sábado, 19 de junho de 2010

Poesia reunida - Luciana Cavalcanti




1. Diagnóstico

Sofro quando amo.
Sofro quando não amo.
Sofro pelo simples ato
de pensar o que seja o amor.

Sofro o passado morto.
Sofro o presente insípido.
Sofro o futuro incerto
e a agonia de sentir o tempo.

Sofro gastrite crônica
e detesto tomar remédios.
Sofro desgaste de ser
alguém que ama
e desama,
alguém que pensa
e reclama,
alguém que passa,
como tudo,
mas recusa-se a morrer!

2. Apontamentos (II)

Desisti dos discursos longos,
dos argumentos todos
que se pretendem irrefutáveis;
das noites irresponsáveis também
– contraditoriamente.
E desisti de jogar o tempo fora,
de jogar “porrinha” na mesa dum bar...

Da ciência estéril,
da vã teologia,
dos risos facílimos,
das leituras densas,
do medo de morrer e,
ainda, da vontade do mesmo,
pois ficar é,
por hora,
um protesto silencioso,
uma vontade de rir incontrolável
– ou paixão contida?!?

Desisti de conter,
de contar,
de concluir.
E de protestar,
de adiar,
de resistir...

Quero sorver à Vida
como ao suco,
abraçar ao Mundo
como a teu corpo
com tudo o que sirva
ao gesto de estreitar objeto e desejo.

E quero, ainda, correr
ao mar como à poesia – com sede, calor, ânsia.
Fazer versos como quem se molha de chuva
antes do trabalho
(e perde a pompa toda, a elegância)...
Dispensar palavras na boca
que deseja traduzir-te a poesia
e sorrir
(precisamente como fazes)
ao perceber que entendestes
o recado, sem sombras
de dúvidas.




3. Erro
(Setembro de 1996, Recife)

Folhas secas. Galhos secos.
Apenas o resto de um verde que já não há,
Do verde-esperança,
Do verde-bandeira,
Verde-paisagem.

Rouca voz. Grito vão.
Apenas tentativa de pedir socorro,
De pedir sossego,
De pedir esmola,
Pedir atenção.

Olhos embaçados. Visão turva.
E a última tentativa de fugir da sombra,
De fugir do caos,
De fugir do medo,
Fugir do nada.

Recriar. Reacender a chama.
O último desafio que valerá a pena,
Que valerá a chaga,
Que valerá o pranto,
E faz valer o erro.


4. Sinopse

Eu não
acredito no Amor,
meu amor.
Não me faça promessas,
não me acredite feliz,
nem vá convencer-se
por qualquer sorriso meu...

Eu não vou
procurá-lo se, acaso,
em meio às minhas palavras,
você se perder.

Eu tenho tantos
silêncios, amor, escute.
Você ainda não sabe,
nunca me viu chorar.
Eu vivo por você...
E morro por você. Mais nada.

5. Arquivo

Não sei se corre
ou se morre,
o tempo que visita meu quarto.

É esquivo ou solícito?

Não sei se o procuro,
ou se aguardo...

E se o tempo telefonar?
O que digo?
Direi (talvez) que sinto sua falta.

Ou lembrarei que está em dívida comigo
- um favor ainda não atendido...

Não sei se me leva
ou me esquecerá,
diante de tantos detalhes ao fazer as malas...

Quando partir o tempo,
terei partido?
Ou ficarei no quarto
a olhar as fotos
de Amor Antigo?

6. Passos

Caminha.
Até te sentires, na busca, ridículo.
Até sentires como patético o insistir.
Até que te vejas malvisto.
Até que te digas maldito.
Até que te queiras malquisto.

Então, te sentirás distante,
Ou sentirás que és disperso?

Em êxtases de crença ou dúvida,
Caminha...
E sorve essências de absoluto, ínfimo
Ou nada
Até sentires o não-sentir.

7. Investimento

Volto do mar
cheia
de futuros.
Escondo horizontes
por baixo das mangas
e não acredito
em má-sorte:
aposto alto,
especulando amores,
para ser feliz, depois,
e com juro.

8. Descuido

Traduzia o tempo em pressa
para matar a fome
e saciar a sede,
para revelar-se inteiro
e já não fingir a ausência
do amor estampado no rosto
diante do espelho.

Chegada a hora de esgotar
os argumentos todos
dos ponteiros do relógio
para sentir-se, enfim, liberto,
solto, todo o desejo.

Agora, o sonho danou-se no Mundo,
matou aula
e foi ver o mar...
exilou-se na rua. Fez-se boêmio:
embriagou-se
cantou
fez poesia
olhou a lua...e julgou-a bem vadia,mas deixou-se enamorar.

9. Pontualmente
aprendi a espera,
mas isto não é, de modo algum,
um mérito,
tampouco acrescenta-me crédito,
aprendi a mentir, em verdade.

retiro um sorriso
esquecido nos bolsos e o gasto
sem pensar
nos encontros de amanhã...
reinvento-me nas horas.

já não tenho pressa alguma.
amanhã será (um pouco) o que eu pedi.
amanhã serei o que me fizer. eu sei
que não preciso me gastar em vão
e, então, me dou inteira em tudo...


EM TEMPO: Logo os poemas aqui escolhidos estarão na Toca da Serpente, no Site Garganta da Serpente. Vale conferir!


Nenhum comentário: