terça-feira, 7 de setembro de 2010

Poemas Sobre Educação - Carlos Rodrigues Brandão





I


avós e netos no meio da noite

Como teria sido a noite talvez esquecida de todas as memórias?
Uma noite primitiva e ancestral na aurora da história,
quando um pequeno ser vivo, um milhão de anos depois chamado: “homem”,
Chamou para um lugar mais perto da fogueira acesa o seu neto
e então, apontando com dois dedos da mão direita uma estrela.
entre as muitas do céu de julho, pronunciou pela primeira vez
o seu primeiro nome. Como terá sido aquela noite?
Com que gestos de um afeto rude, no entanto cheios de uma estranha luz,
mais do que a fogueira, mais do que a das estrelas do inverno
teria acontecido aquilo um dia ... no meio da noite?
Como teria sido, anterior de mil milênios
uma outra noite, mais esquecida ainda no silêncio do tempo
quando um ancestral mais antigo ainda daqueles primeiros homens
descansou sobre os ombros de um menino o peso do braço
e entre movimentos das mãos apenas, e do olhar
ensinou a ele pela primeira vez um pequeno segredo
num tempo em que debaixo das árvores e das estrelas não existiam ainda
nem mesmo as palavras, nem mesmo os nomes do mundo?
 
Como teria sido o desenho daqueles gestos sem voz
e tão humanamente simples que sob a proteção dos astros
o homem e o menino adormeceram sem de longe imaginar
que haviam feito ali o milagre de aprender-e-ensinar
para que o saber não morra, e nem as pessoas, e nem as estrelas?
Que pássaros acordados na noite e que outros seres dos céus
é que flores noturnas dessas onde só o perfume
já torna tão cheio de mistérios o mundo e a vida
terão assistido, uma vez e outra, separadas de um milhão de anos
aqueles instantes fugazes da história quando, primeiro o gesto
e, depois, a palavra, teriam criado a façanha de inventar a troca
entre os símbolos, entre os sentidos e entre os sentimentos do mundo através dos gestos da vida em consciência e em saber?
transformados naquilo a que outros, tanto tempo depois,
deram o nome de educação, entre os homens e os filhos dos homens.

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