terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Que somos nós?


“O homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem – uma corda sobre um abismo. É o perigo de transpô-lo, o perigo de estar a caminho, o perigo de olhar para trás, o perigo de tremer e parar. O que há de grande, no homem, é ser ponte, e não meta: o que pode amar-se, no homem, é ser uma transição e um ocaso”


(F. Nietzsche)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Ele, Thiago.

Aprendiz do espanto


Não deflorei ninguém.
A primeira mulher que eu vi desnuda
(ela era adulta de alma e de cabelos)
foi a primeira a me mostrar os astros,
mas não fui o primeiro a quem mostrou.
Eu vi o resplendor de suas nádegas
de costas para mim, era morena,
mas quando se virou ficou dourada.
Sorriu porque os seus peitos me assombraram
o olhar de adolescente desafeito
à glória da beleza corporal.
Era manhã na mata, mas estrelas
nasciam dos seus braços e subiam
pelo pescoço, eu lembro, era o pescoço
que me ensinava a soletrar segredos
guardados na clavícula.

Pedia
já estirada de bruços me chamando,
que eu passeasse meus lábios pelas pétalas
orvalhadas da nuca, eram lilazes,
com as gemas de leve eu alisasse
as espáduas de espumas e esmeraldas,
queria a minha mão lhe percorrendo,
mas indo e vindo, o vale da coluna,
cuidadosa de mim, trés doucement.
Ela me inaugurou o contentamento
inefável de dar felicidade.
Tanto conhecimento só podia
ser de nascença, hoje eu calculo.

Não
era um saber de experiências feito,
mas quanta ciência para transmiti-lo.
Ela era de outras águas, a fontana
de trinta anos, que veio lá do Sena
com a sina de me dar a beber
na aurora dos seus olhos, nos seus peitos,
na boca musical, no mar do ventre,
no riso de açucena, na voz densa,
nas sobrancelhas e no vão das pernas -
o mel antigo da sabedoria
de que a libido cresce quando atende,
de que a tesão se acende na ternura,
que as ante-salas se prolonguem vastas
até estar pronto para entrar no céu.


Thiago de Mello: Freguesia do Andirá, fim de 97

Memórias...


Histórias de canções: "Cantiga por Luciana"
Parte inferior do formulário
  A dupla Edmundo Souto e Paulinho Tapajós ganhou o primeiro lugar no IV Festival Internacional da Canção com a doce “Cantiga por Luciana”, superando a colocação de “Andança”, que fizeram (com Danilo Caymmi) para o FIC de 1968.
Embora sem a força do sucesso anterior (lembra um pouco o adágio da toada “Cinderela”, de Adelino Moreira), a composição encanta pela singeleza do tema, que lhe dá um clima de canção infantil: “Luciana, Luciana / sorriso de menina dos olhos de mar / Luciana, Luciana / abrace esta cantiga por onde passar.”
Esse clima é realçado pela interpretação da cantora Eva (Eva Correia José Maria), que a gravou e defendeu no festival. Integrante do Trio Esperança, Evinha iniciou uma bem-sucedida carreira solo a partir dessa gravação. 
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Outra história, da mesma canção...
Esta foi a música que, ouvida por meus pais e minha irmã, me deu o nome. 
Devo ter passado uns vinte sem escutá-la. Hoje, baixei um arquivo onde Evinha a canta, a melodia é, de fato, muito bonita: singela, suave, quase infantil... Acho que devo agradecer meus pais ter uma origem tão bela para o nome que carrego.



Cantiga por Luciana (valsa, 1969)
(Edmundo Souto e Paulinho Tapajós)


Manhã no peito de um cantor
Cansado de esperar só
Foi tanto tempo que nem sei
Das tardes tão vazias por onde andei

Luciana,Luciana
Sorriso de menina
Nos olhos de mar

Luciana,      Luciana
Abrace essa cantiga
Por onde passar

Nasceu na paz de um beijo-flor
Um verso em voz de amor já
Despontam os olhos da manhã
Pedaços de uma vida que abriu-se em flor
Luciana...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Um certo dia... no caminho do mar.

Assumo os riscos. Viver é bom... Sobretudo, viver sem interditos. Aprendizado mais acertado (e, continuamente, renovado) o de não guardar a vida para depois. Aprender a enxergar na morte um imperativo: viva! Mais forte: Viva, pôrra! E não guarde a vida para depois... Não guarde a fome para depois. Não guarde a sede que a pele sente de mar. Não deixe para ouvir aquela música depois. Não esconda os cabelos do vento. Não se esconda do sol... Filosofia de bar? Discurso de auto-ajuda?!? Pode parecer... Mas, às vezes, intuo que o prazer de viver que alguns abraçam não passa de verniz. Verniz de gosto de viver em madeira podre...
Eu fiz um trato com minha vida: quando ela não faz mais minha cabeça, eu mudo. Simples assim... Pra quê complicar? Peço demissão, abandono o curso, deixo o partido... vou embora. Mas há, ainda, outro princípio: cumprir as vontades. Ora, se a gente trabalha e estuda com dedicação e responsabilidade (mesmo quando cansa...), como vai se esquivar justamente das vontades? Besteira!!! Por isso, eu corro e vou ao mar... O mar me diz. Sempre escuto.
Hoje, em meio às confusões (não poucas, de pesquisa...), eu senti sede e fome de mar. As retinas querendo o horizonte onde mar e céu simulam um beijo... Não me esquivei. Mas o caminho do mar, feito de ônibus, me trouxe uma dessas porradas que a gente leva da vida. Literalmente. Foram segundos: eu estava pensando na morte da bezerra, depois, pensando "cadê meus óculos?", "me quebrei?", "tô sagrando?"... Um "Dois Carneiros" bateu (forte!) no "CDU" e, então, a gente comprovou (mecânica dos corpos) a Lei da Inércia: impacto e quase vôo. Doeu. Nos brevíssimos segundos em que você constata o que aconteceu, eu pensei "que merda!" e ri no canto da boca. Enquanto ia lá atrás verificar se tinha alguém mais machucado para ajudar, pensava que era um aviso da vida dizendo (letras garrafais e vermelhas): você não vai viver pra sempre... Não vou. Eu sei. Qualquer porrada num ônibus, em um lugar menos protegido e com mais azar e... foi-se! Eu chamar-me-ia "Saudade". Assim, recuperados os óculos escuros (dos quais estou pagando a última prestação), apertadas as costas e barriga, constatada a ausência de sangramento, não telefonei para ninguém avisando, segui meu caminho e fui fazer o que queria.
Tomando a primeira cerveja, descobri que o Leandro do Caldinho (ah, aquele caldinho de Boa Viagem!) estava no ônibus de trás e soube do estado dos passageiros do outro ônibus. Olhei o mar, ali, bonito, simples e imponente feito em canção de Caymmi... Tomei outra cerveja, rascunhei uns poemas. E acreditei na sorte. Que bom que eu tenha entendido a fala da vida, pedindo um abraço estreito e urgente.
Depois, eu dividi com alguns amigos a narrativa do evento e a tranquilidade desleixada que me fez não ir ao médico. Mas irei. Irei porque está doendo agora: cabeça, abdomên e a perna direita, me fazendo mancar inevitavelmente. Trabalhei no dia de hoje, ainda. Mas não consegui dar aula... Consegui, no entanto, não perder a fome. E, fome instalada, a gente decide o que vai matá-la. Hamburguer do Raul Seixas: sanduíche com nome de música. O meu? "O Homem" e, então, o moço do trailer pergunta "o seu Homem é completo?" e, eu, "e não seria?!?"...
Porradas todo mundo leva na vida, afinal. O desafio é aprender com as porradas. E tinha um bar no meio do caminho, no meio do caminho tinha um bar... Sentei para conversar cinco minutinhos com um amigo, não tomei a quarta cerveja do dia, levantei e vim pensando em postar este relato, terminando com o que decidi descendo do ônibus: quando a vida brecar e eu sentir a porrada final, quero levar um risinho cínico, a certeza de que eu assumi as vontades... e vivi.
 
 
Em 20 de Dezembro de 2006.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Nada é por atraso...

ATRASO PONTUAL
 
Ontens e hojes, amores e ódio,
adianta consultar o relogio?
Nada poderia ter sido feito,
a não ser o tempo em que foi lógico.
Ninguém nunca chegou atrasado.
Bençãos e desgraças
vem sempre no horário.
Tudo o mais é plágio.
Acaso é este encontro
entre tempo e espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que faço?

[Paulo Leminski]

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Um poema de Carlinhos

Ah!...As andorinhas...
Em seus vôos plenos de sol...
A alegria plena de paz
Pulsando em cada célula
Do seu ser.
Os Boing’s jamais terão
A alegria desse vôo
Pleno...
De liberdade,
De vida saudando
O criador,
Da alegria de existir,
Simplesmente
Existir...

Carlos Maia.

Junho/92.

Algo a Declarar - Sérgio Leandro


Eu só queria um amor que fosse meu,
Um único dia sem esse silêncio triste dentro de mim,
Uma canção que falasse de infância,
Uma lembrança madura com cheiro de terra molhada
E ninguém para chorar no dia dos mortos.
(Todos nós temos alguém para chorar no dia dos mortos)
Eu queria que minhas mãos só se levantassem para a poesia
(eu falhei, meu Deus, eu falhei)
Por isso trovejam em mim idéias de abandonar-me, esquecer as flores
Como alguém que se perdesse pelos cômodos da própria casa,
Mas a poesia, canção de resistência,
lança setembros ensolarados nos olhos da tempestade.
Até mesmo no abismo permaneço de pé
E a estrela que me deste arde em minhas mãos.

Sérgio Leandro
02/09/08.

O mau samaritano - Murilo Mendes

Quantas vezes tenho passado perto de um doente,
Perto de um louco, de um triste, de um miserável,
Sem lhes dar uma palavra de consolo.
Eu bem sei que minha vida é ligada à dos outros,
Que outros precisam de mim que preciso de Deus
Quantas criaturas terão esperado de mim
Apenas um olhar - que eu recusei.

Avante - Lucas de Souza

Fui quieto
Fui tranqüilo
Fui do jeito que sabia

Fui metido
Fui humilde
Fui tentando melhorar

Fui carente
Fui brilhante
Fui feliz
Fui penitente

Fui ao céu
Fui ao inferno
Fui sem nunca reclamar

Fui alegre
Fui brincante
Da beleza, fui amante
Fui tormenta
Fui levante

Fui à luta
Fui à lona
Fui aluno
Fui à zona

Fui insônia
Fui incêndio
Fui vermelho
Fui boêmio

Fui correndo
Fui tremendo
Fui tentando não parar

Fui artista
Fui amado
Fui andante
Fui intenso
Fui vivendo
Fui avante
Até o dia em que não mais voltei