sábado, 13 de novembro de 2010

Um poema. Da gaveta de Guardados...

Entendi te querer
somente quando
percebi que te quis
em euforia de festa,
cantando alto sem seresta,
dançando na rua sem carnavais...

E somente
quando considerei a tua felicidade
em autonomia, o teu sono (sozinho)
em tua cama e o teu riso
sem as minhas brincadeiras ...

Entendi, então,
que eu te queria de qualquer maneira:
queria te ver sorrindo
(ou não te ver e saber que sorrias...),
queria te escutar resmungando,
queria te escutar ressonando,
queria acordar com o teu virar na cama...

Queria te ver em paz,
queria te ter em casa,
guardado para as noites frias...
Queria, ainda, te deixar sozinho
e jurar para mim mesma, no espelho,
que não pediria nunca para voltares
(até porque bem saberias o caminho...).

E eu te queria de cabeça-quente,
ou frio, quase gelado,
ameaçando acabar com tudo
e eu a te demover da (in)decisão com choro...

Eu te quereria também com pressa
e te quereria com calma,
porque te quero com alma
como te quero na carne
com as mil partes de mim
que pulsam
à recitação de um poema,
que estremecem
ante a visão de tua boca
e com a parte de mim
que te escolhe no jogo,
que te chama à dança,
que se queixa, mas não cansa
de te buscar...

E buscar, de ti, a voz.
Buscar, de ti, a língua.
Buscar, de ti, os dentes
e a mordida
e morder, em ti, a Vida.
Eu, que te busco como à comida
para não morrer de fome,
para não morrer de raiva,
nem de espera
ou frio...
Eu, que não guardo na boca
o teu nome
para encantar com tua luz
as noites sem graça,
para justificar incomposturas
no meio da praça
e para ousar dizer de ti
o que nem sabes...

Tudo, porque eu te quero assim:
ouvindo-me atento,
e espantado,
e sorrindo,
e sabendo...
Eu te quero pela insistência cega do querer!
Eu te quero cuidado.
Eu te quero remanso.
Eu te quero guerra,
alcançando todos os territórios de mim,
conquistando,
explodindo,
sem pausas, sem tréguas.

Eu te quero chão,
minha terra e leito,
lavoura e rio...
Quero-te ali, onde eu me deito.
Quero-te em chão macio
ou em terra molhada,
ceifarmos quando ainda é madrugada...
Quero este querer fértil...

Eu te quero sem mudança de endereço,
sem virar para o avesso,
sem virada de mesa...
Eu te quero sem mudança de hábito,
sem contrato
e sem consórcio...
Quero-te sem mudar nada de ti
ou de mim.
Eu te quero em tua casa
e te quero na minha.
Quero... Quero...
Quando estou contigo
ou sozinha,
quando me falta o que fazer
ou quando me foge o tempo.

Quero-te, portanto, para me envolver
em lugar da roupa,
para despir-te sem usar as mãos,
para dizer-te "amor" sem a boca,
para minha boca trazer-te mais que palavras.

Eu te quero em corpo
e quero alma - dilatada e pura -
para querer-te bem.
Eu te quero, enfim, poema de minha lavra,
coisa que me veio de dentro...

Eu te quero, profundamente,
no centro,
insabido,
desconhecido,
de mim.



Recife, Várzea do Capibaribe, 14 de Fevereiro de 2007. 

[Chamei-o, depois, "Explicação de Ansiedade", por um tempo apenas. Mas nem considero este um "título"... Este, virá!]

2 comentários:

Carlos Alberto Ferrera disse...

Saber se dar; saber se conter... Até quando ??? Até onde??? Basta ou sobra??? Abraços...

Diogo Didier disse...

É triste saber que a intolerância para com os homosseuais ainda é gritante. Esse caso, pelo qual você e Michel presenciaram, é um entre os tantos que ocorrem contra a comunidade gay e que é desconsiderado pelas repartições legais.

Fiquei feliz com a sua atitude e a de Michel, pois é de pessoas assim de que o nosso país precisa. PARABÉNS pela coragem em defender o próximo acima de qualquer coisa!

Ah! também gostei muito da poesia viu?! bjoxxxxxxxxxxxxx linda!