, amada.
Aprendi com a tua beleza,
com a macia beleza de tuas mãos,
teus longos dedos de pétalas de prata,
a ternura oceânica do teu olhar,
verde de todas as cores
e sem nenhum horizonte;
com  tua pele fresca e enluarada,
a tua infância permanente,
tua sabedoria fabulária
brilhando distraída no teu rosto.


Grandes coisas simples aprendi contigo,
com o teu parentesco com os mitos mais terrestres,
com as espigas douradas no vento,
com as chuvas de verão
e com as linhas da minha mão.
Contigo aprendi
que o amor reparte
mas sobretudo acrescenta,
e a cada instante mais aprendo
com o teu jeito de andar pela cidade
como se caminhasses de mãos dadas com o ar,
com o teu gosto de erva molhada,
com a luz dos teus dentes,
tuas delicadezas secretas,
a alegria do teu amor maravilhado,
e com a tua voz radiosa
que sai da tua boca
inesperada como um arco-íris
partindo ao meio e unindo os extremos da vida,
e mostrando a verdade
como uma fruta aberta.


(De Thiago... "Sobrevoando a Cordilheira dos Andes, 1962")

Por tudo e para sempre, Obrigada!

 

Gracias A La Vida

Violeta Parra
 
 
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió dos luceros que cuando los abro
Perfecto distingo lo negro del blanco
Y en alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre que yo amo
 
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado el oído, que en todo su ancho
Traba noche y dia grillos y canarios
Martirios, turbinas, ladridos, chubascos
Y la voz tan tierna de mi bien amado
 
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario
Con él las palabras que pienso y declaro
Madre, amigo, hermano y luz alumbrando
La ruta del alma del que estoy amando
 
Gracias a la vida,que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la casa tuya, tu calle y tu patio

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió el corazón que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano
Cuando miro el bueno tan lejos del malo
Cuando miro el fondo de tus ojos claros
 
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto
 
Gracias a la vida!

Boa noite! Não esqueci: ontem foi 14 de Junho...

 

Fio de vida
Thiago de Mello

Já fiz mais do que podia
Nem sei como foi que fiz.
Muita vez nem quis a vida
a vida foi quem me quis.

Para me ter como servo?
Para acender um tição
na frágua da indiferença?
Para abrir um coração

no fosso da inteligência?
Não sei, nunca vou saber.
Sei que de tanto me ter,
acabei amando a vida.

Vida que anda por um fio,
diz quem sabe. Pode andar,
contanto (vida é milagre)
que bem cumprido o meu fio.






- "Gracias a la vida, que me ha dado tanto"!!!

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Bom dia, Carlos Drummond!

Memória


Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Cidades e amores...


O poeta Lêdo Ivo, ao cantar seu amor por Recife, esclamara: "amar mulheres, várias! Amar cidades, só uma: Recife..." e segue versejando afetos pela cidade de pontes e poetas. Após uma semana em Teresina, por fim, tive a possibilidade de andar bastante em busca de um mergulho na cultura, nas gentes, na História, nas memórias, na Geografia...
Ontem, ao descer do ônibus, vindo da UFPI, dei de cara com o Museu do Estado do Piauí. Que fiz? Entrei! Mas nutria a vontade de ir no encontro dos Rios Parnaíba e Poti e de adentrar a Casa da Cultura por cuja calçada passei duas ou três vezes... Hoje o fiz. Além de caminhar no comércio popular. Teresina tem um centro comercial pulsante, agitado e, interessante, achei tudo muito semelhante à Rua das Calçadas e arredores do Mercado de São José. Não há pátios, porém. E há poucas igrejas. Deve ser por conta da cidade não ser colonial. Cidade jovem, Teresina comemorou seus 150 anos um dia desses!
Gosto das cidades. Percorro-as com olhar atento. Em Delmiro Gouveia quase não andei a pé - o que estranhei. Já em Piranhas, saciei minha sede de Rio São Francisco, guardada desde Petrolina. Aprendi a amar outras cidades. Amor que não trai nem troca Recife. Permaneço leal à cidade que carrego por dentro de mim por onde vou. Nos livros de visitas de museus, assino e destaco, ao lado do nome, Recife/Pernambuco. Recife viaja comigo e percorre outras cidades. É um olhar recifense que percorre e descobre Teresina.
Amores, de fato, são assim. Impossível amar alguém sem histórias, sem memórias. "Gente é outra delícia". A delícia está na diferença. Na diferença e na descoberta. O mesmo, o previsível, não excitam, não atraem. Moro em uma cidade que me surpreende. Saio de Recife carregando-a comigo e retorno a Recife trazendo outros lugares comigo... Re-conheço Recife, então. E gente, "gente é outra delícia". Há que se percorrer geografias e histórias das gentes para poder amá-las. Percorrer espaços e memórias com a experiência (e, por vezes, a esperança) que trazemos, mas também reconhecendo a novidade do outro, sem tentar enquadrá-lo ao nosso querer.
Amantes seriam melhores em seu exercício de amar se aprendessem a viajar, a agradar as pessoas que nos acolhem mundo afora, a encontrar identificação nas coisas de outro lugar. Amar é deslocar-se. Acontece que pouquíssima gente quer sair de si mesma.
Descobrindo Teresina, ao caminhar, escutei, involuntariamente, duas fracassadas histórias de amor, três brigas ao telefone e um daqueles aconselhamentos de arrepiar de uma suposta melhor amiga...! Ainda bem que o comércio da cidade respira verde-e-amarelo e raramente se vê referências ao Dia dos Namorados. Imagine só: precisar reconhecer a crucial ignorância humana em questões de amor às vésperas de dia tão simbólico...! Devem ser os preços! Talvez... as pessoas estão brigando porque amar na sociedade de consumo tornou-se um custo muito alto. Talvez... mas são detalhes. "Detalhes", como cantaria o Rei Roberto e inspiraria o nome de Motel no caminho do Encontro dos Rios. Confluências, no entanto, são coisas muito grandes pra esquecer. O Amor é inconfundível.

Depois da discussão...

Mulher I: - (...). Suspiro.
Mulher II - Qualquer idiota entenderia o que você falou...!
Mulher I - Acontece que ele não é qualquer idiota!!!
Mulher II - Tem razão! Ele é um grande idiota!

Da aplicabilidade do Romantismo ao cotidiano na Sociedade Pós-Industrial...



- (...)
- Amor, onde eu coloco a minha disposição de dar a vida por você?
- Não sei. Estou atrasada... Você me lembra isto depois?!?
- Mas, eu sou muito desorganizado... Preciso adequar os espaços de meu amor.
- Ok, Bem, te compreendo... Mas, de fato, agora, não dá!
- Vai sair sem tomar café da manhã?
- A essas horas, o trânsito já está um inferno...!
- Quando eu faço o mesmo, você reclama...
- Pega uma maçã pra mim?!?
- Só chega à noite?
- Hoje é quinta-feira...
- Janto na padaria, então...?
- Não esqueça de pedir à secretária que me passe um memorando!
- A respeito de...?
- De sua disposição de dar a vida por mim... Cadê a maçã?!?

"Meu coração vai nas águas do rio..."




Enquanto o motorista do táxi falava um dialeto longíquo, entre o Português e a Saudade, eu descobria o Parnaíba com os olhos... De sua fala, profundamente arrancada, destacavam-se as palavras "rio", "grande" e "velho". Num dado momento, percebi que ele não falava comigo ou, pelo menos, não só comigo. Exclamou: "Ê, Poti!", "Ê, Parnaíba!". E, de novo, eu penso que os rios guardam os corações das cidades. Saudades de meu Capibaribe (conhecido de olhos e pele). Memórias de Tietê, São Francisco, Una... e constatar que não sei o nome do rio que passa por sob a ponte onde tanta vez, eu menina, corria a ir ver a placa de inauguração onde consta o nome de meu avô, àquele tempo vereador na pequena Colônia.
De súbito, me rio de ter confundido nomes e ter chamado, ao Parnaíba, Paranoá. Ao ouvir nome estranho ao seu afeto, o motorista de outro táxi, em meu primeiro dia em Teresina, interrompeu por brevíssimos segundos a simpatia colada aos risos dos teresinenses: "Parnaíba!", disse secamente... A confusão de nomes revela a estrangeirice, distância. Não se confundem nomes aos amores. Imagine-se chamar, ao Capibaribe, Pajeú! Não! Inadimíssivel...
Acontece que a Geografia dos afetos não carece de mapas, é cravada nas memórias, tem cheiro e cor. Conhece-a quem cresceu vizinho a um rio, monte, prainha... Os viajantes, esses ignorantes, tateiam, às escuras, as paredes da História em busca de coisas que iluminem o olhar. 


Há um Museu do Rio onde os dois corações da Cidade Verde se encontram. Objeto da coleção é a variedade de peixes de Parnaíba e Poti. No restaurante flutuante de onde se avista o encontro das águas, também se bebe cajuína gelada.
Ponho meus olhos onde se abraçam dois rios. Um deles, fronteira entre Piauí e Maranhão... Mas rio não tem fronteiras. Sua vocação é o sem-fim. Sabem-no os homens desde Nilo e Ganges, Indo e Amarelo. Sei-o desde Capibaribe. 
Para meus pais, à beira de dois rios, levo imagens (de talhe singular piauiense!) de São Francisco em madeira (Madeira!). Os rios dizem nós... Abraço a minha irmã, avizinhada de um novo rio, e digo a pai e mãe que povo de rio, ganha o mundo, mas sabe de sua casa, seu lugar.
E se Pessoa disse em seu poema que não há rio maior que o rio de sua aldeia, creio ter mais sorte, minha saudade inventa novos afetos: em cada rio levo o rio de minha aldeia.