quarta-feira, 31 de março de 2010

Canto. Pra dizer que no meu coração...

Canto(s)


Madalena, arrependida,
já nem conta as minhas dores.
É tarde,
mas há cerveja
e alguma poesia...
No Mercado, calcular os custos
de meus perdidos amores.


[poema em 2003 ou 2004... vá lembrar! Escrito lá, no Mercado da Madalena]

Expandindo-nos infinitamente...



Você pode me negar
uma estrela
e a minha expansão
para o infinito,
mas é aí que eu lanço
com mais força
o meu grito.




Carlos Maia



31/03/10







O Haver - do poetinha Vinícius...

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

15/04/62

terça-feira, 30 de março de 2010

Dos Mestres, fica um Lição de Vida...




Foram poucas as palavras. Entre tristeza e perplexidade, eu não pude decidir o que faria, como faria. Professora do Centro de Educação, eu esqueci-me de qualquer condição institucional, profissional e fui, acima de tudo, uma aluna que acabara de perder seu professor querido.
É, talvez, um elemento significativo dos dias que se seguiram à partida do professor João Francisco que aponta na direção de como o vejo, meu professor, e como me, vejo, professora, a partir das relações humanas e humanizantes com mestres de grandeza e beleza como a de João... Cada vez que uma aluna ou um aluno meu (e muitos não tiveram a oportunidade de ser alunos de João Francisco) me cumprimentava, num abraço (apertadíssimo!) eu dizia apenas: "o meu professor querido". Os alunos e alunas sorriam/choravam solidários e exclamavam: "nós sabemos!"... Eles e elas sabem! Aliás, vocês (pois é a vocês, que partilham comigo as salas de aula, que este diálogo se dirige) sabem.
Hoje, um mês depois, não me sinto muito longe da possibilidade de ser visitada pelo choro ao falar dele, mas preciso fazê-lo.
É preciso fazer saber que ele foi um grande professor porque foi, antes de tudo, um ser humano bonito. Pra lá de bonito! E o seu compromisso com a Educação era, sobretudo, um compromisso com a boniteza do Mundo. Boniteza que era estética e ética. Boniteza exigente e profunda que clamava por justiça e emancipação para os esfarrapados do Mundo.
A primeira aula, no Programa de Pós-Graduação em Educação (da UFPE), me causou uma impressão confusa e inquieta: um professor entra na sala com um volume imenso de livros e, após nos cumprimentar, pede que nos apresentemos dizendo que éramos os que "restamos" após o processo de seleção ao Mestrado. Apresenta os livros um a um (lançando aqui e acolá provocações que depois eu saberia eram tão características de seu comportamento) e, em seguida, começa a falar de suas compreensões e inquietações em torno da Educação. Fiquei intrigada com as provocações e a ironia e, ao mesmo tempo, fascinada com a inteligência.
As aulas seguintes confirmaram o brilhantismo de uma inteligência que estava a serviço de desinstalar-nos. Entendi a presença das provocações. Entendi a presença da ironia. João tinha como caminho metodológico a inquietação porque para além do entendimento queria que consolidássemos o comprometimento. Comprometer-se com a Educação era imprescindível. O comprometimento com a Educação traduzia um comprometimento com um projeto de Mundo. Projeto de Mundo onde a inclusão de todos e todas não fosse discurso vazio e evasivo. Por isso, João Francisco de Souza não fala em "exclusão", mas em "inclusão perversa". Todos estão inseridos no mundo-social, o problema está em como estão inseridos. A humanização dos seres humanos, sendo a finalidade da Educação, exige o engajamento numa luta efetivamente política para construirmos novas possibilidades de con-viver em sociedade.
Ao falar de nossas pesquisas, sempre citava Boaventura e dizia: "a questão é construirmos um conhecimento prudente por uma vida decente". A decência não estava ligada a uma moral universal, mas a dignidade sem a qual o mundo é sempre menos humano. A humanidade de todos os seres humanos, pertencentes a todas as sociedades, todas as culturas, de todas as idades, de todas as etnias, de todos os credos, constitua para ele uma condição para as possibilidades de Vida no mundo. Vida com "v" maiúsculo. As competitividades, as opressões, a lógica de Mercado, havia pervertido relações e subjetividades e, neste contexto, a tarefa da Educação era a de romper com a lógica desumanizante. Educação em todas as instâncias, formais, não-formais, informais. Ao usar o termo "colonização" para referir-se a como a instituição escolar centralizava as atenções e projetos em torno dos papéis da Educação, João atrelava Educação e Poder, ao mesmo tempo em que denunciava uma apropriação da Escola por certos projetos de Poder.
Foi um tempo rico e inquietante. As aulas com o professor João Francisco mobilizavam-me o pensamento. Eu me fazia cada vez mais perguntas...
Tornei-me leitora de seus livros embora, um dia, ao ler um texto meu, ele tenha reclamado da ausência de citações aos seus livros - fato muito representativo de nossa convivência, cheia de admiração, respeito e liberdade de falar o que se quisesse. Ao tornar-me professora (substituta) naquele mesmo Centro de Educação, inseri textos de SOUZA nos referenciais bibliográficos... Mais uma vez, num encontro entre professores, à porta de uma sala, ao entrar para sua aula de Sociologia da Educação após a minha aula de Filosofia da Educação, João brincou: "professora, estás usando SOUZA como referência?", ao que respondi: "estou e, inclusive, preciso lembrar de apagar os registros no quadro para você não perceber se eu estiver usando as suas idéias equivocadamente!". João riu e disse: "fico muito contente porque assim, eu não estarei falando sozinho".
No semestre seguinte a este encontro, João interrompe uma aula minha para trazer-me um livro recém-publicado, "Filosofia da Educação: quê?", e alguns exemplares de um número da Revista Fênix onde ele havia proposto a publicação de um artigo meu (sem me avisar antes!). Presenteou-me com o livro, as revistas e, sobretudo, com suas palavras, cheias de carinho e respeito, ao falar para a turma de graduandos de Pedagogia que eu havia sacudido nas idéias dele a vontade de retomar um projeto antigo de reunir textos que discutissem a Filosofia da Educação como um saber necessário á práxis educacional.
Este livro é um livro bom danado, que eu gosto de utilizar como um caminho de inquietação e mobilização do debate e da reflexão, em sala de aula, sobre o quefazer da Educação. É o segundo maior presente que João Francisco me deu... O primeiro foi ter sido sua aluna, foi ter tido a oportunidade de interpelar nos corredores um autor que eu leio com curiosidade e inquietação.
A construção de uma nova Educação (no século XXI) pede que saibamos resgatar a generosa e respeitosa gratidão por aqueles e aquelas que contribuiram com o nosso processo contínuo de Educação. Perder de vista os traços dos educadores e mestres que tivemos em nossa trajetória é fazer do conhecimento construído uma conquista arrogante e individualista... Por isso, não quero esquecer quem contribuiu para minha educação, minha Humanização e para a consolidação de compromissos na professora que sou.
João Francisco é uma marca fortíssima na esperança, luta e teimosia do nosso fazer maior, a Educação. 

Luciana Araújo Cavalcanti
Recife, Várzea do Capibaribe, 27 de Abril de 2008.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Faça um lista dos grandes amigos...


"Faça uma lista dos grandes amigos...". Oswaldo Montenegro pergunta quantos você já não encontra mais? Quantas pessoas que você amava, hoje acredita que amam você?
A Vida responde!
E não responde em palavras. Muito menos responde em números...
Gestos e presenças confirmam: hoje há pessoas que há dez, quinze, dezoito anos, eu amava, continuo amando, e tenho certeza que me amam também.
Amizade, dizem aos quatro ventos, depois que algum sábio percebeu e disse, se reconhece.
Re-conheço...
E nos conhecemos a cada dia, crescendo, vivendo, chorando, sorrindo, estendendo as mãos. Com-partilhando sonhos, lutas, bobagens, fossas, saudades, pressas, estresses e... milagres!
E há um milagre sutilíssimo em se poder re-conhecer os amigos em meio à multidão que nos enche os olhos, dia após dia...

Pra falar de gente... sempre, sempre...

Um poema ao telefone - Gerlane


Lembro-me, certa vez, entre uma aula e outra, ter telefonado para Gerlane, amiga de "copo e de cruz". Tinha, evidentemente, pouco tempo... precisava trabalhar. A tradicional saudação "tu tás ondeeee?!?" soou, junto aos risos, e fiz-lhe o convite, meio pedindo desculpas por querer conversar, mas estar com pressa...
- quero te ver, amiga. tenho tempo pra poucas cervejas... duas ou três. quatro, no máximo! mas os sorrisos que couberem neste espaço curto de tempo, eu juro, que não vou contar...!
No Bar, nosso Recanto do Leleu, rascunhei-lhe numa página da agenda um poeminha a partir do telefonema - que considerei poeticamente a cara do que somos, juntos, eu, Gê e noss@s amig@s...!
Vividas farras e mais farras, compartilhamos também momentos difíceis... barras pesadas, dores, choros, dúvidas, fossas... E descobri, assim, que não somos amigas "de bar"... aliás, somos! Mas somos também de hospital, de casa, de rua, de qualquer canto... desde que a gente queira e saiba fazer valer a magia da Vida que nos ajuntou em fim de tarde de farra e beco.
Do beco para o Mundo, nossa amizade absolutamente insuspeita encara qualquer baculejo...!

Reflexos do Infinito...


O Infinito manifesta-se em circunstâncias impensáveis! Quem esperaria colher sinais de infinitude numa noite de boemia, num jogo de futebol, em pleno engarrafamento ou mesmo naquela noite odiosa em que faltou água após passarmos um dia inteiro às voltas com o trabalho? Nós, no entanto, criamos uma noção pomposa e quase inacessível de Infinito (como refletia frequentemente o nosso Dom, Helder...) quando a transcendência, seus sinais e pistas, quase sempre se confundem com o banal, o cotidiano ou até mesmo o risível...
Lembremo-nos: Deus é humilde! Quem faz estardalhaço para aparecer e chamar atenção somos nós, seres humanos, extremamente frágeis e insábios para perceber a grandeza das menores e mais sutis coisas.

Lição de Porrada - o poema.

o automóvel
que mais longe
nos leva
é aquele que bate
sem nos matar...
e, sem passagem,
descortina, então,
mil outros lados da Vida.


Recife, Várzea do Capibaribe, 20 de Fevereiro de 2010.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Um poema...

OFÍCIO

Não é coisa fácil a lida
de construir, gesto após gesto,
o riso nas bocas desacostumadas
ao contentamento das coisas simples...
E há de ser pesado
carregar sempre uma reserva de alegria
mesmo quando a alma, eclipsada,
se faz sombria...
Não é pra quem pede,
nem é pra quem busca,
o fruto flamejante e doirado
da tua labuta.
É só pra que sabe (ou intui)
inventar meninices
e resgatar, do fundo da infância,
a transparência
do riso que, um dia, trouxemos
nas bocas...

Há quem não entenda
e, por certo, há quem considere tolice
a magia às vezes desatenta,
às vezes tão séria,
de caçar borboletas ou vagalumes,
contar estrelas, catar conchinhas do mar...
Estes, certamente, há anos não vão ao circo.
Estes, mui provavelmente, pagam infindáveis
prestações bancárias a troco de vaidades...
Estes, não viajam nas jornadas imaginárias de seus filhos...
Estes, nem vale a pena a gente chamar
para armar a lona, arrumar o picadeiro
e ajeitar a Vida, mais justa e bela,
para que seja ela espetáculo,
teimoso e inquieto,
da invenção cotidiana da alegria...!


Luciana Cavalcanti
Março de 2010, em chegando o Dia do Circo...

quarta-feira, 24 de março de 2010

Pra falar de gente - 4 "hello, goodbye"...

Cartas para minha irmã...

O coração age, às vezes, tentando convencer-nos de que é a razão quem age... Eu lembro que, durante a infância, e depois até (confesso...) a presença de minha irmã no escuro do quarto espantava para longe as sombras e dissolvia os fantasmas de medos reais ou inventados. Segurava-lhe a mão, ainda que sem acordá-la... Tranquilizava-me. Dormia novamente...  Após o acidente, quando as equipes de paramédicos começaram a tentar contatar minha família, pedi a um amigo, o Xandy, para fazer uma ligação que, para fins pragmáticos, seria inútil: "deixa eu ligar pra minha irmã, Xandy...!". E lá fizemos um interurbano. Claro, sei que a palavra da minha irmã mais velha deixaria mamãe menos inquieta ante a notícia de um acidente comigo - mamãe desconfia, com certa razão, dos eufemismos de sua filha boêmia e "doida", a filha "freira" não lhe mentiria sobre algo tão sério...!
Mas, agora, depois que "amanheceu"... pensei: talvez, tenha sido o gesto, inseguro, mas confiante, de estender as mãos e tocar outra mão, buscando conforto e a certeza de que não estou só...
Segurei-lhe, de certo modo, a mão. E falei-lhe do sonho mal como que para esquecer o sonho e poder recuperar a paz... Embora não estivesse perturbada, precisava de mais forças. Preciso.
A Vida, passando naqueles ditos "filmes" diante de nossos olhos, faz estremecer os mais destemidos. Vida e morte. A incerteza da saúde. A dúvida. O corpo fragilizado. A dor... A incontornável força dos limites e fragilidades do corpo. Poucas vezes vivi algo tão forte. Poucas vezes a Vida me foi tão clara em sua força e beleza... desejei-a com alegria e esperança, pensando que a dor sinalizava a vida pulsante no corpo. E quis viver - apesar dos quilômetros de distância - aquele momento, de retomar a vida nas mãos, com minha irmã querida que tanto ansiou, um dia, ter uma irmãnzinha...
A Vida é este milagre que inventa irmãos, entre lágrimas e risos, mas sempre espantando os pesadelos e alavancando sonhos!

Pra falar de gente - 3... "Minha irmã..."

terça-feira, 23 de março de 2010

Ela, Nene...




Há gente discreta. Humilde como as sombras que "acompanham-nos discretamente", como diria Dom Hélder. No meio desta gente, discreta, humilde, silenciosa, não raramente encontramos valiosos amigos.
Nene não aconteceu ou chegou à minha vida por acaso - mesmo porque poucos acasos existem...! Entrou em minha vida por ser mãe. Não minha mãe e não simplesmente mãe, como tantas outras mulheres o são... Mas a amorosa, dedicada e lutadora mãe de um amigo e companheiro "de copo e de cruz". Conheci a um e a outro com um intervalo curtíssimo de tempo. Ela acolhia-me em sua casa com discrição e carinho: deixava-me entrar e participar de vida de seu filho, sem "senões", sem sermões... E transferia, ou melhor, extendia até mim os mimos com que cuida de seu filho mais velho, e dos outros também evidentemente.
Nene não perguntou quem eu era... Nem fez questão de dizer quem era, de cara, como demarcação de espaço ou contrato de convivência. E, como abriu sua casa e respeitou a vida de seu filho, abriu seus braços e sua vida, respeitando os afetos que se tecem dia a dia. Logo aprendi a amá-la, a respeitá-la, e a tirar da boca e do trato o zelozo e formal "Dona Marilene"... Passei a dizer simplesmente Nene e, ao dizê-lo, trazia para um canto especial de meu peito esta mulher e sua história, sua vida. E seu espaço, no afeto e na Vida, por mim e comigo vivido e com-partilhado é dela, só dela, conquista dela...! Não é amada e respeitada por mim por ser mais uma mulher admirável entre as maravilhosas mães de meus amigos mais íntimos... Não é quem é em minha vida por ser guerreira e bela como as tantas guerreiras e belas mães da Comunidade do Pilar... Nene cresceu em espaço e afeto na minha vida, tornou-se grande - imeeeeensa! - em sua discrição, simplicidade e cuidado.
E como sabe cuidar Dona Marilene!
Nene tem sido uma presença carinhosa e permanente em minha casa que se faz "hospital". E cuida-me. E acarinha-me. E me faz saber que ela me acolheu também como gente, como história própria, única. Transcendendo os laços, de ontem e de hoje, entre mim e seu filho, existimos uma para a outra. Isto não faz menor nem maior a outra amizade, a outra história... Simplesmente optamos por não sermos pessoas em comum no cotidiano de outra pessoa... Unimos histórias. Tecemos juntas outros fios. O amor ganhou! Ganhou porque se expandiu... Ganhou porque soube ser "amor em si" e não "amor por tabela".
Nene e seu companheiro Daniel, vez por outra, enchem de riso as tardes de quem, paciente e inquietamente, recupera saúde e forças para, com as pernas no mundo, voltar à casa de Nene e tomar seu delicioso café...

Pra falar de Gente - II

Fio de Vida - Thiago de Mello

Fio de vida
Thiago de Mello

Já fiz mais do que podia
Nem sei como foi que fiz.
Muita vez nem quis a vida
a vida foi quem me quis.

Para me ter como servo?
Para acender um tição
na frágua da indiferença?
Para abrir um coração

no fosso da inteligência?
Não sei, nunca vou saber.
Sei que de tanto me ter,
acabei amando a vida.

Vida que anda por um fio,
diz quem sabe. Pode andar,
contanto (vida é milagre)
que bem cumprido o meu fio.

Ela, minha mãe...

Falei antes sobre a emoção de meu pai ao me ver, novamente, de pé e andando - passos inseguros, dolorosos, mas passos! - e de como ele, comovidamente, chamou minha mãe para partilhar daquele instante... Isto, no dia 12 de março de 2010. Meu velho é um homem consumido pela emoção. Sua emoção ditou-lhe os caminhos a vida inteira, em boas e más escolhas... Seu coração lhe transborda! E teceu-lhe a personalidade em forças e fraquezas.
A companheira deste homem, minha mãe, é a mulher de quem já citei o cuidado com as plantas, a emoção, a fragilidade e o fato de ser inteiramente coração, numa "anatomia louca"...
Vejo-a, hoje, cansada... Voltar após trinta anos a ter cuidados que se tem com os bebês com a filha não deve ser fácil!
É ela que coordena meu dia: banhos, refeições, remédios, higiene, dores, cama, travesseiros... tudo, com a dedicação devida a quem não pode levantar-se por si mesmo. Ela tem duas aliadas de primeira hora: Celeste e Jô. A primeira, sua amiga; a segunda, minha amiga.
Com minha mãe tenho re-aprendido, dia após dia, afeto e paciência. Cuidamos uma da outra.
Não me imagino arrogante depois de ter vivido dias em que beber um copo d'água é ato que precisa do gesto cuidadoso de alguém... 
Minha mãe assiste o meu aprendizado da espera, paciente, da volta aos trabalhos, às lutas e à poesia que anda solta nas ruas. E a espera é irmã da esperança. E esta moça, a Esperança, me visita todos os dias. Antes, acarinha minha mãe; depois, me fala que a Vida está explodindo e pulsando aqui dentro, crescendo, para, mais tarde, eu partilhá-la com maior dedicação, com vocês e toda a gente, além das paredes desta casa...! Vamos à Vida!
Quantas mulheres você conhece que deu à luz duas vezes à mesma criatura? Este é o milagre que a Vida reservou a esta mulher bonita, minha mãe...

segunda-feira, 22 de março de 2010

Conselhos...

Sossega, que o amor
há de ser sempre desassossegado.
Pois sucede que é seu proceder
seguir-se sempre indeterminado.
Há brilhos gêmeos em cada pupila.
Há uma imensa sede na boca.
Há uma fogueira acesa por onde quer
que vá o peregrino amador.
E não há explicação alguma...
Sossegue!


Luciana Cavalcanti - Março de 2010.

domingo, 21 de março de 2010

Seu Zé Pretinho, meu avô...



Quando eu concluí o Mestrado, em momento singularmente difícil da minha vida, em meio às dúvidas e dores de uma enfermidade de mamãe e a uma depressão que me abateu, tinha algumas consciências: de que o aprendizado construído é sempre maior do que o que pode ser contido em um texto acadêmico, de que um orientador não é somente um cientista mais experiente que você a te dar dicas, é uma pessoa caminhando ao lado de outra, na construção do conhecimnto, e isto eu  devo à humanidade do professor José Batista, de que a aventura (epistemológica) da pesquisa em Educação é, sobretudo, um mergulho nos significados que  podem ter a Vida, a Humanidade e nossa (con)vivência em comum-unidade... Por isso, a dedicatória daquele esforço de trabalho (que continua...!) era a meus alunos e alunas, testemunhos vivos desta vinculação entre a Educação e a Vida (em seus sentidos), e a Seu Zé Pretinho, meu avô, um homem que me faz, enquanto educadora, apostar na riqueza do saber experiencial. O que a Vida nos diz e pede é a fonte maior das trans-formações necessárias para a humanização do Ser Humano e de seu Mundo...

'À “Seu Zé Pretinho”, José Amâncio (meu avô), porque pela Vida e pelo trabalho, ele me ensinou três grandes lições: que a generosidade e o desprendimento são caminhos seguros de se construir riquezas imperecíveis, que os acontecimentos mais simples são oportunidades de se fazer novas amizades e que o trabalho, honesto e insistente, pode não ser um fardo, mas ser permeado (também) de generosidades, desprendimentos e possibilidades abertas e certas de se consolidar afetos.'

Hoje, este "velho bonito" veio me visitar...
Sempre disse que aprendi a diferença entre política e politicagem com ele, através de seu exemplo. Agora, posso dizer também que, com ele, sigo aprendendo que a Educação na qual aposto tem mais a ver com sabedoria do  que com erudição.

- Obrigada, seu Zé!

quinta-feira, 18 de março de 2010

Pra falar de gente...



"Cada pessoa sempre é as marcas das lições diárias de outras tantas pessoas...". Belo aprendizado! Belo recado do Luiz Gonzaga Júnior para nós...! Cada um de nós é nós, somos laços, todos e cada um... Somos vários, e somos um! A Vida é essa magia... essa teia. Esse nós é uno. Esse uno é múltiplo. Assim como Deus-Trindade... por isso, somos Sua "imagem e semelhança". Sós, não somos sós pela ligadura consistente do Amor.

Eles, os poemas...


Ela, que já me olhava há muito tempo, sem que eu o percebesse, retirou-me dos devaneios com a pergunta:
- Tia Lú, no que é que você tá pensando?
- Estou pensando em escrever um poema, Júlia - respondi, entre a surpresa e a necessidade de explicar coisas às crianças...
- E escrever um poema é bom ou ruim?
- É bom, Júlia... Escrever um poema é bom!
- E, então, Tia Lú... se é bom, por que você tá triste?!?
- Estou chamando o poema, que é bom, Júlia, por isso... pra ele não deixar mais eu ficar triste!
- Ah, então, o poema é alegre?
- Nem todos os poemas são alegres... alguns são tristes, mas, quando eles vem, ajudam o coração da gente porque são bonitos...
Frustrava-me com minha incapacidade de explicar poesia a uma criança, quando Júlia saltou da cadeira e correu a uma mesa próxima, arrancando a rosa mais bonita de um arranjo que a ornamentava... Rosa na mão, ela voltou.
- Toma a rosa, Tia Lú, ela é bonita... vai ajudar o poema que 'cê tá chamando...!
E correu a ir brincar com outras crianças...





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Diálogo acontecido no dia do casamento de Lygia e Hugo com Julinha, filha de Manú...

segunda-feira, 15 de março de 2010

De novo, a Vida!





Re-nasceres
(ou re-na-seres!)

No "mote" de Maiakóvski
A Carlos Maia


Inumeráveis noites de estrelas
havia-nos sido garantido.
E a vida, devolvida, re-feita,
pela paixão da poesia
e a sede de futuro...
Vida aí: reapresentada,
para a luta
ante as cotidianas misérias
e para a transformação
da família, humana,
plural... abraâmica!
E, por isso, Vida exigente.

Não sei se por ingenuidade,
pretensiosidade,
ou por ser poeta
simplesmente...

Mas vejo-nos em antecipação
do sonhado Século XXX.
Não por estarmos mais perto
ou longe
de alcançar algum sonho
e não apenas pelas estrelas...

Mas eis o futuro ansiado
devolvido
como possibilidade!
Eis amores servis
libertando-se dos grilhões!

E, tudo, talvez, porque sejamos poetas
e amemos,
firme, fiel e verdadeiramente...

Mas, aqui, neste instante,
o clamor "ressuscita-me"
faz-se festa!

E entre os camaradas já caminhamos
sem esconder
o tamanho do coração que trazemos
no peito...

E esta anotomia louca
que a tudo converte
em coração palpitante,
me faz saber:
em breve, seremos recompensados
em inumeráveis entardeceres
diante do mar.
E serão incontáveis
as estrelas colhidas
a beijar o chão
ou na transparência das retinas...

Então, será inevitável correr
a sentir a brisa
e será, então, cotidiana
(como oração matinal)
a convocação da Vida Maior:
Ressuscita-me!
Ressuscita-me!
Ressuscita-me!

E, a partir de hoje,
e em cada novo hoje,
nos transfomaremos:
Filhos da Terra e do Mundo,
poetas, semeando futuros ainda
trinta mil vezes...


Luciana Cavalcanti - Recife, Várzea do Capibaribe, 11 de Março de 2010.
Re-nascendo, eu também...!

domingo, 14 de março de 2010

Solo le piedo a Dios (tradução)

Só Peço a Deus
Leon Gieco

Só peço a Deus
que a dor não me seja indiferente
que a seca morte não me encontre
vazia e só sem ter feito o suficiente


Só peço a Deus
que o injusto não me seja indiferente
que não me esbofeteem a outra bochecha
Depois que uma garra me arranhou essa sorte

Só peço a Deus
que a guerra não me seja indiferente
É um monstro grande e esmaga
Toda pobre inocência da gente
É um monstro grande e esmaga
Toda pobre inocência da gente

Só peço a Deus
que o engano não me seja indiferente
Se um traidor pode mais que uns quantos,
que esses não esqueçam facilmente

Só peço a Deus
que o futuro não me seja indiferente,
Desiludido está o que tem que marchar
para viver uma cultura diferente

Só peço a Deus
que a guerra não me seja indiferente
É um monstro grande e esmaga
Toda pobre inocência da gente
É um monstro grande e esmaga
Toda pobre inocência da gente

Como eu não sei rezar...

Eu só peço a Deus...

Bom Dia! Hoje é 14 de março...


Há um mês, entre Olinda e Recife, eu sofria um acidente...
Vivi o que a maioria de nós imagina que não ocorrerá a si: um atendimento de emergência em uma calçada, os curiosos ao redor, especulando sua morte... e uma imensa angústia em como avisar aos familiares... a sensação de impotência e o começo  de um longo período de depedência: primeiro, nas mãos dos paramédicos, depois, dos médicos e, agora, de todos quantos dependo diariamente para executar as tarefas mais simples...
E se, então, me perguntam o que sinto neste momento... Digo que sinto pulmões plenos de ar, um coração pulsante, membros por onde corre sangue e passeiam estímulos nervosos... eu sinto a  Vida! E isto é maior que ossos quebrados...
Estou feliz! Agradeçamos juntos à força da Vida!
E que eu tenha forças para honrar a vida que me foi preservada!

sábado, 13 de março de 2010

Obrigada, gente!










Pela amizade que você me vota,
Por meus defeitos que você nem nota…
Por meus valores que você aumenta,
Por minha fé que você alimenta…
Pela pureza dos seus sentimentos,
Pela presença em todos os momentos…
Por ser presente, mesmo quando ausente,
Por ser feliz quando me vê contente…

Por esta paz que nós nos transmitimos,
Por este pão de amor que repartimos…
Pelo silêncio que diz quase tudo,
Por este olhar que me reprova mudo…
Por este olhar que diz " Amigo, vá em frente!"
Por ficar triste, quando estou tristonho,
Por rir comigo quando estou risonho…

Por repreender-me, quando estou errado,
Por meu segredo, sempre bem guardado…
Por seu segredo, que só eu conheço,
E por achar que apenas eu mereço…
Por me apontar pra DEUS a todo o instante,
Por esse amor fraterno tão constante…
Por tudo isso e muito mais eu digo
"DEUS TE ABENÇOE,
MEU QUERIDO AMIGO!"


Padre José Fernandes de Oliveira, SCJ (Padre Zezinho).

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Por ter tanto, tanto, a agradecer a vocês tod@s!!! Pela presença, pelo cuidado, pelas lágrimas, pelo riso, pelo consolo, o remédio, a gargalhada, a piada, o lanchinho, o "curso de enfermagem", os braços, o computador... por "fazerem a frente" e estarem aí pra o que der e vier... EU AMO VOCÊS!!!

Vocação de Ícaro [Luciana Cavalcanti]

VOCAÇÃO DE ÍCARO


Este caminhar sem passos,
tão longe,
muito além, me levará...
Certeza de poder chegar
e o aprendizado
cotidiano das rotas...
Com curiosidade e precisão
avançar na invenção
de caminhos novos...

Este caminhar sem passos
e o exílio das alegrias mais simples
dizem algo sobre a Liberdade:
olhar, no pés, pulsar o desejo,
saber que passos traduzem sonhos
e, então, inventar asas firmes...
já que tanto e sempre arde o sol!


Recife, Várzea do Capibaribe, 13 de Março de 2010.

Porque nunca acreditei que História e Ceticismo rimassem...

Sobre História e esperança...

http://ldopaeditora.files.wordpress.com/2009/02/zinn-introducao-voce-nao-pode-ser-neutro.pdf

Do hitoriador Howard Zinn.

Rebeldia com um sorriso no rosto...

Anti-depressivos, auto-ajuda, Manoel Carlos, alienação e etc.


O que mais tenho feito estes dias é refletir - mesmo porque não é muito vasta a gama de opções! Tais reflexões são, em sua maioria, sérias, mesmo que refiram-se a coisas banais. Aliás, acho que foi Oscar Wilde quem falou algo sobre a essencialidade das coisas aparentemente banais - e gosto de encarar isto não pra justificar que preeeeeeeeeeeciso de Nutella, mas pra pensar que poder ir à padaria no fim da tarde, subir uma escada ou preparar o próprio almoço são grandes coisas, não importa quanta grana você tenha no fim de semana...
E, então, me vem um (ou vários sujeitos) que comprou um Nietzsche antes dos vinte anos de idade numa banca de revistas e, depois da faculdade, começou a criticar as edições das obras do citado filósofo por causa da tradução ainda que não consiga discernir sequer a expressão "vá tomar no cú!" em Alemão, afirmando com aquele risinho de pretesão filosófica (que se não foram os cínicos que inventaram, levaram a culpa!) que estou reagindo emocionalmente assim ou assado  porque preciso destas fugas pra não pirar... é como se eu entorpecesse minha mente... sério: Freud, Lacan, Guatarri e o Dr. Deleuze... Que?!?
Aaaaaah... ok! Entendi! A fé funciona como uma espécie de morfina, né?!? E aí eu fico sem dor, mas assim um tanto idiota, sem sacar o que está acontecendo... E este meu bom humor, na verdade, é uma máscara... e...
O que foi que você consumiu no último período????
Eu estou a um mês sóbria. Também...é o jeito! (rsrsrsrs) Embora tomando doses programadíssimas de paracetamol com fosfato de codeína (Atenção! A codeína pode provocar dependência do tipo morfínico) e dormindo com o bom e velho "Riva" (o rivotril) pelo simples fato de que alguém que passa o dia inteiro deitado tem tendências a desequilibrar o sono noturno. Olha que massa!!! E foi o médico que passou! Uuuuuuuhhhhhuuuuu...! E a anestesia de bloqueio de plexo combinada a um indutor de sono (aquelas injeçõesinhas de dormir...), então?!? Aaaaaaaaaaaah... virei um cacto!!!
Quem não gosta de auto-ajuda (sub-leitura para sub-mentes sobre sub-temas...) e lê este monte de psicanalistas in, deve lembrar que o nome de "tomar uma cachaça" em estados depressivos é "auto-tratamento"... Uhnnn... parecido! Sei não... Pensar sobre a Vida é ser idiota? E não pensar é ser o quê?!? E distorcer o carpie dien em um hedonismo febril e de possessividade infantil é o quê?
Fico pasmada com aqueles relatos no fim de "Viver a Vida", novela global que inspira a piada pronta mais em moda sobre meu estado de saúde. La vie en rose demais pra quem se ferrou na vida e deu a volta por cima... Mas canja de galinha e pensamento positivo não fazem mal a ninguém. Estou começando a achar que a diferença entre um emo e um estudante-padrão do CFCH é o referencial bibliográfico e o acervo musical e não a quantidade/qualidade de drogas utilizadas e o temperamento...
Não assisto novelas.
Neste mês de internação sequer fiz questão de tv em meu quarto...
Sei que a "Luciana" de Viver a Vida saiu da deprê muito rápido, o que a torna pra lá de fake! Eu, sabendo que já-já tou andando (e, aliás, dei passinhos ontem!), tem dias que é barra ficar numa boa sem poder sair pra desanuviar...
Mas, sinceramente, entre os modelos de vida disponíveis, estou gostando de novo deste de ter fé e esperança. Inclusive, não faz necessariamente mal à Filosofia!
É demasiado espantoso que um amigo, ao meu lado, se queixe da minha atual condição - como se fosse o fim dos mundos - quando eu mesma sei rir e não estou terrivelmente abatida com a situação... Acho que uma depressão seria mais coerente... peraí... eu vou chorar... Qual é, galera?!? Que parte de "a gente pinta a vida com a cor que a gente quer" vocês não estão entendendo? Eu desenho mal, mas posso tentar...
A vida não é rosa. Minha rotina é cansativa, dura e cheia de dores... Mas eu não sou infeliz, não estou infeliz... e intuo que isto tem a ver com fé e amor. De repente até me empolgo em escrever um tratado acadêmico sobre isso... Se vai ficar piegas, o freguês é que tem direito a opinar... Mas não vou contribuir em uma gota com amargura na vida de ninguém.
Entre as coisas de que a humanidade anda precisando, acho que construir o prazer além da química e das genitálias é um bom começo...

Cada manhã, "gracias a la vida!"



E, talvez, antes não tenha sido tão próprio, verdadeiro e profundo cantar "gracias a la vida!"... Há um mês, estava eu no Galo da Madrugada. O Galo não vem ao caso... a grande questão é um aparente "desfecho" do Carnaval 2010 - e digo aparente porque meu carnaval não terminou naquele 14 de fevereiro, como não terminou minha vida. E, sabe mais?!? É muito risível alguém dizer "porra!em pleno carnaval... que merda!", como se fosse "melhor" sofrer um acidente em outra época do ano. Eu sei que há gente que achará isto muito estranho: minha alegria não precisa de carnaval. Aliás, meus carnavais não precisam de calendário...! É uma festa saber porque se vive - ou buscar este saber a cada dia! E dizer que ama @s amig@s sem aquela grade e meia de skol, então?!?... M-A-R-A-V-I-L-H-A!!! É bom estar por aqui...

sexta-feira, 12 de março de 2010

Um pequeno passo...




Meu velho pai é gente bonita. Suas forças e fraquezas confirmam a todo instante: ele não é um herói, é pessoa - a mais ousada criação de papai do  Céu! -, ao lado de quem eu também fui me tornando pessoa. Hoje, ao seu lado, vivi um momento brevíssimo, simples, mas extremamente contente... Papai, riso no rosto e lágrimas nos olhos, chamou minha mãe para me ver andar! Depois de praticamente um mês quase que exclusivamente deitada (sentando bem pouco) por conta da fratura na bacia, eis que o médico, durante os exames de revisão, me convida a andar...
Meu pai, sorrindo, explicava instantes depois a emoção daqueles segundos: "é um pequeno passo para Luciana, mas um grande salto no coração de um pai...". Armstrong, quando falou ao Mundo, pensava nos avanços da ciência. Meu pai, mesmo grato à ciência, sabe da força que estes passos têm para a afirmação da vida que ele gerou... A Vida é maior que a Ciência. E as ciências tanto mais vale quando auxiliam e promovem a Vida.
A vida vencendo, meu velho, é e sempre será um grande passo!



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EM TEMPO: E como é bela a Ciência do Dr. Joaquim Carvalho, bravíssimo tricolor, que se coloca à serviço da minha saúde e da de tantos outros que desejam retomar seus caminhos a passos firmes e abraçar por inteiro a Vida. 

quinta-feira, 11 de março de 2010

pra quê chorar?

Dos diários de uma "Luciana" real...

LIÇÕES DE PORRADA




por causa de um certo domingo de Carnaval e a partir dele...




I - O Amor é uma opção sua. Ninguém (nem mesmo a pessoa amada) tem necessário comprometimento com isto!
II - Se você não se queixar dos seus sofrimentos certamente não sofrerá menos, mas diminuirá as queixas em relação a você de quem estiver por perto, aumentando as chances de não ficar só...
III - Rir pode até não ser o melhor remédio... mas nada comprova que choro ou resmungos potencialize os efeitos de analgésicos e anti-inflamatórios.
IV - Não fazer absolutamente nada é o tipo de decisão que só quem sempre esteve com o corpo são tomaria por mais que três dias seguidos.
V - Dormir dá um imenso sono.
VI - Dor de dente até que é administrável...
VII - Nunca mais reclamo de dor de cotovelo. Seu tratamento me permite ir ao bar - ou até o exige!
VIII - Seus risos são caros a qualquer um que não esteja de mal com a Vida, mas seu choro (definitivamente) só é encarado por seus amigos.
IX - Felicidade e satisfação são coisas absolutamente diferentes.
X - Prazer não necessariamente gera alegria.
XI - Para infelicidade da cerveja e do uísque, descobri que o melhor dos bares são os meus amigos.
XII - Um estranho ou mesmo um desafeto dividirá a conta do bar contigo, mas somente amigos dividem a conta da farmácia.
XIII - O medo do sofrimento talvez seja o maior e mais desumanizante sofrimento.
XIV - Não pode criticar o padrão Globo de existência quem se furta a visitar amigos doentes, foge aos deprimidos e só frequentará o próprio enterro... este também tem vida de plástico e, por mais verniz filosófico que gaste, vive a estética de shopping center.
XV - A morte de um ateu ser-lhe-á menos dramática do que uma longa e desgastante enfermidade.
XVI - Transcendência é o que lhe resta quando você não pode decidir levantar para beber um copo d'água...
XVII - Se a fé não salva pelo menos o humor e a serenidade que ela traz não precisam de química externa.
XVIII - Confesso uma imensa vaidade em relação ao meu corpo: ele possui uma admirável capacidade de regeneração!
XIX - O desespero, de fato, piora qualquer situação. Ter esperança é um ato de Razão.
XX - O Amor estende sua existência conectando-a a outras. Amar é o começo da infinitude...

Uma estrela aparecer na manhã de um novo amor...

E eu sonhei que corria...

"à propósito disto..." e de tudo!


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O amor

Letra e música: Caetano Veloso; Ney Costa Santos;
do poema de Vladimir Maiakovski

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Talvez quem sabe, um dia

por uma alameda do zoológico

ela também chegará

ela que também amava os animais

entrará sorridente assim como está

na foto sobre a mesa

ela é tão bonita

ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão

o século trinta vencerá

o coração destroçado já

pelas mesquinharias

agora vamos alcançar tudo o que não podemos amar na vida

com o estrelar das noites inumeráveis

ressuscita-me

ainda que mais não seja

porque sou poeta

e ansiava o futuro

ressuscita-me

lutando contra as misérias do quotidiano

ressuscita-me por isso

ressuscita-me

quero acabar de viver o que me cabe

minha vida para que não mais existam amores servis

ressuscita-me

para que a partir de hoje a partir de hoje

a família se transforme e o pai seja pelo menos o universo

e a mãe seja No mínimo a terra

a terra

a terra