segunda-feira, 31 de maio de 2010

Para viver um grande amor...

O novo de novo...!



Para viver um grande amor
Vinicius de Moraes / Toquinho


Cantado

Eu não ando só
Só ando em boa companhia
Com meu violão
Minha canção e a poesia

Falado

Para viver um grande amor, preciso
É muita concentração e muito siso
Muita seriedade e pouco riso
Para viver um grande amor
Para viver um grande amor, mister
É ser um homem de uma só mulher
Pois ser de muitas - poxa! - é pra quem quer
Nem tem nenhum valor
Para viver um grande amor, primeiro
É preciso sagrar-se cavalheiro
E ser de sua dama por inteiro
Seja lá como for
Há que fazer do corpo uma morada
Onde clausure-se a mulher amada
E postar-se de fora com uma espada
Para viver um grande amor


Cantado

Eu não ando só,
Só ando em boa companhia
Com meu violão
Minha canção e a poesia

Falado

Para viver um grande amor direito
Não basta apenas ser um bom sujeito
É preciso também ter muito peito
Peito de remador
É sempre necessário ter em vista
Um crédito de rosas no florista
Muito mais, muito mais que na modista!
Para viver um grande amor
Conta ponto saber fazer coisinhas
Ovos mexidos, camarões, sopinhas
Molhos, filés com fritas, comidinhas
Para depois do amor
E o que há de melhor que ir pra cozinha
E preparar com amor uma galinha
Com uma rica e gostosa farofinha
Para o seu grande amor?


Cantado

Eu não ando só
Só ando em boa companhia
Com meu violão
Minha canção e a poesia


Falado

Para viver um grande amor, é muito
Muito importante viver sempre junto
E até ser, se possível, um só defunto
Pra não morrer de dor
É preciso um cuidado permanente
Não só com o corpo, mas também com a mente
Pois qualquer "baixo" seu a amada sente
E esfria um pouco o amor
Há que ser bem cortês sem cortesia
Doce e conciliador sem covardia
Saber ganhar dinheiro com poesia
Não ser um ganhador
Mas tudo isso não adianta nada
Se nesta selva escura e desvairada
Não se souber achar a grande amada
Para viver um grande amor!

Cantado

Eu não ando só
Só ando em boa companhia
Com meu violão
Minha canção e a poesia


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São demais os perigos desta vida
Toquinho – Vinicius
RGE . 1972

© Tonga Editora Musical LTDA


Ficha Técnica da Faixa:
Voz: Vinicius de Moraes
Voz e violão: Toquinho

Um lugar do Mundo: Piranhas/Alagoas, 2010

Poema dos olhos da amada - Vinícius de Moraes

Poema dos olhos da amada


Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus...

Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...

Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus.

Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.


domingo, 30 de maio de 2010

Fé - Luciana Cavalcanti


Fé


Não conheço a Cabala.
Tampouco li o Corão.
Não contei quantas forças
e fraquezas trouxe Eva,
do homem, na costela de Adão.

De um coágulo de sangue,
preso a material cirúrgico
entre as minhas costelas,
Deus fez o milagre
de eu me descobrir barro...

Não o temor da Morte,
mas o pavor dos dias, todos,
em que não tenho vivido...
Eu, que não li o Mahabaratha
e desconheço a sabedoria dos Vedas!

Moisés prescreveu não tomar
O Santo nome de Iawhé em vão...
Com amor dizer Iawhé, Oxalá, Oxum.
E dizer Alá, Jesus, Brahma, Krishna,
no respeito de um dizer irmanado.

Não serei culpada, se não
me atingir alguma pedra. E, então,
serei livre por não ser profeta...
E não ofenderei a Deus,
de quem desconheço o Mistério.

Mas procurarei as Suas mãos, onde,
talvez, permanece a espátula de artesão
e ainda os calos do labor. Ou um corte,
quem sabe origem do coágulo...
e os restos do barro primeiro dos homens.


[Recife, 2001 - Luciana]

Nó - Luciana Cavalcanti

 
 
Este corpo
(dizem...)
carrega uma alma.
Infinita,
a tal alma se sabe
e se busca
em minhas buscas...


Este corpo,
com preguiça,
se ergue todas as manhãs,
sem que se eleve
a alma que há,
e se busca
fora de mim...


Este corpo
ensinou-me, de mim,
quase tudo:
pela fome,
pela sede,
pelo frio,
calor
e desejos.


Estandarte de mim,
o corpo que sinto,
carrego
e vejo, é onde,
às vezes, me sei.
E intuo
(através do espelho)
as silhuetas da alma-mistério.


No entanto,
misturados só,
confluídos só,
entrelaçados só,
dados em nós,
corpo e alma
se podem ver...
E entendem a mim.
Entendo-os, enfim: Desejo.


[Recife, Rua do Hospício, fim de tarde de 24 de Abril de 2007. "Nó", por Luciana Cavalcanti]
Imagem de Salvador Dali.

Poema-expresso - Luciana Cavalcanti


Café forte.
Sonhos, nem tanto...
Incapazes de andar com as pernas
próprias,
quedam doentes.
Estômago instável, portanto,
pelo que me dói no que não fiz,
pelo que me custa a digerir,
pela fome submersa
na saciedade equilibrada...
E há tanta cafeína por dissolver
em mágoa
e sem nenhum açúcar.

Coisa feita - Luciana Cavalcanti



As coisas que tu me dás,
tuas,
não te desfazes delas,
nem partilhamos o antes compartido
como despojos de guerra,
pontos de final...
As coisas que me dás,
tuas,
permanecem tão presentes
e possíveis
como nas estantes de teu quarto,
discos e livros,
como no traço de tua boca
este riso...
Porque as coisas que nos damos,
nossas,
antes, como agora,
nos dizem nós,
apertam nós,
e nunca partilharemos despojos
de nada...
Somos.
Seremos.


["coisa feita"; Recife, Rua do Hospício, 09 de Janeiro de 2007]

Inesquecível - Luciana Cavalcanti


O livro esquecido.
A necessidade lembrada,
de trazer as palavras
ao convívio
de tua reflexão noturna.

O livro, no banco do táxi,
talvez, agora,
nas mãos de novo leitor
refaça a dádiva de entrega,
encontro dum ser noutro ser...
O livro esquecido já não se esquece.

sábado, 29 de maio de 2010

O Rio São Francisco continua lindo...!

[Petrolina, PE: 2009 - Piranhas, AL: 2010]

Estradando...

 

Estrada de Canindé

 Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira
 
 
Ai, ai, que bom
Que bom, que bom que é
Uma estrada e uma cabocla
Com a gente andando a pé

Ai, ai, que bom
Que bom, que bom que é
Uma estrada e a lua branca
No sertão de Canindé

Automóvel lá nem se sabe
Se é “home” ou se é “muié”
Quem é rico anda em burrico
Quem é pobre, anda a pé

Mas o pobre vê na estrada
O “orvaio” beijando a “flô”
Vê de perto o galo campina
Que quando canta, muda de cor

Vai “moiando” os pés no riacho
Que água fresca, nosso Senhor
Vai “oiando” coisa a “grané”
Coisas que, pra “mode” ver
O cristão tem que andar a pé

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Poema da Aurora - Luciana Cavalcanti



Até que chegue a aurora,
este medo infantil do escuro,
este sussurro na noite,
o coração acelerado...

Este perguntar-se:
"por que eu?"
até que chegue a aurora...
Este sentimento da ausência
do sentido,
esta luz que é sempre pouca
ante a brasa que carrego no peito.

Este hesitar
entre o interruptor
e a permanência na cama
sob as cobertas...
tentar (inutilmente) dormir.

Este perguntar-se pelo dia de amanhã...
ainda que amanhã já tenha chegado
não obstante o escuro.
A dúvida, com riso de desdém nos lábios,
perguntando se algo mudou
desde que assumi os riscos...
Mas, tudo, só até quando chegar a aurora!

A manhã é inegável, irreversível...
e sempre amanhece!

Sobre forças, brutas, e fraquezas...


Aviso a quem mudou de lado:


Há gente que permanece.
E a gente, que permanece,
conhece vocês
como vocês a nós...
Então, cuidado!
Estar por cima
porque mudou de lado
não demonstra outra força
a não ser a da fragilidade.


Luciana Cavalcanti - Março/2010

"Respeito muito minhas lágrimas. Mas ainda mais minha risada..."


É agora???

Quien no lo sepa ya
lo aprenderá de prisa:
la vida no para,
no espera, no avisa.
Tantos planes, tantos planes
vueltos espuma
tu, por ejemplo,
tan a tiempo
y tan
inoportuna
Eran más bien los días
de arriar las velas.
Toda señal a mi alrededor
decía: cautela.
Cuánta estrategia incumplida
aquella noche sin luna
tu, por ejemplo,
tan bienvenida
y tan
inoportuna
¿Quien sabe cuándo,
cuándo es el momento de decir: ahora?
Si todo alrededor te está gritando:
¡Sin demora, sin demora!


["Inoportuna"; Jorge Drexler]

...cuándo es el momento de decir: ahora?

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Vida. Vida.



(...) Caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. 
A cobiça envenenou a alma do homem...
 levantou no mundo as muralhas do ódio ... 
e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. 
Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. 
A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. 
Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. 
Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. 
Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura.
 Sem essas duas virtudes, 
a vida será de violência e tudo será perdido.

...

                                      (Charles Chaplin)

Prece ao destino - Vítor Souza

 
 
Ajuda-me, excelência do tempo,
da poeira,
do asfalto,
do futuro e passado.
Perdoa-me, reverendo esperado,
pai dos que nada sabem,
guia dos que não querem saber.
Tem piedade, Senhor do acaso,
pois sem ti serei nada,
uma vida
de apenas pegadas,
angústia
e desejo
em solidão.
Sem ti,
sou o medo que desconhece,
o silêncio do espanto,
a danação do pecador.
Sem ti,
apenas o que foi;
mas nada foi,
somente é,
talvez será,
e a vida só me cabe
em igual medida
que a ti o acaso.
Sem ti
mãos atadas,
pois, se nem de mim nada sei,
sem ti
dize-me
o que seria
dos caminhos alheios
que as linhas de minha mão
hão de cruzar.

Seja Bem-Vindo!!!


Um sorriso de recomeço
A alegria da chagada
A vida se refaz
Como um trem
Que passa nas estações
E leva as folhas de outono
E desliza nos trilho floridos da primavera.

Cleto Campos
20/maio/2010

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A poesia...

"Mas o que vou dizer da Poesia?
O que vou dizer destas nuvens, deste céu?
Olhar, olhar, olhá-las, olhá-lo, e nada mais.
Compreenderás que um poeta não pode dizer nada da poesia.
Isso fica para os críticos e professores.
Mas nem tu, nem eu, nem poeta algum sabemos o que é a poesia."

Federico Garcia Lorca

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Mães... ainda que com atraso...


Para sempre

Carlos Drumond de Andrade


Por que Deus permite que as mães vão se embora?
Mãe não tem limite, é tempo sem hora,
luz que não se apaga quando sopra o vento
e chuva desaba, veludo escondido
na pele enrugada, água pura, ar puro, puro pensamento.
Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça, é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre
junto de seu filho e ele, velho embora, será pequenino
feito grão de milho.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Dia e Noite...



...a poesia não passa de uma isistente tarefa: semear estrelas!

E tome-lhe Mário!!!

Os psicanalistas, como o caso deles me preocupa.
Eles próprios sofrem de um dos mais terríveis complexos do mundo,
Que é o complexo dos complexos.
Ah, se a gente pudesse ter uma simples e amistosa conversa com eles,
Sem que descubram coisas por trás!
E se, por acaso,
Tombar um ovo choco no chão,
Por que hei de ser um maníaco homicida,
Um fabricante de anjinhos?!
Por que não vão eles inquirir sobre isso o próprio Acaso,
Que não sabe de nada...


[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]

Outra vez, o Mário.

O tamanho da gente

O homem acha o Cosmos infinitamente grande
E o micróbio infinitamente pequeno.
E ele, naturalmente,
Julga-se do tamanho natural...
Mas, para Deus, é diferente:
Cada ser, para Ele, é um universo próprio.
E, a Seus olhos, o bacilo de Koch,
A estrela Sírius e o Prefeito de Três Vassouras
São todos infinitamente do mesmo tamanho...




[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A Hora Íntima - Vinícius de Morais

Poemas e imagem num passeio de um ano...

***


Amar - de que adianta fingir
não saber disto? -
É fundo desde o início.


****

Todo atento o olhar
para vê-lo inteiramente
sempre que sorrir...


Luciana Cavalcanti
28 de Setembro de 2008.

Poeminha encontrado sobre o que se há perdido...

Eu já perdi a hora,
o emprego, o ônibus,
o vôo - e paguei "no show"! -,
voei mais tarde...

Já perdi dois dentes,
um deles, arrebentando
anos de tratamento, um canal,
restauração caríssima...

Já perdi o juízo,
o bom senso,
a elegância,
as estribeiras...

Já perdi lutas, utopias,
sonhos, bandeiras...
O espetáculo, o concerto,
perdi o jeito.

Já perdi dinheiro...
- Ah, como eu odeio perdê-lo!
E documento de identidade.
Já perdi a vontade...

Mas nunca perdi ninguém.
Gente não é coisa que se perca,
nem mesmo quando se tem cinco anos
numa loja de departamentos...!

Gente é bem permanente.
E jamais se adquire...
Com gente se partilha
e se convive...

sem ter nada
ou nada perder.


Luciana Cavalcanti
Recife, Várzea do Capibaribe: 03 de Maio de 2010.

Outra é dose, meu senhor!!!



- Prefiro no vinil. Tomando um bom vinho tinto e sêco...

Música para mais que ouvidos...

sábado, 1 de maio de 2010

Ir e Vir - Luciana Cavalcanti



A mala ainda não desfeita
e um coração que não se ajeita
porque hoje é sempre
a véspera de ir embora.

E, nesta roda, de girar incessante,
onde se perde e ganha
a cada brevíssimo instante
há que se cuidar de si
para não entontecer.

E permacer, então,
de olhos abertos
para encarar de frente a Vida
e ler em seus lábios silenciados
a expectativa de amor...

Neste mundo-grande,
milhões serão os passos,
não a buscar,
mas a percorrer já
os nossos sonhos
porque tudo, estrada,
poeira, poentes e pontes,
nuvens, nascentes e rio,
pinta um só painel
na tela das retinas
e é menina a tua vida
se descobrindo 
e acolhendo mulher.



Luciana Cavalcanti
Setembro de 2009.