domingo, 31 de janeiro de 2010

Mestre Capiba

De chapéu de sol aberto
Pelas ruas eu vou
A multidão me acompanha, eu vou
Eu vou e venho pra onde não sei
Só sei que carrego alegria
Pra dar e vender
(deixa o barco correr) 

De chapéu de sol aberto
Pelas ruas eu vou
A multidão me acompanha, eu vou
Eu vou e venho pra onde não sei
Só sei que carrego alegria
Pra dar e vender
(deixa o barco correr) 

Espero um ano inteiro
Até ver chegar fevereiro
Pra ouvir o clarim clarinar
E a alegria chegar
Essa alegria que em mim
Parece que não terá fim
Mas, se um dia o frevo acabar
Juro que eu vou chorar

..................................................

- E já são "30" carnavais!!!

Escravo da Alegria

E eu que andava nessa escuridão
De repente foi me acontecer
Me roubou o sono e a solidão
Me mostrou o que temia ver
Sem pedir licença, nem perdão
Veio louca pra me enlouquecer
Vou dormir querendo despertar
Pra depois de novo conviver
Com essa luz que veio me habitar
Com esse fogo que faz arder
Me dá medo e vem me encorajar
Fatalmente me fará sofrer

Ando escravo da alegria
Hoje em dia minha gente
Isso não é normal
Se o amor é fantasia
Eu me encontro ultimamente
Em pleno carnaval

.desatando nós.


"Você me disse que eu sou petulante, né?
acho que sou sim, viu?
como a água que desce a cachoeira
e não pergunta se pode passar
você me disse que meu olho é duro como faca
acho que é sim, viu?
como é duro o tronco da mangueira
onde você precisa encostar
você me disse que eu destruo sempre
a sua mais romântica ilusão
e destruo sempre com minha palavra
o que me incomodou
acho que é sim
como fere e faz barulho o bicho que se machucou
como fere e faz barulho o bicho que se machucou"


[oswaldo montenegro, "canção do lobo"]

Tesoura do Desejo - Alceu Valença

Você atravessando aquela rua vestida de negro
E eu lhe esperando em frente a um certo bar, Leblon
Você se aproximando e eu morrendo de medo
Ali, bem mesmo em frente a um certo bar, Leblon
Quando eu atravessava aquela rua, morria de medo
De ver o teu sorriso e começar um velho sonho bom
E o sonho fatalmente viraria pesadelo
Ali, bem mesmo em frente a um certo bar, Leblon
- Vamos entrar...
- Não tenho tempo!
- O que é que houve?
- O que é que há?
- O que é que houve, meu amor, você cortou os seus cabelos?
- Foi a tesoura do desejo, desejo mesmo de mudar

sábado, 30 de janeiro de 2010

O novo de novo.

O novo sempre vem...

Vinícius de Moraes - Soneto do Amor Total

Soneto do amor total

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.


Rio de Janeiro, 1951

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Deixa...

Se Puder Sem Medo

Oswaldo Montenegro

Deixa em cima desta mesa a foto que eu gostava
Pr'eu pensar que o teu sorriso envelheceu comigo
Deixa eu ter a tua mão mais uma vez na minha
Pra que eu fotografe assim meu verdadeiro abrigo
Deixa a luz do quarto acesa a porta entreaberta
O lençol amarrotado mesmo que vazio
Deixa a toalha na mesa e a comida pronta
Só na minha voz não mexa eu mesmo silencio
Deixa o coração falar o que eu calei um dia
Deixa a casa sem barulho achando que ainda é cedo
Deixa o nosso amor morrer sem graça e sem poesia
Deixa tudo como está e se puder, sem medo
Deixa tudo que lembrar eu finjo que esqueço
Deixa e quando não voltar eu finjo que não importa
Deixa eu ver se me recordo uma frase de efeito
Pra dizer te vendo ir fechando atrás da porta
Deixa o que não for urgente que eu ainda preciso
Deixa o meu olhar doente pousado na mesa
Deixa ali teu endereço qualquer coisa aviso
Deixa o que fingiu levar mas deixou de surpresa
Deixa eu chorar como nunca fui capaz contigo
Deixa eu enfrentar a insônia como gente grande
Deixa ao menos uma vez eu fingir que consigo
Se o adeus demora a dor no coração se expande
Deixa o disco na vitrola pr'eu pensar que é festa
Deixa a gaveta trancada pr'eu não ver tua ausência
Deixa a minha insanidade é tudo que me resta
Deixa eu por à prova toda minha resistência
Deixa eu confessar meu medo do claro e do escuro
Deixa eu contar que era farsa minha voz tranqüila
Deixa pendurada a calça de brim desbotado
Que como esse nosso amor ao menor vento oscila
Deixa eu sonhar que você não tem nenhuma pressa
Deixa um último recado na casa vizinha
Deixa de sofisma e vamos ao que interessa
Deixa a dor que eu lhe causei agora é toda minha
Deixa tudo que eu não disse mas você sabia
Deixa o que você calou e eu tanto precisava
Deixa o que era inexistente e eu pensei que havia
Deixa tudo o que eu pedia mas pensei que dava

domingo, 24 de janeiro de 2010

A espera de um (quase) milagre...

Hino dos Batutas de São José

(João Santiago)
 
Eu quero entrar na folia meu bem
Você sabe lá o que é isso
Batutas de São José
Isto é parece que tem feitiço
Batutas tem atração que
Ninguém pode resistir
Um frevo deste que faz
Demais a gente se divertir
Deixa o frevo rolar
Que eu só quero saber
Se você vai ficar
Ai meu bem sem você
Ah, não há carnaval
Vamos cair no passo
E a vida gozar
Deixa o frevo rolar
Que eu só quero saber
Se você vai ficar
Ai meu bem sem você
Ah, não há carnaval
Vamos cair no passo
E a vida gozar


Banda de Pau e Corda

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

porque sou do tamanho do que vejo...

Não tenho ambições nem desejos.
Fernando Pessoa


Não tenho ambições nem desejos.
ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sózinho.
...

Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
...
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem sabe o que é amar...
...

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
...

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Ao que vai chegar...

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

[de renúncias]


Uma definição


Mais que o medo, o asco.
Mais do que nunca, a dor.
De novo cai a madrugada...

Febre da verdade.
Consciente delírio
(ou premunição)
anuncia o que será...
Renúncia:
Escolha entre um e outro bem,
Busca da espada da morte sem dor.



Arte?!? Onde?





"O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda" (Nelson Rodrigues).

Erickson - Uma Presença



UMA PRESENÇA

Vez por outra uma presença
me confunde a solidão
menos espero
e muito mais me vejo só

Não ter do que ter saudade
me deprime e reanima
se me constrange
também não me tira a calma

Além da dor que me embriaga
a lucidez
resiste ao dia, a esta cidade
e a vocês

(erickson luna)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

...por que não fui eu que fiz?!?

"Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros."

(Clarice Lispector)

(...)

Práticas radicais de sinceridade
No risco (inapagável)
do atrevimento de dizer-se
a verdade...

(quase-profecia?!?)

"Olha que amor, Luciana
É como a flor, Luciana
Olhos que vivem sorrindo
Riso tão lindo
Canção de paz

Olha que o amor, Luciana
É como a flor que não dura demais
Embriagador
Mas também traz muita dor, Luciana" 


 ("LUCIANA": Vinícius & Tom Jobim)

domingo, 10 de janeiro de 2010

Vinícius de Moraes - Fuga e Adágio

Fuga e adágio


Vou sair correndo desta cidade em busca de um lugar qualquer onde possa escrever o poema da minha desgraça
Vou, porque já é demais para mim o espetáculo incessante da simulação e inexpressão das almas
Vou sair correndo, correndo... correndo pelas avenidas, pelas ruas, através os homens vestidos e as mulheres nuas
E os edifícios… vou sair, fugindo, fugindo dos olhares estéreis dos edifícios, correndo pelas ruas como um ladrão que se sentisse perseguido
Vou sair, vou movimentar toda essa gente fazendo com que me olhem, vou parar os carros fazendo com que não me matem, vou
Porque não posso mais desse irremediável – vou – tão maior e tão mais fraco do que eu mesmo, que me leva e me deixa gravado em todas as faces da vida...


[vinícius de morais]

[utilidade marginal decrescente]

Há nas Ciências Econômicas uma lei,
de oferta e de procura,
segundo a qual
aquilo que não é escasso
é desprovido
gradualmente
de valor...

Talvez, por isso, tão facilmente,
eu sempre encontre gente
pronta
a fazer sem valor
a largueza de sentidos que se ofertam
prodiga e profundamente
como se os recursos
(de mim)
desconhecessem a escassez...


(poemeto para um coração "mão-aberta"... É o meu!!!rsrsrsrs, em 2007)

Carta aos Camaradas - Sérgio Leandro

Meus camaradas,
A tarde é breve,
Mas temos tempo suficiente para mais uma dose

de sonho,
Antes que caia a noite
E o silêncio preencha os cômodos da casa.
Meus camaradas,
A vida é dura e cruel,
Mas a poesia resiste, árvore frondosa e bela,
A poesia resiste apesar de todos os golpes e infortúnios.
Meus camaradas,
As taças com o brilho do vinho parecem corações,
Eu sei que a vida evapora como fumaça
De nossos cigarros
Mas a poesia insiste
A poesia constrói em meio a desmoronamentos.
Meus camaradas,
É alta madrugada
E eu vos digo: Bom Dia!
 
 
 
Disponível no Blog do poeta Carlos Maia:
http://poetacarlosmaia.blogspot.com

E a cidade brilhava... - Carlos Maia

E a cidade brilhava,
Sob as estrelas,
As suas luzes tranquilas...
E lembrava o sonho
Dos Reis Magos
A passear naquele céu
Pleno de paz...
E a terra
Pulsava em harmonia
Naquela noite
Sob as estrelas...
Como se o despertar
Dos homens
Fosse um sonho
Possível,
Naquela noite,
Naquela cidade,
As estrelas...





Carlos Maia
Outubro/91.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Véis. E bruxaria.




















Dizem que os mistérios se escondem por detrás de véus...
No Universo (Infinito!), um véu nos acena que o Mistério é luminoso.

...porque no es lo mismo que vivir honrar la vida!

...porque no es lo mismo que vivir
honrar la vida!






cortesia de www.letras.com.br

...porque no es lo mismo que vivir honrar la vida!

Nó...! Permanecer y transcurrir
no es es perdurar, no es existir,
ni honrar la vida!
Hay tantas maneras de no ser
tanta conciencia sin saber,
adormecida...
Merecer la vida, no es callar y consentir
tantas injusticias repetidas...
Es una virtud, es dignidad
y es la actitud de identidad
más difinida!
Eso de durar y transcurrir
no nos dá derecho a presumir,
porque no es lo mismo que vivir
honrar la vida!

Nó...! Permanecer y transcurrir
no siempre quiere sugerir
honrar la vida!
Hay tanta pequeña vanidad
en nuestra tonta humanidad
enceguecida.
Merecer la vida es erguirse vertical
más allá del mal, de las caídas...
Es igual que darle a la verdad
y a nuestra propia libertad
la bienvenida!
Eso de durar y transcurrir
no nos da derecho a presumir
porque no es lo mismo que vivir
honrar la vida!

("honrar la vida", Mercedes Sosa)

Iremar Marinho

O barqueiro

Iremar Marinho

Sei o perigo que corres, Caronte.
Sei o inevitável do Aqueronte.

Não sei como te salvar.

Um dia não retornarás
do inferno-porto.

Dante perde para sempre Beatriz.

Ferreira Gullar

Dois e dois são quatro

Ferreira Gullar

Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena

Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
como é azul o oceano
E a lagoa, serena

Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena

- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.

[LIVROS]

LIVROS

Demóstenes Felix

Os livros
Sem estantes,
minha vida
Nesse instante.
Poeiras,
passados,
rabiscos
rasgados,

Tantos livros
abandonados,
Tantos dias
folheados,

Quantas páginas
vividas,
Quantas horas
amareladas,
Há pedaços de vida
Em tudo que é lado.
-
Antolgia Poética dos Poetas Independentes. Tânia França organizadora. Recife: Ed. do Livro Rápido, 2007, pág. 60.

Inventário - Augusto Frederico Schmidt.

Há um berço vazio, onde ninguém veio dormir,
Há uma viagem que jamais se realizou,
Paisagens que nunca foram vistas.
Há lembranças de sonhos partidos.
Uma casa construída pela imaginação
E cujas portas ninguém transpôs.
Há planos que foram abandonados
Para sempre.

Há algumas horas de paz e de silêncio,
Coroando sofrimentos e lágrimas invisíveis.

Há uma tristeza do que poderia ter sido,
De algumas palavras que pareciam
De compreensão e piedade,
E há o desgosto deste mundo.

Há algumas imagens da juventude
E a saudade de um fruto claro
Para sempre perdido.

Supernova


..ouvir estrelas..










Ora (direis) ouvir estrelas!


XIII

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto ...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas." 


Olavo Bilac 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

meu tempo é quando






O verbo no infinito


Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar

Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.

E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito

E esquecer tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...


Rio de Janeiro, 1960

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Lembrete de poeta

E recebi da amiga Verônica Pessoa, educadora popular e fazedora de sonhos, como mensagem de Ano-Bom:
 
Só um lembrete do Quintana...

'A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado.
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.
Desta forma, eu digo: Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta de tempo, a única falta que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará mais.'

 


Mário Quintana





[...e você há de saber porque isto está por aqui. rsrsrsrs]

..BRECHT.. Tempos de trevas...e espera da Aurora.

I


É verdade, vivo em tempo de trevas!
É insensata toda a palavra ingénua. Uma testa lisa
Revela insensibilidade. Os que riem
Riem porque ainda não receberam
A terrível notícia.


Que tempos são estes, em que
Uma conversa sobre árvores é quase um crime
Porque traz em si um silêncio sobre tanta monstruosidade?
Aquele ali, tranquilo a atravessar a rua,
Não estará já disponível para os amigos
Em apuros?


É verdade: ainda ganho o meu sustento.
Mas acreditem: é puro acaso. Nada
Do que eu faço me dá o direito de comer bem.
Por acaso fui poupado (Quando a sorte me faltar, estou perdido)


Dizem-me: Come e bebe! Agradece por teres o que tens!
Mas como posso eu comer e beber quando
Roubo ao faminto o que como e
O meu copo de água falta a quem morre de sede?
E apesar disso eu como e bebo.


Também eu gostava de ter sabedoria
Nos velhos livros está escrito o que é ser sábio:
Retirar-se das querelas do mundo e passar
Este breve tempo sem medo.
E também viver sem violência
Pagar o mal com o bem
Não realizar os desejos, mas esquecê-los
Ser sábio é isto.
E eu nada disso sei fazer!
É verdade, vivo em tempo de trevas!


II


Cheguei às cidades nos tempos da desordem
Quando aí grassava a fome
Vim viver com os homens nos tempos de revolta
E com eles me revoltei.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.


Comi o meu pão entre batalhas
Deitei-me a dormir entre assassinos
Dei-me ao amor sem cuidados
E olhei a natureza sem paciência.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.


No meu tempo as ruas iam dar ao pântano.
A língua traiu-me ao carniceiro.
Pouco podia fazer. Mas os senhores do mundo
Sem mim estavam mais seguros, esperava eu.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.


As forças eram poucas. A meta
Estava muito longe
Claramente visível, mas nem por isso
Ao meu alcance.E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.


III


Vós que surgireis do dilúvio
Em que nós nos afundámos
Quando falardes das nossas fraquezas
Lembrai-vos
Também do tempo das trevas
A que escapastes.


Pois nós, mudando mais vezes de país que de sapatos, atravessámos
As guerras de classes, desesperados
Ao ver só injustiça e não revolta.


E afinal sabemos:
Também o ódio contra a baixeza
Desfigura as feições.
Também a cólera contra a injustiça
Torna a voz rouca. Ah, nós
Que queríamos desbravar o terreno para a amabilidade
Não soubemos afinal ser amáveis.


Mas vós, quando chegar a hora
De o homem ajudar o homem
Lembrai-vos de nós
Com indulgência.

Quando as horas são boas...


letras de músicas no letras.com.br

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

"nada es más simple, no hay otra norma..."

Todo se transforma

 

Tu beso se hizo calor,
luego el calor, movimiento,
luego gota de sudor
que se hizo vapor, luego viento
que en un rincón de La Rioja
movió el aspa de un molino
mientras se pisaba el vino
que bebió tu boca roja.

Tu boca roja en la mía,
la copa que gira en mi mano,
y mientras el vino caía
supe que de algún lejano
rincón de otra galaxia,
el amor que me darías,
transformado, volvería
un día a darte las gracias.

Cada uno da lo que recibe
y luego recibe lo que da,
nada es más simple,
no hay otra norma:
nada se pierde,
todo se transforma.

El vino que pagué yo,
con aquel euro italiano
que había estado en un vagón
antes de estar en mi mano,
y antes de eso en Torino,
y antes de Torino, en Prato,
donde hicieron mi zapato
sobre el que caería el vino.

Zapato que en unas horas
buscaré bajo tu cama
con las luces de la aurora,
junto a tus sandalias planas
que compraste aquella vez
en Salvador de Bahía,
donde a otro diste el amor
que hoy yo te devolvería......

Cada uno da lo que recibe
y luego recibe lo que da,
nada es más simple,
no hay otra norma:
nada se pierde,
todo se transforma.
 
 
["todo se transforma", Jorge Drexler]