segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Receita de (e)ternidades... - Luciana Cavalcanti


Trago no pulso um relógio que teve o ponteiro de segundos solto de seu motor... Meu relógio já não conta segundos. Mais: o ponteiro, solto, sob o vidro do visor ilude-me ante a estagnação dos dois outros companheiros, os ponteiros de minutos e de horas, lerdos em dizer-me do tempo passado; ao mesmo tempo, este mesmo ponteiro, solto, tem agora uma mobilidade imprevisível. Parado ou movendo-se sem tempo, o ponteiro de segundos torna flagrante a relação entre o tempo e o caos. O ponteiro não conta segundos ao mover-se e, no entanto, redesenha sob o vidro o movimento de minhas mãos. Torna-se rápido ou se espreguiça sempre que as mãos se alvoroçam ou dormem.
Meu ponteiro de segundos reinventa o tempo.
O tempo do ponteiro de segundos é meu... Seus companheiros, de horas, de minutos, não sabem do meu tempo. O tempo em horas e minutos me escapa. Mas como não há segundos a me tomarem pelo pulso, já não me importo com os segundos. Perco-os. Prendo-os. Solto-os. Esqueço-os!
Sem me dar conta, passei a rabiscar eternidades na tela do tempo, re-feito de meu relógio quebrado.

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